Por que andamos em círculo?

Simone Zarate argumenta que as políticas culturais locais estão na contramão da agenda internacional

As transformações mundiais dos últimos anos, o reconhecimento da importância social e econômica das culturas pelos organismos internacionais e o desenvolvimento tecnológico promoveram uma nova agenda para as políticas culturais.

Culturas e identidades se cruzam tornando-se cada vez mais diversas e mutantes; conglomerados transnacionais da indústria cultural expandem-se vertiginosamente;  novas tecnologias possibilitam o surgimento de expressões criativas que perpassam e ultrapassam as fronteiras rígidas das “belas artes”, da mesma maneira em que transformam os modos de produção, distribuição e consumo culturais.

Porém, ironicamente, na medida em que o debate sobre novos papéis adquire mais importância em discussões globais, perde espaço e poder nas políticas locais que, por surdez ou ingenuidade, se distanciam dos atuais desafios. 

O descompromisso na escolha de dirigentes e a ausência de incentivo à formação de gestores refletem a pouca importância destinada à cultura como fator de desenvolvimento das cidades. Acertos e erros resultantes das intervenções governamentais nos municípios se devem mais às “boas intenções” do que ao profissionalismo, aquele mesmo profissionalismo exigido em outras políticas públicas.

Dada a natureza simbólica da área, o tratamento destinado às políticas culturais nas gestões públicas transita entre dois universos: por um lado, vistas como “suplemento alimentar” do espírito que, como suplemento, salvo espetáculos periódicos, não tem lugar nas discussões e prioridades de governo; por outro lado, gestores e equipes apóiam-se em discursos construídos com linguagens cifradas, compreensíveis apenas entre pares, postura agravada pela insistência em ignorar a necessidade e importância de diagnósticos, planejamentos e avaliações, pois “estas ferramentas não se aplicam à intangibilidade”. 

Nesse contexto, não é de estranhar que várias re-par-ti-ções públicas realizem  “atividades culturais”, cada qual por sua conta e risco, enquanto as secretarias de cultura se comportam apenas como produtoras de eventos. Não vemos um plano estratégico de cultura para as cidades, mas atividades artísticas fragmentadas que raramente se relacionam, não havendo esforços para a convergência das propostas visando enriquecimento, transversalidade e resultados.

Ainda considerando a incipiência da profissão, da oferta de cursos de formação e de bibliografia especializada no Brasil,  é necessário e urgente o investimento em (in) formação de gestores/mediadores para que haja melhor aproveitamento do potencial criativo de todos os envolvidos no processo, do gestor político ao agente que está na outra ponta, em contato direto e cotidiano com o público.

Gestores despreparados, mesmo que repletos de boas intenções, dificilmente terão condições de implantar e sustentar políticas afinadas com os tempos atuais. Continuaremos a testemunhar a preparação da receita com toques pessoais, a implantação de políticas particulares de cultura.

A cena é a do cachorro correndo atrás do próprio rabo: a desinformação provoca a incapacidade de implantação de políticas consistentes, que provoca a disseminação de atividades artísticas descontextualizadas, que aciona o piloto automático, que provoca o descrédito ante outros setores e ante a população, que provoca o isolamento, o afastamento do público, a acomodação… Que provoca a desinformação,  que…

E assim, assistimos a formação de um círculo vicioso extremamente prejudicial às conquistas que almejamos, dentre elas o respeito e a compreensão de que cultura não é apenas o show de aniversário da cidade, mas a base para o direito à cidade.

Seria ingênuo e simplista acreditar que a solução do problema esteja apenas na titulação técnica ou acadêmica de gestores de políticas culturais, porém é fato que a compreensão das novas dinâmicas socioculturais, aliada a conhecimentos de planejamento, mercado, públicos, legislação e comunicação, entre outras disciplinas, daria uma perspectiva mais otimista à situação atual.

Simone Zarate

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