REALIDADE CULTURAL – A vida que transborda das ruas

Não ter comida, teto e emprego. Ser humilhado e deixado pela família. Esta é a situação de milhares de pessoas do país que são moradores de rua. Há poucos programas assistenciais para adultos em situação de rua, e nenhum deles prevê o uso da cultura como instrumento de reinserção social.

Morar nas ruas, pedir esmolas e não ter o que comer. Esta é a realidade de centenas de milhares de pessoas em grandes metrópoles pelo mundo, inclusive na Europa e nos EUA. No Brasil, a estimativa é de que pelo menos 26 mil pessoas vivam nas ruas de 17 capitais.

Quase todas estas pessoas foram rejeitadas por suas famílias, por seus amigos, perderam o emprego, a residência ou caíram no alcoolismo. Por isso, acabaram marginalizadas do convívio social e tornaram-se invisíveis para a sociedade. “Nós vivemos em outro mundo, no qual somos humilhados todos os dias porque não temos outro lugar para ir a não ser a calçada, o asfalto ou o albergue”, afirma uma moradora de rua que não quis se identificar.

As iniciativas do governo federal para moradores de rua estão quase todas focadas nas crianças e adolescentes, como o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), criado em 1996 e considerado uma referência mundial no combate à exploração de crianças. Há poucos programas que visam ao atendimento de adultos, e nenhum deles oferece uma perspectiva artístico-cultural de recuperação das pessoas em situação de rua.

São Paulo, segundo a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), abriga pouco mais de 10 mil moradores de rua. A cidade possui um albergue que até pouco tempo atrás era modelo no que diz respeito ao atendimento a pessoas em situação de rua. Localizado em um terreno de 17 mil metros quadrados no centro do município, o Projeto Oficina Boracea foi iniciado em junho de 2003. Era conhecido principalmente pelas oficinas profissionalizantes e pelo uso da arte e da educação como instrumentos de reinserção social.

O Boracea possuía capacidade para atender até mil pessoas em seus alojamentos, além de dispor de um restaurante subsidiado, lavanderia coletiva, telecentro, espaço cultural e de uma loja social para que os produtos feitos com material reciclável possam ser vendidos. Havia ainda um conjunto articulado de atividades que incluíam oficinas de alfabetização, artes plásticas, apresentações de música, de dança e sessões de cinema. Todas as obras produzidas pelos artesãos eram expostas, e eles eram livres para vendê-las se quisessem. Uma estimativa feita pelo próprio Boracea aponta que cerca de 30% das pessoas que passaram pelo abrigo conseguiu moradia e trabalho depois de seis meses, o tempo médio de permanência no alojamento.

Com a meta de acolher dignamente os moradores de rua e prover sua autonomia, o Boracea funcionou com estes programas até o início de 2005, quando a atual gestão municipal extinguiu a maioria deles e decidiu que haveria uma mudança no gerenciamento do albergue. “O Boracea é um grande equívoco. Nossa política para a população de rua é escolher lugares menores e mais pulverizados. Atendemos até cem pessoas por vez, de forma mais individualizada. Este albergue reunia muitas ofertas de cursos e empregos que não se viabilizaram”, afirma o secretário municipal de Assistência Social, Floriano Pesaro.

O secretário considera que a rua é a pior situação a que pode ser submetido um ser humano. “Não existem direitos garantidos nem condição de sobreviver. Não tem água, comida, habitação, escola, emprego e segurança”, diz ele. Pesaro admite que o poder público não consegue atingir a totalidade dos sem-teto, mas acredita que a solução seja trabalhar na reinserção familiar e social e não com projetos culturais para os sem-teto. “Em dois anos, recuperamos 1.700 moradores de rua, mas chegaram outros dois mil novos”, sublinha. “Temos nove mil vagas em albergues, um bom número se for comparado aos seis mil que havia em 2004”.

Iniciativas de usar a arte e a cultura para fazer a reinserção social dos moradores de rua partem, quase sempre, de organizações não-governamentais. No fim de abril, por exemplo, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) estabeleceu uma parceria com a Fundação Travessia, uma entidade que trabalha com pessoas em situação de rua no centro de São Paulo. Com a parceria, a exposição “Ascencion”, do artista indiano Anish Kapoor, foi transportada para o Vale do Anhangabaú. Segundo educadores da Travessia, o acordo tinha como meta atrair os moradores de rua para novas experiências de reinserção social. Eles receberam oficinas de pintura e escultura em um ambiente acolhedor, melhor do que aquele a que estão acostumados. Na avaliação da ONG, o saldo foi extremamente positivo.

Sobre sonhos e viver
“Quem vive na rua quase sempre está num ensaio para a morte, porque parou de sonhar. Quando deixa de ter sonhos, é porque já morreu”, afirma o ex-morador de rua Sebastião Nicomedes, 39 anos, cuja história de vida é digna de um filme. Ele morou no centro de São Paulo depois de perder o emprego, a noiva e ser deixado pela família. Hoje, quatro anos depois, deu a volta por cima e tornou-se escritor. Tião, como é conhecido, já escreveu um livro de poesias e duas peças de teatro. Uma delas, “Diário dum Carroceiro”, está em cartaz no teatro Sérgio Cardoso, no centro de São Paulo, depois de ter passado pelo Teatro Fábrica. É o primeiro espetáculo de um morador de rua que é encenado em circuito comercial no país.

