Alexandre Vargas, do grupo Falos & Stercus, do RS, contesta critérios da Funarte em relação ao prêmio Myriam Muniz. Presidente da Fundação preferiu não rebater a provocação.
O presidente da FUNARTE, o Sr. Antonio Grassi, perde a compostura. Oficialmente fala a favor da cultura e da arte, extra oficialmente lança o seu discurso moralizador sobre os artistas e censura a solicitação dos esclarecimento dos fatos sobre o Prêmio Myriam Muniz Grupo Regional IV, mais especificamente o Estado do Rio Grande do Sul.
“Senhor Alexandre Vargas
Grupo Falos & Stercus
O Centro de Artes Cênicas e a Coordenação de Teatro da Funarte, responsáveis pela execução do Prêmio Miriam Muniz, enviaram-lhe resposta às indagações sobre a formação da Comissão de Avaliação do mesmo. Incluíram em anexo, comunicado dos membros e números consolidados sobre o Prêmio. No entanto seu e-mail, encaminhado a vários órgãos do Governo e da mídia, solicitando a minha renúncia me leva a responder-lhe diretamente. Sei perfeitamente da responsabilidade ,intransferível, do meu cargo e assim tenho atuado nessa gestão. Tenho a dizer-lhe que jamais renunciaria , motivado por uma denúncia vazia de um proponente não contemplado , que não apresenta uma razão minimamente razoável para seu ataque. Tenho a coragem de encarar qualquer esclarecimento , olho no olho, respondendo todos os pontos da nossa gestão. Assim temos agido. Seu manifesto é de uma covardia enorme , Sr. Alexandre. Sua “iniciativa civilizada” atirando contra alguém, sem sequer dar-lhe oportunidade ao diálogo e a defesa é de um autoritarismo sem par e desqualifica seus argumentos. Pois atira espalhando sua pesada , e improcedente, acusação para que outros lhe dêem eco. Certamente o Sr. encontrará parceiros nessa tarefa covarde. Principalmente num ano eleitoral, onde a disputa ultrapassa os limites éticos do debate. Estarei, mesmo assim, agendando um encontro em Porto Alegre, como temos feito nas outras regiões para frente-a-frente colocarmos as cartas na mesa. Tenho a coragem, e a tranqüilidade, de defender nossa gestão que ressuscitou a Funarte no cenário cultural brasileiro. Assim como expor os aspectos desse Prêmio, tão duramente conquistado em três anos de gestão.
Antonio Grassi
Presidente da Funarte
(05/05/06)”
Esta resposta veio logo depois, e tão somente, que o Cultura e Mercado entrou em contato com o gabinete da presidência da FUNARTE, sobre a publicação do seguinte artigo:
“Senhor Presidente da Fundação Nacional de Arte – Funarte: renuncie!
As ilusões não têm fim; a esquerda entrou no poder e zombou de nós, artistas do Rio Grande do Sul. Isso pode ser atribuído ao fato de ser uma inconcebível abstração a nomeação do representante dos gaúchos para o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz – Grupo Regional IV. Em face do desejo, suspeitei que iríamos diferir irremediavelmente dos governos anteriores; isso no que diz respeito às artes. Não é difícil convencer-me do meu erro: iludi-me. Tentarei examinar as razões dessa extravagante decepção.
O assombro vacila entre a arbitrariedade do discurso e a trivialidade da ação: Discurso democrático: câmaras setoriais. Ação autoritária: canetada do Diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte Sr. Antonio Gilberto indicando o representante dos gaúchos no Prêmio Myriam Muniz, a Sra. Míriam Amaral. Pois bem, suplico ao senhor Antonio Grassi que renuncie. Mas não acredito que o Presidente da Funarte tenha coragem de renunciar. Então investirei numa iniciativa civilizada: o diálogo.
