Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo cria Escritório para incentivar a produção de obras audiovisuais que tenham como tema, personagem ou cenário a capital paulista. O objetivo: levantar a auto-estima paulistana e facilitar a locação dos espaços públicos da cidade.
Hoje qualquer criança de seis anos conhece, sem sair de casa, as ruas de Nova Iorque, São Francisco, Las Vegas, Paris, Tóquio e Londres, ou ícones que as representam. Tudo ao alcance delas na televisão ou em um DVD. Se a família assiste novelas, ou se a criança presta atenção em comerciais ou no noticiário, conhece ainda aspectos do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Essa “educação audiovisual”, e a conseqüente imagem, boa ou má, que fica dessas metrópoles, é uma das motivações da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo (SMC) na criação de um escritório para fomentar as filmagens em São Paulo, o ECINE. Ou seja, há uma preocupação em acostumar o paulistano a ver sua própria cidade, e porque não, de divulgar a imagem da cidade fora de seus limites.
Claro que não se trata do único motivo: o setor, que engloba cinema, publicidade e televisão, movimenta, e muito, a economia, seja de forma direta, com os gastos de filmagem, aluguel de equipamentos, profissionais que são ou ao menos ficam por um determinado período na cidade, seja de forma indireta, com o aumento do interesse turístico e do consumo de produtos vindos de São Paulo.
Apesar da reestruturação do setor, especialmente em relação às produções cinematográficas, a própria SMC percebeu a necessidade de criar uma estrutura para inserir a cidade cada vez mais nas telas, compensando a perda de atrativos com a burocracia, as taxas, as dificuldades de trânsito, dimensão e violência na metrópole.
Hegemonia ameaçada?
Embora apareça com uma proposta positiva, de aumentar o número de produções na cidade, o ECINE responde inicialmente a uma realidade dura: a produção audiovisual começa a sair da cidade, preferindo outras praças, seja na América Latina, quando em grandes cidades e em produções internacionais, seja em outros municípios, em filmagens nacionais, publicidade ou televisão. Apesar de proposto inicialmente como um órgão para auxiliar e incentivar a criação cinematográfica na cidade, o Escritório surge como resposta à necessidade de manter a hegemonia construída ao longo de décadas. “A cidade já é cenário de quase 50% de toda a produção cinematográfica e publicitária do país”, coloca Júlio Pessoa, coordenador do ECINE.
Para tal missão, Pessoa propõe um “choque de desburocratização”: normatização de procedimentos, protocolos centralizados com órgãos municipais, estabelecimento de critérios únicos para permitir, ou não, filmagens e intermediação das relações com outros órgãos.
O remédio
Tal “choque”, por sua vez, tem um objetivo aparentemente simples: organizar e atender às demandas do setor, que em contrapartida trará ganhos diversos para a cidade. Hoje, a SMC regula que todos os procedimentos burocráticos são feitos de maneira isolada, obrigando os produtores a realizar contatos com diversos órgãos do poder municipal para viabilizar suas filmagens.
Além de se propor a acabar com a burocracia, pretende-se diminuir os custos. Até o ano passado, era cobrada uma taxa que ficava em torno de R$ 320 a R$ 580 por hora para produções realizadas em espaços públicos da cidade, uma desvantagem frente a outras metrópoles, como Buenos Aires e Santiago, que não cobram taxas. Uma outra vertente de investimento será o fomento à realização de festivais e mostras.
Para a gestão deste departamento será criado um Conselho Consultivo, presidido pelo Secretário de Cultura e com participação de membros de outras secretarias e empresas municipais, como a das Subprefeituras, de Transporte e afins, além de representantes dos produtores e funcionários da indústria audiovisual. Deste conselho sairão as direções para o dia-a-dia do órgão, que funcionará com uma coordenação executiva.
Voz oficial
O 100canais entrevistou o coordenador do Escritório. Formado em cinema, professor universitário e ex-gerente de divulgação da Warner, o gestor está no projeto desde seu início, no começo da gestão Serra, e sempre no gabinete da SMC, e conta quais os desafios da produção audiovisual.
100canais – Júlio, vamos começar com uma pergunta que talvez pareça até simplista: Afinal, que ganhos o aumento da produção audiovisual traz para a cidade?
Júlio Pessoa – É difícil aferir estes ganhos, principalmente porque não se trata de um processo estanque, de um ganho facilmente mensurável. O audiovisual tem retornos ligados à imagem da cidade e ao turismo, só para começar. A cidade de São Paulo está um pouco desencantada, especialmente para seus cidadãos ao longo dos últimos anos. Nosso trabalho tem sido para mudar isso, e aos poucos a retomada de produções audiovisuais na cidade tem ajudado a reaproximar o paulistano.
100canais – E quais ganhos econômicos estão em vista também?
