Em vez do tradicional desfile de celebridades e opulência sobre um tapete vermelho, os protagonistas da inauguração da quinta edição do festival de cinema de Roma foram megafones, cartazes de protesto e vozes que denunciaram os cortes das verbas governamentais destinadas ao cinema e a redução dos incentivos fiscais à sétima arte.
Cerca de 1.500 manifestantes ecoaram o artigo número 9 da Constituição Italiana, afirmando que a República deve empenhar-se na promoção da cultura e que a indústria cinematográfica não é algo comparável ao “Big Brother”.
No ultimo dia 2 de novembro a Itália relembrou, com amargura, os 35 anos da morte de Pier Paolo Pasolini. Para os expoentes do cinema nacional, será difícil digerir a idéia de que os modelos culturais predominantes no país ainda são aqueles baseados na nova ética do hedonismo e do consumismo; aquilo que Pasolini definiu como “o pior totalitarismo da história”.
No entanto, apesar do cenário pessimista, nos últimos dias o Festival de Cinema de Roma apresentou algumas produções que merecem ser destacadas.
Em um encontro com jornalistas, a atriz francesa Fanny Ardant comentou o seu curta-metragem Chimères Absentes, sobre a exclusão escolar de uma garota de origem cigana. O filme foi rodado em abril, mas o tema é atualissimo. Vale lembrar que, recentemente, o presidente Nicolas Sarkozy autorizou a deportação de cidadãos de origem rom.
Outro caso polêmico de exclusão social foi aquele registrado na pequena cidade de Adro, no norte da Itália. Ali, onde a política xenófoba da Liga do Norte continua fazendo prosélitos, o prefeito da cidade havia decidido suspender a merenda oferecida aos alunos cujos pais deixaram de pagar em dia uma contribuição para o lanche escolar.
Chimères Absentes foi rodado em Formello (Roma) e retrata o confronto entre a liberdade e a hipocrisia de algumas instituições. Ardant interpreta uma professora de música cuja aluna, Sonietcka, não tem tem dinheiro suficiente para lanchar com as outras crianças.
“A instrução pública é um grande pilastro da nossa república e acredito que ler e escrever deveriam ser coisas mais naturais do mundo, mas que o resto seja secundário”, comentou a atriz. “Decidi rodar uma cena metafórica na qual um cigano quebra a janela de uma escola, uma instiuição forte, porque acho que a nossa sociedade consumista tornou-se medrosa, e que, na verdade, quem não possui bens e não tem nada a perder é um princípe”, completa.
Sobre a política do presidente Sarkozy a atriz francesa prefere evitar comentários. “Sou uma atriz e faço cinema, esperando que a cultura, a melhor aliada da democracia, possa invadir a mentalidade das pessoas e mudar o mundo”, opina.
Outro filme que comoveu um grande público durante o festival de Roma foi Bhutto, um dinâmico documentário sobre a dinastia daquela que é chamada “a família Kennedy do Paquistão”. Os diretores Duane Baughman e Johnny O’Hara relatam com precisão a conturbada história política de uma nação difícil de ser interpretada sob um olhar ocidental.
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*Com informações da revista Caros Amigos.