Reivindicamos ao senhor Presidente da Funarte os seguintes esclarecimentos:
Como foi a escolha do representante do Rio Grande do Sul no processo de avaliação do Prêmio Myriam Muniz?
a) Quem estava presente? Local e data?
b) Existe ata de reunião?
c) É de conhecimento do Presidente da Funarte que existe uma notória relação de amizade e que existiu envolvimento profissional entre a representante do Rio Grande do Sul e um dos contemplados do Prêmio?
A responsabilidade do Presidente da Funarte é intransferível e incontornável — o atual processo de avaliação dos projetos do Rio Grande do Sul no Prêmio Myriam Muniz compromete os artistas e submete a nossa produção à especulação medíocre da lógica política do partido que está no poder. É inaceitável que não exista lisura estável e permanente na análise dos projetos do Grupo Regional IV.
Senhor presidente da Funarte, uma política cultural fundada em conceitos partidários é insignificante. O Myriam Muniz é um golpe no processo de formação do artista do Rio Grande do Sul.
Omitir-se nas respostas a estas questões é estimular o autoritarismo, violar o discurso do partido governista, inviabilizar o desenvolvimento da cultura do Rio Grande do Sul e negar ao povo gaúcho o direito de construir sua identidade cultural. Um direito constitucional que não foi respeitado. O Prêmio Myriam Muniz é genial, mas faltou honestidade intelectual e vontade política no processo de seleção dos projetos do Rio Grande do Sul.
Senhor Presidente da Funarte: renuncie! Mas não acredito que o Presidente tenha coragem de renunciar. Então invista numa iniciativa civilizada: o diálogo.
Alexandre Vargas
grupo Falos & Stercus.
Porto Alegre, 01 de maio de 2006.”
Nosso próprio conhecimento da língua portuguesa não é, como podem ver, tão grande, mas confiávamos que o Sr. presidente da FUNARTE conseguiria decifrar a nossa solicitação. Pronunciamos o seu nome desafiadoramente, exigindo o seu lugar correto na história do teatro. Solicitamos o que, segundo nos parece, é a sua maior excelência ¾ sua função de presidente da FUNARTE. Suas exigências menores, essas, também, nós proclamamos. E quando falamos do presidente da FUNARTE, em sociedades de debates e assim por diante, não forçamos a atenção dos outros com nenhuma grandiloqüência fútil.
Nesta resposta, extra-oficial, que expressa os seus subterrâneos, o presidente da FUNARTE aludi a uma série de pormenores de interesse mínimo e a inúmeras querelas que não apresentam no fundo qualquer razão.
A questão verdadeiramente central, que constitui o ponto mais urgente desse debate que se trava entre os artistas de teatro do Rio Grande do Sul e o presidente da FUNARTE, diz respeito ao significado da indicação do representante do Rio Grande do Sul. Indicação que tomou forma pela via direta do Sr. Antonio Gilberto, Diretor do Centro de Artes Cênicas da FUNARTE. Neste momento a ação da “caneta” deixou muito para trás o discurso democrático. É precisamente examinando essa contradição vital que a tese que, se em boa medida é correta e de (pavorosa) fertilidade, comete injustiça com a produção cênica do Rio Grande do Sul. Resumindo: a Câmara Setorial e entidades de classe do Rio Grande do Sul ficaram a margem deste processo do Prêmio Myriam Muniz.
A indicação direta de uma pessoa que não possui amplo conhecimento da produção cênica do Rio Grande do Sul é a questão de origem do nosso conflito, das suas causas, do seu caráter fundamental. E é o resultado final, do seu desenlace, do balanço que, no terreno da coerência, se obtém somando tudo o que se refere aos fatos e subtraindo tudo o que se refere a querelas mesquinhas, entre ambas às partes.
Resolve-se está questão analisando a manobra e o processo da indicação direta da FUNARTE em relação ao representante do Rio Grande do Sul. Esta análise, leva à conclusão de que as decisões foram tomadas por uma “minoria”; uma ala preocupada com questões de programa e de tática e não de organização e fomento sobre a atual produção cultural das artes cênicas do Estado do Rio Grande do Sul.
