Menos de um mês antes da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação (WSIS), em Túnis, Unesco incita autoridades governamentais a investir em educação, a multiplicar os locais de acesso comunitário às tecnologias da informação e da comunicação, e a encorajar o compartilhamento do saber científico entre os países, abrindo caminhos para uma forma “inteligente” de desenvolvimento humano sustentável
Paris, 3 de novembro de 2005 – Relatório da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) intitulado “Rumo às Sociedades do Conhecimento”* foi lançado 3 de novembro em Paris, pelo Diretor-Geral da UNESCO, Koichiro Matsuura, que também defende a diversidade lingüística como uma prioridade; o compartilhamento do saber ambiental e da instituição de instrumentos estatísticos para medir os saberes; e a ajuda aos dirigentes políticos para a definição de suas prioridades.
Os autores do Relatório** destacam que não se deve confundir sociedades do conhecimento e sociedades da informação. Os primeiros contribuem para o bem-estar das pessoas e das comunidades e levam em conta as dimensões sociais, éticas e políticas mais amplas. Por exemplo, por ocasião de sua independência, Singapura era um país em desenvolvimento onde as favelas se multiplicavam, mas atingiu taxas de crescimento econômico superiores àquelas dos países mais industrializados em apenas 40 anos realçando os conhecimentos (por meio da educação) e a criatividade.
Conhecemos menos a experiência da cidade de El Salvador, no Peru. Vários milhares de pessoas que foram expulsas de Lima em 1971 criaram esta cidade no deserto e construíram, sem qualquer ajuda exterior, as escolas e os estabelecimentos de ensino. Eles transformaram a favela deles em uma cidade de verdade com mais de 400.000 habitantes: 98% das crianças da comunidade são escolarizadas, a taxa de analfabetismo de adultos (4,5%) é a mais baixa do País e mais de 15.000 estudantes estão matriculados na universidade local ou em universidades da capital, Lima.
Por outro lado, as sociedades da informação estão estabelecidas unicamente nos avanços tecnológicos e correm o risco de fornecer apenas uma “massa de dados indistintos” àqueles que não dispuserem de instrumentos necessários para tirar partido de todas essas informações.
O Relatório esboça “um panorama que desenha o futuro com traços alternadamente promissores e preocupantes. Promissores porque o potencial oferecido por um uso racional e voluntário das novas tecnologias abre perspectivas verdadeiras para o desenvolvimento humano sustentável e para a construção de sociedades democráticas. Preocupantes, porque os obstáculos e as pedras no caminho desta construção existem e vão muito bem”.
Segundo o Relatório, as disparidades em matéria de acesso às tecnologias da informação e da comunicação (qualificadas atualmente como “fratura numérica”) constituem um dos principais obstáculos. Na verdade, apenas 11% da população mundial têm acesso à internet e 90% das pessoas que podem se conectar vivem nos países industrializados.
Essa fratura numérica é a conseqüência de uma fenda mais grave. Os autores do Relatório determinam: “Hoje, mais do que nunca, a fratura cognitiva separa os países dotados de poderosos potenciais de pesquisa e de inovação, de sistemas educativos de grande desempenho, locais de saber e de cultura abertos ao maior número de pessoas possível, das outras nações com sistemas educativos deficientes, com instituições de pesquisa não equipadas, atingidas pelo ultraje da fuga de cérebros”.
Para favorecer a construção das sociedades do conhecimento, é necessário reduzir essas fraturas e “consolidar dois pilares desta sociedade mundial da informação ainda muito desigualmente garantida: o acesso a todos à informação e a liberdade de expressão”.
Os autores lembram que a diversidade cultural e lingüística se encontra igualmente no centro do processo de construção das sociedades do conhecimento, e eles chamam a atenção sobre o fato de que os conhecimentos locais e tradicionais podem ter um valor inestimável, especialmente nas áreas da agricultura e da saúde. Esses conhecimentos, típicos de sociedades nas quais a transmissão acontece somente de forma oral, estão particularmente
Os autores destacam, enfim, que os riscos são significativos, porque o custo da ignorância ultrapassa largamente o custo da educação e do compartilhamento dos conhecimentos. Este Relatório é uma defesa em favor das sociedades capazes de incluir todos os seus membros e de promover novas formas de solidariedade envolvendo as gerações atuais e as gerações futuras. Para os autores, não deveriam existir excluídos nas sociedades do conhecimento, posto que o conhecimento é um bem público que deveria estar disponível para todos nós.
* O Relatório “Rumo às Sociedades do Conhecimento”, que é o primeiro de uma série de relatórios mundiais**, será apresentado por ocasião da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação (Tunis, de
** Este Relatório Mundial é o resultado do trabalho de uma equipe internacional de especialistas e de intelectuais renomados, dirigidos por Jérôme Bindé, Sub-Diretor Geral Adjunto para Ciências Sociais e Humanas e Diretor da Divisão de prospectiva, da filosofia e das ciências humanas da UNESCO.