JP – Além dos ganhos em empreendimentos relacionados com as produções, como a hoteleira e os restaurantes, podemos manter e ampliar nossos investimentos já realizados no setor audiovisual. Temos o melhor parque cinematográfico da região, incluindo cidades como Rio de Janeiro e Buenos Aires. Isto facilita as filmagens, pois já há uma infra-estrutura montada. E agilidade, neste setor, significa economia de dinheiro para o produtor. Entre 2005 e 2006 foram gastos em torno de 300 milhões de reais, e esse dinheiro volta para a cidade. É uma indústria que se alimenta, até porque filmes criam um público cativo, habituado. Filmar gera mais filmes.
100canais – E foi desta estrutura que a idéia surgiu?
JP – Em partes. Há cerca de dois anos, em conversa com o secretário (Carlos Augusto Calil – Leia entrevista exclusiva), discutimos a possibilidade de criar uma empresa de divulgação da cidade e de captação de recursos e de produções de fora do município. Não era uma novidade, até o fim do ano passado existiam em Minas Gerais, no Amazonas, no Rio de Janeiro e no interior de São Paulo. Outras têm sido criadas desde então. Tivemos a idéia, realizamos um estudo, e percebemos que havia outro problema, mais urgente: manter os produtores paulistanos filmando e produzindo na cidade. Eles estavam optando por outros locais.
100canais – E quais são as dificuldades que estão afastando estes produtores?
JP – Custos e entraves burocráticos. Com a taxação que o município impunha até poucos meses atrás, um dia de produção girava em torno de R$ 3 mil. Estes custos afastam aos poucos os produtores, seja da cidade, seja de tomadas externas. Não que proponhamos a extinção de qualquer custo. Atividades como a da CET são dispendiosas, envolvem veículos e equipes, mas pretendemos sistematizar a cobrança, diminuindo custos e entraves para ambos os lados.
100canais – E a questão burocrática?
JP – O principal entrave está no fato de que o acesso à cidade envolve diversas instâncias diferentes na Prefeitura, como a Subprefeitura que zela por aquela região, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), e inclusive a Guarda Civil Metropolitana e a Polícia Militar. Para cada um destes serviços é uma autorização, um pedido, um trâmite burocrático. Nós estamos nos propondo a facilitar esta relação, firmando acordos e normatizando procedimentos, até para evitar disparidades em regiões diversas da cidade.
100canais – Que tipo de disparidades vocês estão evitando? Já há alguma “produção piloto”?
JP – Ainda não estamos atuando, exceto para resolver alguns problemas mais emergenciais, quando temos agido para agilizar alguns destes processos. Não nos pretendemos como mais um mecanismo burocrático, mas como um escritório para facilitar estas relações. Um exemplo das disparidades foi a filmagem do Antonia, filme da Tata Amaral, realizado na Zona Norte. Parte das cenas foi realizada em uma subprefeitura. Outra deveria ser realizada algumas ruas depois, na região de outra subprefeitura. E não foi autorizada. Esse tipo de normatização se faz necessário, facilitando as filmagens.
100canais – E qual imagem o E-Cine promoverá de São Paulo?
JP – Não levaremos uma imposição temática para a cidade. A obra audiovisual, quando aprovada pelos órgãos de fomento ou comerciais, geralmente já passou por diversos críticos, e este papel não é nosso. Não temos o menor ímpeto de realizar censura cultural, queremos apenas fazer com que a cidade se enxergue.
100canais – Disso surge outra questão: Se a imagem é da cidade, é coletiva, pública, portanto é um patrimônio público. Como regulamentar sua exploração?
JP – A gente sabe que a imagem é um bem público, e nossa idéia é que possa, sim, ser explorada, evidentemente com bom senso. Cabe a nós, poder público municipal, zelar pelo cuidado, pelo trato com a cidade e com seus aspectos cívicos, dando, porém, plena liberdade e estímulo a este tipo de exploração. Queremos cultivar, sim, o patrimônio do afeto do paulistano para com sua cidade. Não é algo fácil, até por ser uma cidade difícil, de um belo mais discreto e que começa a ser explorado. Não nos cabe coibir temáticas, chancelar roteiros. Queremos desestimular isso.
100canais – E a publicidade em campanhas políticas. A aprovação desta lei facilitará a exploração da imagem da cidade por seus governantes, no caso atual os Democratas e o PSDB?
JP – Acredito que, do PSOL ao PP, todos poderão utilizar as vantagens desta Lei. Existe evidentemente o “papel” do prefeito de promover suas obras, mas o Escritório, por sua vez, não tem nenhum comprometimento ideológico com qualquer vertente política. Pelo contrário, ele é muito útil à administração pública, qualquer que seja seu administrador.
100canais – Como saber qual o tamanho da indústria do audiovisual em São Paulo e seu impacto?
JP – Isto é realmente complicado, pois os dados são pouco rígidos, ao menos no âmbito municipal. Conseguimos ter uma noção, juntando dados de sindicatos e organizações de produtores e funcionários com os dados da Ancine, mas sem números concretos.
Guilherme Jeronymo