A reconstrução na atual conjuntura do Brasil exige de nós, sociedade e governo, ação e pensamento. Se de um lado, as preocupações acertadas do governo desafiaram a cultura colonial no fortalecimento do gingar dos nossos corpos ao ritmo dos tambores baseado em nossas tradições, sobretudo com os Pontos de Cultura, um primeiro obstáculo consciente, fecha com chave de ouro uma política que soube enfrentar de maneira afirmativa as práticas espoliadoras do financeirismo que tentou transformar o currículo cultural brasileiro em pó. Há, no entanto, uma necessidade significativa de entender melhor o pensar, pensar bem em cada linha, em cada afirmação, à procura de entender melhor o Brasil.
O grande desafio do novo verbo significa chamar para essa luta o estímulo e a provocação consciente de um nível de reconstrução da cultura nacional com a finalidade principal de escrever os textos de um novo caderno intelectual sobre a cultura brasileira.
Vivemos até então participando de forma inconsciente de uma enviesada descoberta do moderno, uma espécie de delírio aonde nos foi oferecido buquê de flores artificiais de velhas palmeiras, de escolas coloniais, melhor dizendo, patriarcais.
Acontece que esse manifesto futurista cresceu na base da concordância das opiniões sem discussões estéticas ou éticas em que se matricularam gestores e pensadores nas escolas de comercio cultural, aonde os que tinham disposição para enfrentar os problemas de contabilidade, mesmo que irremediavelmente perdidos sobre a poesia da cultura, aceitaram as desproporcionais e cheias de manchas, cores do cinzento e transfigurado ambiente cultural corporativo. Resultado, as benzeduras do mercado-modelo da economia da cultura não nos devolveram a alegria contra o mal-olhado das multinacionais, ao contrário, o nosso pensamento escondido, triste se descobre agora com verminose.
É aí, no mesmo ritmo do tambor que, governo e sociedade, juntos precisam estudar sem esmorecer a influência positiva da cultura brasileira sobre todos os grupos sociais, sempre, dinamicamente, considerando a necessidade de revelar outra estrutura de pensar que não a de um proponente ou de um mecenas. Isso é direito do povo que quer chegar a uma condição de sociedade revolucionária. O bom comportamento, disciplinado de um soldado meritocrata que chegou pelos líderes da revolução artística neoliberal, defensores dos intestinos das regras de mercado, hoje sabemos, escandalizaram o Brasil com suas apressadas “renovações”. E se este pensamente neoliberal de cultura ainda vive, é preciso matá-lo depressa, colocar uma bomba no centro dessas práticas “culturais”.
O intelectualismo conservador vive no estado letárgico, inimaginável para uma revolução, portanto esperar dele um estardalhaço é o mesmo que esperar a concretização da história do boi-voador. Precisamos de um pensamento ruidoso para o coroamento de uma nova episteme ou, como dizia Mário de Andrade, será que não há mais batatas nesta terra? Se quisermos ter a sociedade adepta de nossas fortes presenças, devemos buscar a exposição e a execução de peças claras, francas e não o discurso de bastidores aonde a platéia discute os nexos das neo-aristocracias ou a violência da diluição da liberdade artística imposta pelos cofres que estão nas mãos de cronistas do marketing cultural.
Há uma coisa séria na vida do povo brasileiro, não em função dos negócios e muito menos da política, a nossa cultura institucional nasceu sem o caráter circulante como um patrimônio esquizofrênico. Se existe uma vanguarda, ela se origina dos movimentos da sociedade, não das memórias musculares, dos palacetes sombrios ou dos gestos ensaiados deformando a nossa presença nesse ovo de Colombo imposto à cultura brasileira contra a própria liberdade premiando o fazer arte nas camuflagens técnicas inspiradas numa convulsão de cunho corporativo.
Pois bem, diante dessa constatação, não nos parece que simplesmente esquecer o pensar pelo instrumento do agir nos traga de fato independência. Compreender as páginas que escrevemos, substituindo a produção desenfreada pelas reflexões da nossa realidade, é com certeza caminhar para a nossa mais urgente necessidade. Portanto, precisamos sair dessa arena de animadores culturais e observar a pendência de uma nova biblioteca que rejeite a esperteza dos negócios e das marcas autoritárias que nos chegaram como verdade nessa perspectiva que tem como concepção de cultura uma indústria de projetos de natureza meramente central, oferecida pelo mundo dos negócios, aonde se vê claramente que preponderadamente não há qualquer projeto de transformação infraestrutural em andamento.
Esse mundo malicioso, astuto e tático que nos chegou pelas leis das técnicas de captações de recursos que nos sufoca pela ditadura, não serviu para reflexão sobre as questões da nossa época. Mais do que a importância do ato de ler, a importância agora é produzir artigos que contemplem integralmente um pensamento de humanidade, aonde de fato existe a arte moderna e não essa bobagem em que o homem, como prêmio, “patrocínio”, perde o direito à liberdade para subir a rampa da estupidez obediente, aonde atravessamos integralmente e obstinadamente os valores eternos da cultura que é a própria ética. Esta que foi implacavelmente deformada pelo economismo cultural, pelo vandalismo financeirista e pelas regras da selvageria globalizada.
O que nos importa, agora, é ressaltar as frases de ordem social, e que morra o futurismo auto proclamado do barulho provocado pelo desgosto das máquinas, das reuniões e das chaves dos cofres empresariais.