Texto de opinião de Danilo Tavares, com a colaboração de Miriam Vieira

A arte e a cultura foram elementos muito presentes para que as pessoas superassem as dificuldades do confinamento. Assistir filmes e séries, games, podcasts, bate papos e cursos livres via internet, livros e música foram algumas das formas de arte e de entretenimento que fizeram com que as nossas vidas tenham sido um pouco mais leves diante de um cenário crítico de crise, incertezas e com muitas pessoas enclausuradas em casa com suas famílias.

A alegria das artes deve nesse momento ser um propulsor econômico na geração de trabalho e renda, na reintegração social nas escolas, praças públicas, pontos de cultura, associações etc. Sobretudo, com atividades que atuem de forma transversal com pastas como a de Meio Ambiente, Educação, Urbanismo e Planejamento. Quais são as identidades da cidade? Como transversalizar o máximo possível essas identidades em todas as ações públicas? Mas isso parece não ter como ocorrer, pois, como sempre foi, as prefeituras são uma colcha de retalhos partidários com pouco ou nada de comunicação e integração entre as pastas. E na Prefeitura de São Vicente segue sendo assim, como sempre foi. Cada vereador tem sua fatia. É tipo jogo do bicho: é ato suspeito. Todo mundo sabe, ninguém esconde, mas normalizou. A normose da política de democracia representativa atual impede o avanço da igualdade social e econômica. Todos os países chamados de desenvolvidos têm em comum uma democracia mais profunda e participativa, evitando que personalismos narcisistas interfiram a revelia na gestão pública.

Para entender a importância de uma Política Cultural para uma organização social equilibrada temos como exemplo real e atual o fato da melhora no controle da Covid-19 ter ocorrido muito graças a cultura do povo brasileiro. Com sua memória larga em relação às vacinas e às lutas contra diversas epidemias e pandemias ao longo de nossa história, os brasileiros seguem escolhendo, em sua grande maioria, se vacinar, tornando possível assim, sonhar com o retorno da convivência social e afetiva, um presente livre, mesmo que agora com novos hábitos de proteção sanitária que serão necessários conforme a realidade. E estamos nos acostumando com isso. Porém as pessoas também precisam, neste momento, sanar seus corpos, corações e mentes dos impactos transformadores causados com o distanciamento e a limitação física, espacial e social.

A pergunta que deixamos é a de por que pouco se fala em aproveitar esse retorno ao convívio socioafetivo como uma oportunidade para uma primavera cultural, social e econômica? Quem tem medo disso? Acreditamos que deva ser um momento de reencantamento das pessoas com a vida, mais que necessário para superarmos a atual crise civilizatória. Mas a histórica barbárie machista, racista, miserável e violenta e que vem crescendo nos últimos anos, sistematicamente ataca e vem assassinando muitas dinâmicas culturais por conta de uma gestão federal desastrosa – para dizer o mínimo. E é temeroso que este modelo comece cada vez mais a se difundir por municípios, que já possuam um Sistema Municipal de Cultura aos moldes do Programa Cultura Viva, desfazendo conquistas populares de anos, como está sendo o caso denunciado no município de São Vicente, onde o jovem prefeito, como um César romano, decidiu por sua magnânima sabedoria superior extinguir a Secretaria de Cultura e criar a Secretaria de Esporte, Cultura e Cidadania. A ordem dos nomes segue a do maior orçamento para o menor. E “Cidadania” é relativa às questões da mulher, juventude e comunidade negra. Para ver o compromisso deste governo com a Cidadania e Cultura, estas são pastas que estão entre os quatro menores orçamentos da gestão.

Isto está ocorrendo na histórica primeira Vila de São Vicente, lugar onde aportou o colonizar português Martin Afonso, que com sua invasão promoveu o assassinato e a escravização da população originária deste território, antecessora ao Novo Mundo. Também trouxe o pelourinho, escravização de africanos e a Igreja. Temos muitas histórias para contar que ainda não foram contadas. Temos muitas identidades, subjetividades e amores a serem resgatados e vividos nesta terra tão simbólica. E isso, sim, é dar dignidade para um povo construir sua vida e seus espaços urbanos. Dignidade não se faz com asfalto apenas, como pensa o novo-velho prefeito Kayo Amado; se faz com o coração que ele deve ter perdido por algum canto, após o resultado das urnas. Lamentavelmente.

