Análise de empresa de pesquisa sobre os jovens de 18 a 24 anos mapeia as sensações e anseios desta faixa e demonstra grande relação deles com a cultura, institucionalizada ou não.

Mapear tendências – de mercados, de grupos sociais, de consumo, de partículas ou do diabo a quatro – sempre cai num ponto em que o objeto olha na nossa cara, sorri de leve e pergunta: E aí, vai ser indução, dedução ou o programa completo. O retrato de “gerações” é destas damas que abrem o jogo e nos desafiam logo de cara. As aspas se devem ao fato do grupo objeto da pesquisa que vou resenhar não estar ainda bem enquadrado em nenhuma geração – talvez por ser cedo demais para tal.

As pesquisas de tendências de consumo, ação e sentimento são em geral restritas no país, sendo poucos os trabalhos que se dedicam a recortes amplos de um grupo e o trazem para a sociedade, expondo não apenas resultados, mas métodos e, de certa forma, até mesmo dúvidas. Esta transparência é o grande valer da pesquisa da BOX 1824, que pode ser acessada em www.osonhobrasileiro.com.br. A empresa, internacional, tem foco em pesquisas em torno de tendências e comportamentos incipientes/vanguardistas.

O estudo não foi encomendado, embora seja patrocinado (Itau e Pepsi) e apoiado (Globo), e realizado com uma gama ampla de parceiros, em especial outras agências de comunicação de enfoque semelhante.

O estudo faz um recorte na geração jovem do país, abrangendo jovens de 18 a 24 anos, partindo de uma metodologia qualitativa em cinco fases: entrevistas abertas; grupos de discussão; entrevistas com jovens considerados líderes; entrevistas com grupos de amigos dos jovens líderes; análise de cadernos de atividades realizados por estes jovens. Esta fase abordou jovens das classes A, B e C de quatro cidades: São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Recife.

A fase inicial serviu de base para uma pesquisa quantitativa feita pelo Instituto Datafolha, bem mais ampla em participantes, território e classes sociais, questionário que ajudou a testar hipóteses da fase qualitativa em um público mais amplo, a testar cenários de futuro/tendências e a identificar os “sonhos declarados”, além de verificar a existência ou o reflexo dos “drivers” (movimentos globais) neste grupo. Com todos os materiais e uma pesquisa prévia foi feita uma análise semiótica, identificando valores e comparando-os aos das gerações anteriores de jovens.

Os resultados da pesquisa não apresentaram nenhuma novidade que não fosse debatida por vanguardas intelectuais e artísticas há algum tempo, apontando para a hibridização das culturas, para a aceleração das trocas e para as explosões criativas e mudanças em conceitos pré-estabelecidos enquanto chegam a estes resultados, se fáceis somente na aparência. Ainda assim a escala e cuidado tornam a leitura da apresentação interessante, e certamente também o seria a publicação de um relatório mais completo. Destaca ainda projetos positivos e diversos como o Catarse, o Queremos, a Casa de Cultura Digital e diversas ONGs.

 

Sabe doutor, sempre me achei, meio assim, diferente

O foco da empresa nestes jovens vem de uma hipótese, a de ser esta faixa um centro de influência, pois “já tem uma certa independência financeira e ao mesmo tempo ainda é muito livre e experimental em seu comportamento.(…) enquanto os mais jovens aspiram ser como eles, os mais velhos se inspiram em seus valores e comportamentos”.

Esta noção de que uma “geração” representa um certo “Espírito do Tempo” é interessante se percebemos que os resultados desta pesquisa apontam para uma geração otimista em seu potencial e poder de trabalho, reflexo e motor de um país que aproveita o período de estabilidade política e desenvolvimento econômico e o ganho de importância em relação aos demais países do mundo, com grande multiplicação do número de vozes alternativas à política institucional.

Ainda pensando os resultados desta pesquisa percebe-se que “a atuação coletiva não é mais retratada necessariamente a partir dos modelos revolucionários e político-institucionais. Jovens aderem a novas formas de reivindicação e novas bandeiras.” Levando a um protagonismo, profundamente influenciado pelas redes sociais e a internet e tendendo a um comportamento menos individualista.

Entre os jovens pesquisados 55% tem sonhos ligados a questão do emprego/formação.

1% tem a possibilidade de ser músico como profissão dos sonhos, mesmo percentual dos que querem ser jogadores de futebol (de um total de 100% entre os maiores sonhos). A relação com o conhecimento formal ainda é muito forte: 77% querem o ensino superior, e a taxa sobe de acordo com a classe social, chegando a 79% na classe A e B.

 

Rapaz, fale-me sobre seus vizinhos

Um dos maiores focos da pesquisa é a visão positiva dos jovens ante seu país e sua possibilidade de atuação. A área em que a maior parte dos jovens gostaria de participar de ações comunitárias é a cultural, envolvendo ações de teatro, cinema e dança. Mas este coletivo não é “orgânico” como aquele dos anos 70. Há uma percepção de “interdependência entre bem-estar individual e da sociedade”. A própria pesquisa identifica esta postura com um otimismo pragmático, que pretende ver os resultados concretos de suas ações.

É justamente a ligação tênue com as ações que realiza (nem por isso uma mera encenação ou elixir contra culpas sociais) que o estudo define como a chave para a característica mais positiva destes jovens: a capacidade de se tornarem eles mesmo nós de rede, conectando ações dispersas e diversas, o que a BOX chamou de “Jovens-Ponte”: “Este jovem funciona como um catalisador de ideias, gerando um novo tipo de influência, que se dá pela transversalidade”.

