Será essa a grande questão deste século: Descobrir onde está o nosso ponto de mudança? Fala-se muito em ser cidadão ativo, trabalhar em rede e a tal da responsabilidade social. De fato, discutir estes temas hoje é quase uma obrigação. Talvez a reflexão seja o primeiro passo para entendermos melhor essa questão tão ampla, complexa e que requer de mudança imediata. Será essa questão a nossa utopia ? Então, pergunto o que é ser cidadão ativo? Quem é esse cidadão ativo em tempos contemporâneos? Como esse cidadão pode e deve sobreviver em tempos sombrios?
Se a sociedade nos ensina a competir, conhecer, refletir, trocar e lutar pelos nossos direitos, como compatibilizamos essas atitudes com o “ser cidadão de hoje”? Como ter consciência dos valores e direitos da nossa comunidade? Como obter a liberdade de poder questioná-los para que ampliem nossa visão de mundo? Para tentarmos responder algumas dessas questões precisamos em primeiro lugar nos tornar cidadãos. Mas o que é ser cidadão ativo hoje?
Nós, da casa de ensaio, uma organização sem fins lucrativos, desde 1996 em nosso dia a dia, tentamos entender melhor o que vem a ser esse exercício de busca pela cidadania através da arte. A arte na Casa atua como um projeto democrático de estratégia para a transformação e a organização das formas de relação e inclusão social. Para que o nosso aluno sinta a necessidade de se tornar um cidadão ativo desde pequeno. Para que ele se torne este cidadão utilizamos como metodologia pedagógica um curso gratuito de cinco anos consecutivos, com alunos de escolas publicas entre dez e dezoito anos, oferecendo as mais diferentes linguagens artísticas de expressão e tendo como foco o teatro educação. Assim, acreditamos que possibilitamos também o desenvolvimento individual e criativo de cada aluno. Ser cidadão ativo criativo e solidário hoje passa a ser prioridade em todos os cantos do mundo .
Se a arte, que é o alimento da alma, pode ser uma das estratégias para a busca desse ser contemporâneo de inicio do século XXI, a outra pode ser aprender a trabalhar em rede. Como trabalhar em rede? Este conceito parece fundamental para se tornar cidadão de hoje. Percebemos o quanto é necessário ouvir a todos os cidadãos, para tanto, precisamos construir espaços potentes , espaços estes que também podem ser reproduzidos e que se espalham no mundo globalizado. Trabalhar em rede hoje já é uma mudança de cenário. Você passa a trabalhar na posição horizontal e não mais na vertical, de cima para baixo. Estar na horizontal é também estar em circulo e assim ver todos no mesmo plano. É sentir necessidade de que todos possam participar por convicção e não por pressão/opressão. Hoje trabalhar em rede é ter postura de humildade, e´ dialogar entre as interdisciplinidades e intersaberes, tanto com o erudito quanto com o popular. Trabalhar em rede não é mais um espaço de disputas de poder, mas um espaço de intercâmbios, de novos conhecimentos, de novos movimentos culturais, humanos,ambientais e sociais. Estar em rede é saber dialogar, concordando ou discordardando. O desacordo é também fundamental porque sabemos que com a diferença surgem novas idéias e novas atitudes.
Todo cidadão precisa ser tratado com respeito e ter oportunidades iguais, mas sabemos que a oportunidade é para quem quer mudar e para quem vai atrás dessa mudança. Trabalhar em rede não é acumular saberes, mas buscar mecanismos para trocar e nos ajudar mutuamente. É socializar conhecimentos, ter transparência, saber ouvir, descobrir o novo e aprender a transformar. Junto ao trabalho em rede, ou talvez ate mesmo antes, é necessário ‘pensar em rede’. Esse pensamento vem resgatar nosso espírito tribal, devolvendo ao cidadão a capacidade de estar junto. É poder falar sem medo, sem ser criticado. Pensar em rede é construir utopias, sonhos e produzir novas realidades. É não indicar culpados pois afinal, existem culpados nessa historia? Será o provocado ou o provocador? Não sei, é uma tarefa de porte.