Os artistas e produtores culturais de São Vicente estão preparados e dispostos a colocarem seus corações, mentes e mãos para cooperar com a promoção da convivência das diferenças, promovendo a consciência social, política, cultural e ambiental; a paz com voz. Mas para isso ocorrer deve-se ter respeito pelos que vieram antes, escuta aos mais jovens, participação social, democracia participativa, restruturação do Conselho Municipal de Política da Cultura e, principalmente, gerir a pasta da Cultura não apenas como eventos e cursos livres de expressões artísticas. E não apenas com 0,2% do orçamento. Não tomando decisões autocráticas. O que é isso? Síndrome do “reizinho”? Acha que pelo fato de hoje estar dançando ciranda com todos os vereadores da câmara você estará infalível? Logo você liberal, propagador da governança participativa e democrática, do enxugamento dos cabides de cargos comissionados, que prometeu construir um site intuitivo para possibilitar a população acessar uma real transparência pública. Acho que você esqueceu a sua apostila lá nos Estados Unidos quando voltou de seu curso. Ou será que a sua ideologia na realidade é outra?

Agora aguenta. É responsável por suas palavras e atos, meu caro. Existe o peso de ser bom, já disse o bigodudo Nietzsche.

E agora, José? E agora, Maria?
Agora é LUTA – escuta-se em uníssono as muitas vozes

É muito simbólico para o país nos unirmos contra este retrocesso na Primeira Vila do Brasil, local da primeira Câmara das Américas e também da primeira eleição das Américas. Uma das primeiras vilas do Novo Mundo, do início da modernidade. Precisamos de todos na luta. Essa luta não é só por São Vicente. É muito mais simbólica. É pela democracia, pela identidade do povo brasileiro. É contra a barbárie e opressão dessa gente egoísta, violenta, racista e fascista que se instalou na Presidência da República e no Governo Federal e vem se espalhando por diversos cantos deste país.

As necessidades impostas pela pandemia e a luta pela Lei Aldir Blanc, diante de um governo que nada teria feito pelo setor, se não fossem as atuações das organizações de baixo para cima no Brasil todo, o que ocasionou no fortalecimento das bases sociais do setor cultural. Somos muitos. Menciono aqui as organizações de destaque que vêm promovendo a defesa dos direitos constitucionais de arte, cultura e trabalho na Baixada Santista e que fazem parte desta denúncia contra a arbitrariedade da gestão vicentina: Movimento Amplo Cultural de São Vicente, Frente Ampla Pela Cultura da Baixada Santista, Movimento Teatral da Baixada Santista, Fórum Litoral Interior Grande São Paulo – FLIGSP e Sindicato dos Artistas e Técnicos de São Paulo – Sated/SP.

E para fortalecer a luta organizada do movimento cultural de artistas e trabalhadores vicentinos, muitos amigos, artistas, produtores e gestores culturais do Brasil e do exterior estão enviando suas mensagens de vídeos.

Já temos apoio em vídeos enviados por Silvio Tendler, Célio Turino, Kátia Teixeira, Maristela Sild (Madrid/Espanha), Profª Dra. Eva Garcia (México), Profº Dr. Armando Herrera (México), Jarbas Mariz, João Suplicy, Danilo Nunes, Marcelo Boffat, Lourimar Vieira, Alexandre Padilha, Cláudia Alonso, Amauri Alves, Luiz Fernando Teixeira Ferreira, Telma de Souza, Flávio Racci, Wilson Melo, Hélio Cícero, Deputado Maurici, Zé Virgílio, entre tantos outros.

Por isso pedimos que todas as associações de classe ligadas à arte e cultura, coletivos periféricos, sindicatos, associações, artistas, produtores culturais, deputadas e deputados, faça o seu vídeo e peça um basta ao autoritarismo e ao desmantelamento das políticas culturais, que vêm ocorrendo em São Vicente. Basta dessa barbárie! Basta! Agora é LUTA!

Quem puder fazer um vídeo com uma mensagem de apoio de até 2 minutos, pode postar em suas redes sociais e colocar #ficasecultsv #culturaviva ou enviar por e-mail para: [email protected] .

Acompanhem no Instagram do Movimento Amplo Cultural de São Vicente @mac_sv2020 e da Frente Ampla da Cultura da Baixada Santista @frenteampla.bs .

É hora de união. Vamos à luta pela nossa dignidade!

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Cultura e Mercado

contributor

Danilo Tavares é produtor cultural e documentarista. É funcionário público de São Vicente desde 2001. Na área cultural já coordenou oficinas de cinema digital para Poiesis e para o Ponto de Cultura Identidade e Região: Laboratório Caiçara de Produção Audiovisual. É gestor e desenvolve propostas de projetos para editais culturais e sociais. Atualmente é diretor da Zopp Criativa Produções e da OSICP Clube do Choro de Santos, membro do Fórum de Economia Solidária da Baixada Santista e do Observatório da Dinâmica Costeira/UNIFESP, gestor do projeto Festival Criativar de Inovação e Economia Criativa e diretor e roteirista no projeto Mães do fogo.

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