Público interessado movimenta negócio

Confira entrevista com Mônica Novaes Esmanhotto, gerente do Projeto Latitude – Platform for Brazilian Art Galleries Abroad, sobre a pesquisa lançada nesta quinta-feira (25/7):

Foto: Lili Vieira de Carvalho Cultura e Mercado – A pesquisa indica aumento do volume de negócios na arte contemporânea. A que vocês atribuem isso?
Mônica Esmanhotto – O crescimento não é pequeno, mas também não é histérico. É sólido, com a mesma taxa há três anos. Não há um exagero em dizer que o mercado está dinâmico. E são vários fatores que influenciam neste crescimento. Tem fatores externos, ligados a uma economia que vem se consolidando num quadro positivo nos últimos anos, uma questão também de visibilidade, com pessoas de fora cada vez mais interessadas em redescobrir o histórico da nossa produção e mostrar isso lá fora. Pelo menos nos últimos 10 anos a gente vê importantes instituições do mundo dando grande destaque para a produção brasileira, tanto a do século XX quanto a mais recente, e quando você tem um reconhecimento internacional, acaba tendo maior interesse do público interno. Outro fator está ligado à uma maior promoção de atividades pelas galerias, com maior acesso e criação de público. Hoje temos um público de arte contemporânea que não tínhamos há 10 anos. Houve uma aproximação e crescimento desse público, então a base de possíveis compradores e colecionadores ficou mais variada e maior. Ao mesmo tempo a gente vem observando que muitas das galerias que surgiram na última década perceberam que podiam atuar em diferentes nichos, com artistas mais jovens ou mídias especializadas, como fotografia. Cada uma foi achando seu eixo de trabalho e viu que tinha espaço, porque o público foi ampliado. Hoje você vê pessoas que não são necessariamente do mundo da arte mas que se interessam e que podem comprar. Tem galerias que trabalham com obras de R$ 250 e outras que trabalham com obras na casa do milhão. Nesse universo você atende os mais diferentes públicos. E as pessoas estão sentindo que pertencem a esse lugar, não existe um distanciamento do público. Elas têm vontade de levar pra casa, de aprender mais sobre isso, e isso se tornou uma coisa mais natural dessa nova geração. Então com uma base de colecionadores maior e um público mais interessado você movimenta mais esse negócio. Todos esses fatores somados possibilitaram esse crescimento que a gente vem medindo.

CeM – Diminuiu o número de artistas iniciantes representados pelas galerias. Apesar disso indicar uma consolidação do mercado, como ficam aqueles que ainda não são representados? Assim como acontece em outras áreas artísticas, eles também estão buscando outras formas de apresentar e distribuir o seu trabalho?
ME – Esse grupo de galerias não consegue absorver o que as escolas de artes formam todos os anos. Sabemos que há artistas que exercem a função por outros canais e há muitos que têm outra atividade para sobreviver. Mas existe um espírito muito mais empreendedor nessa nova geração, artistas que têm capacidade de gestão maior e que conseguem se organizar até comercialmente para não depender das galerias como canal. Eles fazem isso através de coletivos, cooperativas, mostras em espaços alternativos, e conseguem recursos com premiações, participações em salões, bolsas de estudos ou residências. Mas é comum que isso vire uma atividade secundária. Tem artista que dá aula, que é fotógrafo, que escreve, faz curadoria, é designer… Isso é comum.

CeMAs galerias brasileiras têm sido mais procuradas para parcerias com as internacionais ou tem havido mais movimentação no sentido de ir atrás desses contatos?
ME – As duas coisas. A partir do momento que você começa a ter, dentro do território brasileiro, galerias estrangeiras atuando – de forma permanente ou temporária, no período das feiras – é natural que elas conheçam mais e tenham mais contato com a produção local e se interessem em levar alguns artistas daqui pra fora. E tem o movimento contrário: galerias brasileiras indo para fora e lá conhecendo e fazendo conexões com outras galerias e identificando possibilidades de colaboração. Então acho que é um movimento cada vez mais equilibrado. E acho que é uma coisa que faz parte da natureza do mercado de arte contemporânea não ter muito a questão do local. O intercâmbio é muito benéfico. Cada vez mais temos também galerias brasileiras representando artistas estrangeiros. As fronteiras realmente são bem diluídas no mercado de arte.

CeM – O convênio da ABACT com a Apex-Brasil foi renovado e cresceu o número de galerias associadas nos últimos anos. Qual o trabalho que vocês devem realizar até 2014?
ME – O setor tem esse convênio com a Apex desde 2007. Por quatro anos o projeto de internacionalização foi conduzido pela Fundação Bienal. A ABACT vem gerindo isso desde 2011, em convênios bienais. Por conta desse contexto mais complexo, com galerias estrangeiras entrando cada vez mais no mercado doméstico e galerias cada vez mais jovens se associando ao grupo, diversificamos bastante nosso portfólio de serviços e isso impactou nos tipos de ações que estamos planejando desenvolver. Em 2007 as frentes de trabalho eram mais simplificadas: tinha o apoio a galerias brasileiras que iam para feiras internacionais e o programa que traz convidados internacionais para um programa de imersão em feiras aqui no Brasil para conhecer a nossa cena e criar intercâmbio e oportunidades de negócios. Essas atividades a gente mantém, mas acrescentou algumas outras que complementam esse trabalho. Essa medição do mercado, análises e pesquisas é um braço que se consolidou desde 2011; também existe a parte de comunicação, agora o projeto tem marca e site próprios; existem projetos mais voltados para promoção internacional, que podem ser uma palestra ou networking, como encontros para que os galeristas se insiram em circuitos internacionais; publicações; as ações de capacitação, como o manual de importação e exportação de obras de arte e a incubadora de galerias jovens para inserção em feiras, em parceria com a Arcor – feira de Madrid. Muita coisa que a gente faz não aparece para o público. E é uma experiência única. Procuramos outros projetos parecidos no mundo e não vemos, mesmo em mercados consolidados, como Madrid e Berlim. Não tem nada que seja feito como o que a gente faz, com essa organização e estratégia. É um projeto bem único de promoção e organização do setor.

Clique aqui para ler a matéria sobre a pesquisa setorial do Projeto Latitude.

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