Se a empresa identificou que 1 em cada 12 jovens é um “jovem-ponte” (8%), é interessante ainda o potencial disso para a diversidade e desenvolvimento da Cultura. A área é identificada pelos jovens como aquela em que mais gostariam de partipar, interessando 38% dos entrevistados.

 

Eu tenho tido uns sonhos diferentes

Entendida como uma geração que preza a integração e mobilização pacífica e as articulações colaborativas e simbólicas, o que a BOX classifica como “princípio do Não-dualismo”, o grupo pesquisado respondeu ainda que concorda que a transformação da sociedade vem da união de diversas causas (86% dos entrevistados) e que gostariam que a cultura local se misturasse com a cultura global (68%).

A atual geração foi caracterizada também por sua relação com as redes e as novas formas de comunicação, dentro de uma espécie de “hiperconectividade”. Neste contexto a Cultura global torna-se um mosaico de culturas locais, gerando falas como as que pinçamos aqui, tiradas do estudo: “O bonito da cultura é isso, essa individualidade que gera uma coletividade muito mais ampla. O legal é misturar mesmo o maracatu com os riffs de guitarra. É a mistura que é gostosa no meu ponto de vista.” E ainda: “Temos muito mais influências, não estamos mais fechados naquilo. Querendo ou não, eu me comunico com uma pessoa de outro lugar, sei lá, da Rússia, ela vai me passar alguma coisa que vai servir de aprendizado pra mim e que eu venha dividir isso aqui.”

A concepção de política também mudou radicalmente, passando por ações cotidianas, não caracterizadas pelo choque, mas pelo diálogo, e permeadas por manifestações culturais. A noção de economia, agora não focada no acúmulo mas na distribuição, também ganha forças. Com a mudança nestes dois conceitos a ideia de propriedade intelectual sofre fortes abalos, o que é sentido também na pesquisa, com a presença de termos como Creative commons, open source e crowdfundig na boca dos jovens, ao que o estudo conclui: “Unir forças para conseguir algo ou usufruir de usos compartilhados é um pensamento cada vez mais forte”.

 

Mas me conte sobre seus pais…

A valorização das tradições e saberes informais foi ponto de destaque no estudo, sendo essencial para os “jovens-ponte”, e “A integração entre diferentes fontes de saber (tradicional e moderno; formal e informal; teórico e empírico) é vista como oportunidade de se criar e disseminar ainda mais conhecimento”.

Dentro do estudo duas falas de jovens me chamaram particularmente a atenção, lembrando aquele clima de eletricidade no ar das Teias e do Cultura Viva como um todo:

“Eu vim com minha educação de capoeira, minha mãe, maracatu, matriz africana. Mas essa bagagem que a universidade também me traz me deixa mais rica, mais poderosa, também tenho um titulo que é imposto pela sociedade.”

“É esse o movimento da universidade nas quebradas, que é justamente isso: é valorizar e legitimar todo o corre de sabedoria que as comunidades acabam agregando, assim. E sem excluir as outras classes sociais também, porque fazem parte disso tudo.

Houve grande destaque ainda para a importância do compartilhamento e a valorização dos novos espaços de aprendizagem, além da Transdisciplinaridade que vem daí.

A pesquisa identificou ainda, em concepções formadoras e intrínsecas a todos, como aquelas que regem nossa compreensão acerca da religião, da família e do trabalho também mostram-se interligadas entre si e com o mundo e a comunidade.

 

Acho que sei do que você precisa rapaz

Nestes Tempos Interessantes a geração de jovens adultos focada teve quatro valores destacados pela empresa como “valores de transformação”: a participação, a diversidade, a criatividade e diálogo.

Numa análise focada na Cultura são a criatividade, na qual aquela é eixo e manifestação, especialmente nos jovens, e o diálogo, que pela convergência de idéias aponta uma tendência a uma aproximação/integração cultural interna (ao Brasil).

Ainda no quadro de tendências o estudo mapeou quatro vocações para o Brasil, a partir das características das mobilizações de hoje e das ações que já apresentam sucesso, como o Cultura Viva, ONGs e associações. Todas nos apontam como superpotência: da felicidade, através da

valorização das manifestações e festas culturais brasileiras; criativa, pela valorização e trânsito das culturas tradicionais/artesanais e urbano/periféricas junto ao centro – algo muito próximo à hibridização de Canclini; Natural, pelo potencial do país como “tradutor das linguagens naturais para as linguagens modernas”; e da Diplomacia, por nossa capacidade de fomento ao diálogo e à diversidade.

 


Morador do Campo Limpo (Zona Sul de São Paulo), é jornalista e mestre em comunicação, além de pesquisador no núcleo Alterjor, da ECA/USP.

2Comentários

  • João Paulo, 28 de junho de 2011 @ 15:32 Reply

    Olá,

    Extremamente interessante esse pensamento. Sou psicólogo, estudante de psicanálise e jovem. Trabalho com aplicação de Rorschach, em contexto de Assessment para altos cargos executivos, em São Paulo. Como poderia participar disso?

    Grato.

  • Cristiane Marques de Oliveira, 10 de agosto de 2011 @ 11:05 Reply

    Maravilhosa reportagem! Parabéns!

    Faço parte desta mobilização e aposto profundamente nestes valores!

    Projeto: http://www.interferenciasmexico.com

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