A saga de Tião começou em 2003, quando ele trabalhava com letreiros e reuniu cinco sócios para ampliar seus negócios. Durante um dos serviços, o andaime improvisado cedeu e ele caiu 4,5 metros rumo ao chão. Com a queda, ele quebrou o pulso, e por pouco não morreu. “Fiquei oito dias internado no hospital, sem receber visita. Nenhum telefonema, nem dos parentes. Fiquei ilhado e me senti abandonado por todos. Soube depois que meus sócios me enganaram e que disseram para algumas pessoas que eu havia morrido”, recorda.

Tião procurou ajuda de uma irmã que mora no litoral, mas passadas algumas semanas, teve que voltar a São Paulo para operar o pulso. “Eu já estava transtornado naqueles dias. Essa situação abala a cabeça. No dia em que fui trocar o gesso da mão no hospital, dormi na rua”. Ele lembra-se do lugar em que passou a primeira noite: um canteiro do terminal de ônibus Parque Dom Pedro II, no centro da cidade. Morou nas ruas por três meses, revirando lixo em busca de comida. O tempo que restava da luta pela sobrevivência era usado por ele para escrever poesias, que em seguida eram rasgadas. “Eu não escrevia para que alguém lesse, fazia aquilo para mim”. Um dia, um catador lhe pediu que escrevesse uma carta para a mãe. A partir daquele dia, Tião acreditou ser um escritor, e deixou as ruas quando sua operação foi agendada.

“Eu pensei que, se fosse colocar pino na mão, não poderia morar na rua, porque poderia perder o braço por infecção”, afirma. Com a operação marcada, ele passou a viver em um albergue, chegando a dividir o mesmo espaço com outros mil sem-teto. Logo ele ouviu falar em um festival de caça-talentos que deveria ocorrer em breve. “As pessoas queriam cantar, tocar, dançar, jogar capoeira… Havia até um grupo de axé inscrito. Eu tive a idéia de fazer uma peça de teatro”, rememora Tião.

Para participar do concurso, ele escreveu “Bonifácil Preguiça”, uma comédia sobre um morador de rua que gosta de roncar no banco da praça e tem uma árvore como consciência. Encenada com os colegas do albergue, a peça reunia doze personagens que representavam caminhos diferentes para sair das ruas e do albergue. No enredo, havia a encenação da rotina esmagadora da instituição. A peça foi um sucesso de público, e chegou a ser encenada em 14 albergues, no ano de 2003.

Em março de 2007, Tião emplacou o livro de poemas “Cátia, Simone e outras Marvadas”, que reúne poemas sobre a vida no asfalto e nos abrigos, suas contradições e despropósitos. O livro foi publicado pelo coletivo “Dulcinéia Catadora”, que divulga a produção de pessoas em situação de rua a preço de custo, por cinco reais. A capa do livro é feita de papelão recolhido por catadores de material reciclável.

Ao contrário do que houve com a peça “Bonifácil Preguiça”, que surgiu de forma quase espontânea, “Diário dum Carroceiro” foi minimamente planejado e arquitetado. Trata-se de um monólogo crítico, com leves toques de humor, sobre um catador chamado Quim, que se vê obrigado a trabalhar nos dias das festas de fim-de-ano. Na verdade, a peça aborda certas questões maiores, que são tanto a invisibilidade social quanto a violência e o abandono a que estão submetidos os catadores de materiais recicláveis e os moradores de rua.

Segundo Tião, a idéia da peça amadureceu em um Festival da Cidadania, realizado em Belo Horizonte. “Notei que alguns carroceiros vivem, moram e dormem dentro de suas próprias carroças. Eu achei curioso importante de ser ressaltado”, diz o escritor. Ele explica que teve a idéia do nome da peça quando andava pela Praça da Sé e conheceu um carroceiro chamado Joaquim. “Ele estava lendo, e eu achei que fosse a Bíblia. Fiz algum comentário e recebi como resposta que aquele livro era o diário onde ele guardava sua vida”, recorda Tião.
A partir daí surgiu a idéia de recriar um monólogo, e fazer uma homenagem ao catador de materiais que até hoje ele só conheceu como Joaquim, e que nunca mais foi encontrado.

Serviço
Peça: Diário dum Carroceiro
Onde: Teatro Sérgio Cardoso
Endereço: rua Rui Barbosa, 153, bairro Bela Vista.
Telefone: (11) 3288 0136
Horário: Quarta e quinta-feira, 21h

Links Relacionados
International Network of Street Papers – s://www.street-papers.org

Fundação Travessia – s://www.travessia.org.br

Rede Rua – s://www.rederua.org.br

Revista Ocas’’ – s://www.ocas.org.br

Coletivo Integração sem Posse – s://integracaosemposse.zip.net/

Coletivo Dulcinéia Catadora – s://paginas.terra.com.br/arte/dulcineiacatadora/

Projecto Eloísa Cartonera (Argentina) – s://240674.com.ar/eloisa/

Reportagens e Fotos
Projeto Aprendiz: 70% dos moradores de rua já tiveram uma profissão
s://aprendiz.uol.com.br/content.view.action?uuid=78b2f92b0af47010006835fb7e884050


Jornal da USP: Curso de solidariedade na Faculdade de Saúde Pública
s://www.usp.br/jorusp/arquivo/2005/jusp747/pag07.htm

PNUD: Jogos de computador ajudam a alfabetizar morador de rua
s://www.pnud.org.br/educacao/reportagens/index.php?id01=2711&lay=ecu

Agência Brasil: Ato público lembra três anos do ataque a moradores de rua em SP s://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2007/08/19/materia.2007-08-19.5173379402/view

Agência Fotogarrafa: Retratos das ocupações e dos dos moradores de rua s://www.fotogarrafa.com.br/fotoarquivos/cat_moradia_rua_rego_freitas.html

Rafael Sampaio

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