Na resposta oficial (1) sobre os nossos questionamentos, a FUNARTE na formulação do primeiro parágrafo, não faz mais do que desenvolver e alargar o seu erro fundamental.
Conforme o edital do referido Prêmio, no item 4.1., “a seleção será realizada por uma “comissão de seleção” constituída por portaria, integrada por 5 membros de notório saber em teatro, com amplo conhecimento da produção de teatro dos estados que compõem o Grupo Regional IV.” A questão é que o representante indicado pela FUNARTE para avaliar os projetos do Rio Grande do Sul não possui amplo conhecimento da produção que se faz hoje no Estado do Rio Grande do Sul. Além disso é de conhecimento público que existe uma notória relação de amizade e que também já existiu envolvimento profissional entre a representante do Rio Grande do Sul e um dos contemplados do Prêmio.|
A “CARTA ENVIADA PELOS JURADOS”, súmula do processo de avaliação, fala de democracia, como fonte de toda a verdade e frescor. Os fatos não são tão simples. A frágil “Carta” e o excesso de negação que nela contêm, esclarece a luta que começa a delinear-se.
“ A Comissão indicada pela Funarte para avaliação e seleção dos projetos inscritos no grupo IV do Prêmio Myriam Muniz, informa que os trabalhos aconteceram em clima democrático, de discussão e análise objetiva dos projetos concorrentes, com as escolhas feitas e aprovadas por toda a Comissão. O objetivo da Comissão era avaliar em conjunto os MELHORES projetos apresentados pelos quatro estados integrantes do grupo IV, DENTRO DOS CRITÉRIOS DO EDITAL, e foi o que se fez. Todos aqueles porventura selecionados podem estar certos de que o foram pelo CONJUNTO DA COMISSÃO, e sua inclusão entre os premiados não se deve a nenhum favor especial de qualquer um dos membros da Comissão. A não indicação para o prêmio não desmerece de maneira nenhuma a alta qualidade de muitos dos projetos recebidos, nem resulta de qualquer tipo de discriminação seja de que ordem for – grupo ou não, capital ou interior, muito menos algum tipo de interesse de ordem pessoal, mas, simplesmente o fato de que diante do alto número de inscrições e a quantidade de prêmios a ser distribuída, era inevitável a não classificação de muitos.
Atenciosamente,
Eliane Tejera Lisbôa
Margarida Rauen
Miriam Amaral
Rafael Ponzi
Renato Millani
Brusque, 2 de maio de 2006”
Enviado em 05/05/06.
A falta de atenção imerecida da FUNARTE, em relação a esta carta apresenta o quadro da situação do nosso conflito. Quadro único no seu gênero, insubstituível pela sua superficialidade, limitação, pobreza e falta de autenticidade.
O conteúdo da “CARTA ENVIADA PELOS JURADOS” e só ela, mostra-nos em que medida conseguiram varrer uma analise da atual produção de artes cênicas do Estado do Rio Grande do Sul e conseguiram substitui-la por uma ligação puramente de círculos.
As matizes existentes no entorno da indicação direta da FUNARTE, nos revela uma ação que mostra a sua força mutua e a sua intenção: “Não foi a classe artística de teatro do Rio Grande do Sul que fez a sua indicação para o Prêmio Myriam Muniz. A conseqüência deste fato é o não fomento a produção de teatro do nosso Estado.”
Os membros desejosos de participar da avaliação e seleção do Prêmio Myriam Muniz, deveriam estudar com cuidado a nossa produção artística ¾ precisamente: estudar, porque a simples leitura dos projetos e o título de notório saber são insuficientes para dar um quadro da nossa atual produção cênica do Estado do Rio Grande do Sul.
Para os artistas de teatro do Rio Grande do Sul, foi amputada a possibilidade da escolha do rosto vivo do nosso relator. Portanto não se revelou com precisão a fisionomia de nossa escolha.
