Por um punhado de dólares

Estudo da UNESCO faz avaliação inédita do fluxo mundial de bens e serviços culturais e inclui informações específicas sobre o Brasil. O mercado que mais cresce no mundo detém 7% do PIB global e é avaliado em US$ 1,3 bilhões

O comércio internacional de produtos culturais é uma parte importante da economia mundial. Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre comércio e desenvolvimento (UNCTAD, 2005), o valor global de mercado de indústrias com fortes componentes culturais e criativos está estimado em US$ 1.3 trilhões. Desde 2000, essa indústria tem crescido a uma média de 7% ao ano. Estimativas apontam ainda que as indústrias criativas e culturais respondem por 7% do PIB mundial.

Para avaliar o impacto desses fluxos, a UNESCO realizou um estudo que analisa o comércio internacional de bens e serviços culturais durante o período de 1994 a 2003, e publicou recentemente um relatório com os resultados.

O potencial econômico do setor cultural pode ser logo percebido pelo fato de que durante esses anos, o comércio de bens culturais dobrou de US$39.3 bilhões em 1994 para US$59.2 em 2003, e isso levando em conta apenas as informações baseadas nas taxas de importação e exportação.

Em uma análise de exportação de bens culturais por região, a União Européia aparece em primeiro lugar, com 51,8%, seguida pela Ásia com 20,6% e América do Norte com 16,9% (um decréscimo significativo, considerando que em 1994 ocupava 25%). A Ásia foi a região que mais apresentou crescimento no período analisado pela UNESCO, principalmente pelos seus mercados de artes visuais, videogames e mídia gravada. América Latina e Caribe representaram apenas 3%.

Já no cenário de importações, o domínio é dos  países desenvolvidos. Em 2002, os EUA estavam em primeiro lugar (US$15.3 bilhões), o dobro de valor do segundo colocado, o Reino Unido (US$7.8 bilhões). Em terceiro, aparece a Alemanha com US$4.1 bilhão.

O estudo se baseou no comércio quantificável, ou seja, os valores declarados de bens culturais que atravessaram fronteiras, e não no valor de mercado, que é considerado muito mais importante. Segundo a UNESCO, essa continua sendo uma grande dificuldade para valorar o comércio de produtos culturais.

O próprio relatório aponta que alguns dos dados apresentados devem ser interpretados com cautela, devido à freqüente falta de informações sobre os serviços culturais. Uma área essencial como copyright, por exemplo, não pode ser devidamente avaliada pela falta de dados mais concretos. O mesmo ocorre com o audiovisual. Embora as balanças de pagamento permitam algumas interpretações, há falta de dados sobre o mercado de radiodifusão.

Para superar essas limitações, o relatório apresenta uma série de informações complementares que fornece o contexto necessário para avaliar os resultados apresentados, como por exemplo, o papel da Índia na indústria cinematográfica mundial.

Apesar das lacunas, o estudo progride bastante em relação aos anteriores realizados pela UNESCO sobre o mesma tema, que estudavam o comércio cultural baseando-se no comércio de equipamentos culturais, o que levava a distorções.  Neste novo relatório, o comércio de produtos culturais foi definido como sendo as exportações e importações de conteúdo cultural, em forma de bem ou serviço. Incluiu ainda os bens e serviços necessários para produzir e disseminar este conteúdo, até como tentativa de levar em consideração o impacto que a Internet e o ambiente digital trouxeram para o sistema comercial de produtos culturais.

O relatório fornece algumas indicações importantes dos padrões de produção e consumo de produtos culturais durante um período de dez anos e mostra as tendências que resultaram da Economia Criativa. Sob esse aspecto, é interessante notar que o estudo diferenciou  os produtos culturais em essência e os produtos culturais relacionados, inspirado pela distinção entre as indústrias culturais e criativas. Esta última amplia a visão do processo criativo, levando em conta áreas como software, publicidade e arquitetura, e os produtos originados dessas atividades foram considerados como produtos culturais relacionados, enquanto os mais tradicionais são os produtos culturais em essência. Estes têm ainda um componente tangível (o suporte físico) e um intangível (o conteúdo cultural). Sendo assim, um cd de música e os copyrights associados são classificados como “produtos culturais em essência”, e os cds virgens e aparelhos de cds são “produtos culturais relacionados”.

Em uma seção do estudo sobre a origem e o destino dos bens culturais, há cinco estudos de caso, sendo um deles sobre o Brasil. É informado que em 1994, as importações de produtos culturais eram três vezes maior do que as exportações. Em 2003, a importação caiu em um terço (US$105.7 milhões), enquanto as exportações mantiveram o mesmo nível. O estudo aponta como possíveis explicações a queda drástica no valor dos videogames e mídia gravada, e a criação da Zona Franca de Manaus. Gráficos mostram que em 2003, Portugal foi o país que mais importou produtos culturais brasileiros, enquanto os EUA lideram como o país que mais exportou para o Brasil.

O relatório completo pode ser baixado em inglês ou francês no site da UNESCO:
s://www.uis.unesco.org/ev.php?ID=6383_201&ID2=DO_TOPIC

André Fonseca

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