E a tal da responsabilidade social? De acordo com alguns estudiosos, sabe-se que a riqueza de um país está no equilíbrio de cinco valores: cultural, social, humano, ambiental e capital. E que é a cultura que nos sensibiliza e nos mantém mais humanos. A pobreza não pode mais ser vista apenas através do olhar econômico porque ela é constituída também pela desigualdade social, ambiental e cultural. O conceito de desenvolvimento de um lugar não pode mais estar voltado somente ao crescimento econômico pois condiciona a idéia de mercado como se ele fosse o único valor. Os indicadores de crescimento que estamos acostumados a ouvir diariamente são apenas sobre o PIB, o dólar, as bolsas,etc.. mas não ouvimos os indicadores na área social, no valor humano. Por acaso temos indicadores diários de quantos jovens cidadaos são alfabetizadas diariamente? Da evasão escolar? De quantos morrem nas ruas de hoje? De quantos jovens cidadãos vivem nas ruas? De quantos trabalham? De quantos bebem água tratada? De que nós, cidadãos, estamos fazendo pelo nosso meio ambiente? Se nós, cidadãos, temos consciência do nível da água em nosso planeta? Etc… O que é responsabilidade social então? Podemos conhecer esses indicadores em sites, pesquisas e livros especializados nessas questões, mas todos conhecem?Todos se interessam?Todos podem e tem acesso a esse dados diariamente? O que é responsabilidade social então?
Começamos pelas pequenas atitudes. Por exemplo, as empresas sabem a diferença entre assistencialismo e desenvolvimento humano? Elas possuem orçamento social? Incorporam metas anuais em seu orçamento social? Quais são os caminhos para uma empresa poder gerar investimentos sociais que tenham uma transformação efetiva e não somente mercantilista? Quais são as suas metas sociais desse ano com seus funcionários e sua comunidade?
E enquanto cidadão, quais são os seus sonhos sociais ou os seus sonhos são apenas de consumo? Como sair do meu eu, do meu mundinho ,do meu ego e desenvolver um senso de responsabilidade social dentro da nossa casa, do nosso trabalho, da nossa empresa, da nossa comunidade e da nossa rede? Como poder usar soluções mais humanas,mais ecológicas e mais democráticas? Como crescer e poder lucrar com consciência social? Como se tornar alem de um cidadão ativo, um ser ativo solidário e tornar esse novo cenário um projeto de vida? Como ter mais cuidado consigo mesmo e com o seu próprio? Sabemos que existem empresas com referencias de excelências em responsabilidade social e você faz parte de uma delas?
Obviamente, não tenho as respostas para todas essas perguntas. Penso que talvez um caminho seja conhecê-las, ouvi-las e refleti-las. Aqui mesmo em Campo Grande (MS), já iniciamos um processo, em 2007, sobre todas essas questões em um evento patrocinado pela Fundação AVINA, denominado “Empresas e Comunidades “e que esse ano deverá acontecer novamente em setembro. Empresas e comunidades juntas dialogam para desenvolver um mundo melhor, no melhor sentido da palavra.
Enfim responder a essas questões é tentar concluir sem conclusão, porque ninguém conclui nada. Em tempo, te pergunto: Em que mundo você quer viver? Voce vive em Paz? Você faz a sua parte? Você conhece onde esta o seu ponto de mudança? Como diz a musicista e pacifista baiana Lydia Hortelio: “a paz só virá com autonomia e respeito”. Só assim veremos florescer as culturas do mundo e a humanidade poderá se beneficiar com as experiências amplas e irrestritas de todas os povos, de todas as culturas.
Ser ou não ser cidadão, será esse o ponto da nossa questão? Qual é o seu ponto de mudança? O meu, tomo carona com as palavras do nosso poeta Manoel de Barros: “eu penso em renovar os homens usando as borboletas”. E você ?
Laís Doria