Ainda uma palavra a respeito da resposta do Sr. presidente da FUNARTE, a extra-oficial, a resposta que não foi enviada a todos que acompanham este périplo. Evidentemente o Sr. presidente procura utilizar para os seus fins algumas passagens desse debate dedicado aos erros e lacunas dos administradores de um projeto que no seu todo é genial, mas que no Estado do Rio Grande do Sul foi extremamente prejudicado. No entanto não podemos ser ingênuos e olhar para a cultura de uma maneira isolada das outras questões que entristecem o nosso Brasil. Através da sua atitude ¾ lastimável para quem é presidente de uma instituição respeitável como a FUNARTE ¾, só podemos presumir que para o Sr. Antonio Grassi, os artistas do Rio Grande do Sul são obscuros e não devem ser levados a sério.
(1) Resposta formal da FUNARTE
“Ao Grupo
FALOS & STERCUS
CENTRO DE ARTES CÊNICAS DA FUNARTE e a COORDENAÇÃO DE TEATRO DA FUNARTE, COM RELAÇÃO AO PRÊMIO FUNARTE DE TEATRO MYRIAM MUNIZ – GRUPO IV vem esclarecer:
1. Conforme o edital do referido Prêmio, no item 4.1., “a seleção será realizada por uma “comissão de seleção” constituída por portaria, integrada por 5 membros de notório saber em teatro, com amplo conhecimento da produção de teatro dos estados que compõem o Grupo Regional IV.”
Com relação a esse item, a FUNARTE abriu mão da sua prerrogativa de convidar diretamente “ cinco membros de notório saber em teatro”, decidindo promover uma consulta as entidades representativas dos 4 estados que formam o GRUPO IV (MG, PR, SC e RS), através da Câmara Setorial de Teatro.
Conforme documentação da COORDENAÇÃO DE TEATRO DA FUNARTE, o RS não apresentou nenhuma sugestão de nomes para a composição da Comissão de Seleção dentro do prazo .
Apesar de esgotado esse prazo, a Coordenadora de Teatro, entrou em contato com a representante da Câmara Setorial de Teatro do Rio Grande do Sul para que, através de reunião ou encontro com a categoria, fossem tiradas sugestões de nomes para jurados do Prêmio Myriam Muniz .
No dia seguinte, 27 de março recebemos por fax, a indicação da própria representante da Câmara Setorial e + um suplente, sugestão que não foi acatada pela FUNARTE, por ter sido decidido que os membros da Comissão de Seleção não poderiam ser membros/ representantes de Estado da Câmara Setorial de Teatro.
A partir dessa realidade e pela urgência do fechamento do Corpo de Jurados, a Coordenação de Teatro e a Direção do Centro de Artes Cênicas, optaram por convidar um profissional da área de Teatro do Rio Grande do Sul.
Foi elaborada uma lista de nomes, onde Miriam Amaral constava entre os profissionais gabaritados por nós indicados. Após a escolha, o seu nome e curriculum foram prontamente aprovados pela Direção do CEACEN e pela Presidência da FUNARTE.
2. Com relação a forma isenta de trabalho desenvolvida pelos jurados, acreditamos que essa prática foi efetivada, por acreditarmos na idoneidade dos jurados e conforme o depoimento do técnico da FUNARTE que assessorou todo o processo de seleção assim como a carta enviada pelos jurados nos informa objetivamente como foram realizadas as análises de todos os projetos inscritos.
3. Em anexo estamos enviando o relatório referente ao número de inscritos e premiados no Prêmio Funarte Myriam Muniz de Teatro . Esse retorno, com essas informações, está sendo possível somente agora em função do fechamento do Prêmio Myriam Muniz em todos os grupos regionais.
Atenciosamente,
CEACEN ( Centro de Artes Cênicas da Funarte)
E COTEATRO ( Coordenação de Teatro)
Rio de Janeiro, 3 de maio de 2006.”
Enviado em 05/05/06.
Alexandre Vargas