Via de regra, nas palestras sobre Marketing Cultural que realizo Brasil afora, tenho insistido em ressaltar que não são apenas grandes empresas ou grandes volumes de verba que tornam possíveis os patrocínios culturais.

Posso volver aos tempos idos de adolescência e juventude lá em Rafard, terra de Tarsila do Amaral e Paulo Betti, em nossas primeiras investidas como produtor cultural. Numa cidade de 5.000 habitantes no interior de São Paulo, certamente não encontraria patrocinadores com grandes volumes de verba, motiváveis para patrocinar as peças de teatro, exposições de artistas plásticos locais ou mesmo Festivais de Música cuja repercussão ultrapassava os limites do município.

Por outro lado, também não necessitava eu de grandes verbas para realizar tais ações culturais. Assim percorria o comércio local conseguindo os cartazes com o dono do bar, os ingressos com dono da venda, os móveis para o cenário com uma loja de móveis e, pacientemente, ia montando cada pedacinho do espetáculo até vê-lo por inteiro apresentado no Palco do Cine Paratodos com lotação esgotada.

Mais tarde como Agente Cultural da Fundação MOBRAL tive que utilizar os conhecimentos da “tecnologia da escassez” para conseguir recursos aqui e ali e realizar eventos como o 1º Festival da Música Sertaneja que acabou adotado pela TV Tupi e pela Rádio Bandeirantes, ao vivo para todo Brasil, sem que tivéssemos grandes patrocinadores, Festival de Bandas Musicais, Feiras Regionais de Cultura e centenas de outros.

Nossa saga não parou aí. Mesmo no SCI, depois SCI/Equifax, utilizamos a experiência de atender a projetos culturais que muitas vezes precisavam apenas dos cartazes, da impressão dos ingressos, das filipetas, enfim de recursos de baixo custo mas que significavam a viabilização do evento. Dia desses, entrevistando o Luciano Pires, Diretor de Marketing da DANA CORPORATION ? indústria multinacional de autopeças ? no Programa Marketing Cultural na TV, pude constatar a mesma realidade. Luciano e sua equipe tem realizado uma série de patrocínios culturais sem necessidade de grandes investimentos e com altíssimo retorno, um exemplo a ser seguido. Some-se o fato da equipe de marketing da DANA realizar uma maximização do evento: a edição de um livro de arte deve estar associado à uma exposição e à possibilidade da reedição do livro e reapresentação da exposição em outros lugares. Assim o custo por mil, tão visado pelos publicitários, fica muito abaixo do que as pessoas estão acostumadas a ver.

Fundamental entender que existem projetos para todos os bolsos, basta que se saiba olhar e descobrir onde estão os produtores culturais que necessitam de verba do tamanho que o patrocinador dispõe.

Não se pode imaginar que Marketing Cultural seja restrito a grandes espetáculos, a temporadas de orquestras sinfônicas, a apresentações de artistas de renome, etc, claro que sem querer deslustrar a importância dessas realizações.

Necessário atentar para milhares e milhares de iniciativas de menor custo mas de igual ou até maior importância cultural e capacidade de atingir o público alvo do patrocinador.

Uma loja, um mercadinho, até mesmo um bar, pode apoiar e viabilizar um evento cultural e conseguir grande retorno promocional. Pode ser transformado no ponto de venda de ingressos gerando fluxo de loja, pode colocar seu nome como patrocinador, pode comprar e distribuir ingressos aos seus melhores clientes, pode distribuir folhetos no local do evento, enfim desenvolver uma ação cuidadosamente focada em seu público.

Também o chamado grande patrocinador, aquele que dispõe de verbas para patrocínio de grandes eventos pode e deve estar atento para essas oportunidades ou necessidades. A população da periferia das cidades, via de regra, não tem acesso aos teatros públicos ou privados dos centros das cidades. No entanto são também muito importantes como consumidores. Nesse caso um patrocínio de um evento na periferia pode alcançar maior repercussão e melhor retorno do que grandes investimentos no Centro.

Insisto em não querer substituir um pelo outro e sim ressaltar a importância de apoiar iniciativas locais, de tamanho menor e investimento mais baixo, mas tão ou mais importantes para o desenvolvimento do universo cultural da comunidade.

É preciso que mais e mais empresas, independente do tamanho das verbas que dispõem e sem preocupação única com os incentivos fiscais, sejam conscientizadas da importância de apoiar o desenvolvimento cultural do cidadão comum, de dar oportunidade a todos para que mostrem seus valores culturais. Afinal é no cidadão comum que vamos encontrar o grande celeiro para a descoberta de valores artísticos, muitos dos quais em breve poderão estar mostrando sua arte nos suntuosos teatros e galerias de nossas cidades.

Valorizar a cultura onde quer que ela se manifeste é o caminho para desenvolver cada vez mais cidadãos conscientes de seu papel como agentes do desenvolvimento evitando que milhares de pessoas sejam levadas a debruçar-se na janela prá ver a banda passar, se é que um dia passarão sob suas janelas.

José Maria de Campos é Diretor da Oficina de Marketing, Produtor e apresentador do Programa Marketing Cultural na TV . Foi Diretor de Marketing e Assuntos Corporativos da SCI/Equifax reconhecido como um dos maiores patrocinadores culturais. Telefone 011 ? 3032 0270 E-mail: [email protected]

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José Maria de Campos


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