As manifestações culturais e seu desenvolvimento social têm uma dinâmica própria de funcionamento que vive à margem de qualquer forma de intervenção profissional. Portanto, é preciso estar ciente de que existem algumas regras a serem observadas na atuação gerencial do setor: não interferir diretamente no processo de criação artística; respeitar e incentivar a liberdade e a autonomia das diferentes formas de expressão, e não utilizar a cultura para interesses especulativos de mercado ou da política.

Tendo esses itens como parâmetro, trataremos da atuação profissional em gestão cultural considerando-a como uma resposta à complexidade contemporânea da cultura, do espaço que esta ocupa na sociedade atualmente e das exigências do seu processo de produção. Hoje, a área cultural é obrigada a dialogar com variados setores, ligados, diretamente ou não, ao seu domínio específico de conhecimento: o social, o educacional, a comunicação, a economia, a administração, o jurídico e outros. Observa-se, como conseqüência, a ampliação do campo de atuação da gestão cultural no mercado de trabalho e a alteração do perfil dos profissionais dessa área.

Nos últimos anos, a área cultural sofreu diversas alterações no campo conceitual, na ampliação, diversificação e profissionalização de manifestações artísticas, o que exigiu uma nova forma de intervenção na cultura e, conseqüentemente, uma necessidade de investimento na formação de novos profissionais para o setor. É nesse contexto que surgiu a profissão do gestor, com a função de gerenciar os processos de produção da cultura, compreendendo e respeitando suas peculiaridades.

E o que significa gerenciar a cultura? Em poucas palavras, significa gerenciar serviços que se materializam em programas e atividades desenvolvidas a partir de um planejamento e definições apontadas por um plano de políticas culturais públicas, privadas e de organizações não govenamentais, participando de todas as fases do processo de desenvolvimento das atividades culturais: criação, produção, distribuição e difusão cultural.

A profissão de gestor cultural é muito recente em nossa estrutura social e ainda pouco reconhecida no mercado de trabalho. É uma função que vem se desenvolvendo, em grande parte, por meio da prática real de suas atividades, consolidando-se em razão dos resultados de suas ações. Há muito pouco tempo vem sendo foco de estudos teóricos e de preocupação com a formação de gestores, tanto em instituições de ensino formal quanto em cursos livres.

O processo de formação do gestor cultural exige conhecimentos específicos da área cultural e das demais áreas com as quais esse setor tem dialogado nos últimos tempos. Mas ainda não existem estudos acadêmicos e pedagógicos que dêem sustentação a uma elaboração conceitual de cursos formais para o setor. Na apresentação dos conhecimentos específicos e afins, que buscam uma maior interdisciplinaridade, tão necessária para a formação do profissional de cultura, prevalece, muitas vezes, a fragmentação, o que, com certeza, enriquece e amplia o fenômeno de interprofissionalização da cultura, onde interagem diversos agentes ao mesmo tempo, que devem levar sempre em consideração o trabalho eminente de grupo.

Diante dessa diversidade do perfil profissional do gestor cultural, fica ainda difícil configurá-lo. Mas, para trabalhar na sua formação, é preciso considerar um leque amplo de informações que contemplem diversas áreas de conhecimento que passaram a fazer parte da realidade do setor cultural. Alguns pontos básicos devem ser observados pelo profissional da área:

a) conhecer o local onde vai atuar profissionalmente, a fim de identificar singularidades e características potenciais, pontos essenciais das condições para planejar e determinar prioridades;
b) conhecer as diferentes áreas culturais e artísticas onde suas ações serão desenvolvidas diretamente e estar atento para as novas tendências;
c) acompanhar, de forma ativa, as políticas culturais vigentes nos três níveis governamentais: municipal, estadual e federal;
d) conhecer temas específicos de economia da cultura e dos princípios jurídicos, dominando técnicas de planejamento e gerenciamento da área cultural e métodos de avaliação;
e) dominar conhecimentos das áreas de comunicação e de marketing.

Enfim, o gestor cultural deverá conseguir unir características próprias que irão definir o seu perfil como profissional: preservação e incentivo de sua sensibilidade artística, e domínio dos conhecimentos e das técnicas necessárias para o planejamento. Com isso, ele vai adquirir uma visão estratégica de ação específica para a área da cultura, podendo contribuir, desta forma, para estabelecer um rico diálogo com todas as demais áreas afins.

Neste momento, um importante passo é conquistar a valorização desse profissional e definir melhor o seu campo de atuação. Para tanto, é preciso avançarmos em algumas questões fundamentais, a fim de estabelecer um conjunto de normas sociais que regulem esse campo do saber. O primeiro passo é conseguir o reconhecimento social da profissão, e buscar determinar o campo de ação profissional, estabelecendo, dessa forma, critérios, normas e metodologias específicas de trabalho que possam delinear os perfis profissionais e incentivar, cada vez mais, ações que visem a pesquisa nesse setor, a formação acadêmica, ou em escolas livres e, por fim, estabelecer princípios, éticas, direitos e deveres na gestão profissional da cultura. Além de todas essas questões, é fundamental delinear o nível de responsabilidade social de um gestor cultural, à medida que esse profissional torna-se responsável por promover o desenvolvimento cultural, respeitando sua dinâmica própria e estabelecendo vínculo ou mediando a relação entre criador/artistas e a sociedade onde atua, entre o indivíduo e a coletividade, ou seja, agindo diretamente na relação da cultura com a comunidade.

Maria Helena Cunha é produtora cultural, licenciada em História pela UFMG (1987), especialista em Planejamento e Gestão Cultural pelo Instituto de Educação Continuada da PUC/MG (1999), sócia-diretora da DUO – Informação e Cultura (www.duo.inf.br). Idealizadora e coordenadora do curso de Gestão Cultural e o Curso de Cultura Mineira do CEFAR – Fundação Clóvis Salgado/Palácio das Artes, em Belo Horizonte.

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Maria Helena Cunha


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