O Festival de Arte Contemporânea Videobrasil teve atuação pioneira na promoção de intercâmbios artísticos no país. A iniciativa começou na sétima edição do festival, em 1989, contemplando a artista Sandra Kogut com prêmio para realização de pesquisas no Centre Internationale de Vidéo Création (CICV), na França. Era uma época em que o modelo de intercâmbio e pesquisa em residência artística era pouco difundido no Brasil.

intercâmbio residência artística arte videobrasilA experiência foi contada no livro “Em residência – Rotas para pesquisa artística em 30 anos de Videobrasil”. Lançada em 2013, a publicação compila relatos de mais de 30 artistas que participaram de programas de residência promovidos pela associação responsável pelo festival – realizado em parceria com o Sesc-SP.

Na publicação, o curador e professor Marcos Moraes, coordenador do Programa de Residência Artística da Faap e doutor pela FAU-USP, relata que, historicamente, talvez o mais próximo das experiências de residências atuais seria o surgimento dos prêmios de viagem criados pelas academias de arte. “A Academia Francesa cria no século 17 um prêmio de viagem a Roma que é uma estadia de longa duração na cidade. Aí já estão presentes a ideia de deslocamento para determinado espaço e uma condição de pesquisar, trabalhar, desenvolver algo, ir em busca de algo, viver um período maior que o de férias”, explica Moraes.

Outro dado relevante nessa perspectiva histórica é a proliferação, no século 19, do que chamamos de colônia de artista, espaços em que grupos de artistas se reúnem, boa parte para sair do contexto das cidades industrializadas. Nos Estados Unidos, onde surgem mais de 100 colônias de escritores e artistas só no século 19, e a criação da Black Mountain College, uma escola de arte experimental transdisciplinar é um dos momentos mais relevantes para pensar a ideia contemporânea de residências.

Mas o termo “residência” surge com a comunidade de artistas que ocupa o sul de Manhattan nos anos 1960. “O atual SoHo era uma área abandonada, destruída, empobrecida, e os artistas começam a ocupar esses espaços, pagando pouco ou nada, e conseguem fazer um acordo com a prefeitura de Nova York, que mudou a legislação para acomodar essa ocupação provisória”, conta Moraes. Só exigiram que colocassem nas portas uma placa onde se lia: A.I.R., de Artist In Residence. Era um jeito de sinalizar que havia alguém – os artistas – ocupando aqueles lugares.

Também foi relevante a virada do final dos anos 1980 e início dos 1990, quando, simbolicamente, caem muros e abrem-se cortinas, criando uma condição de mobilidade inédita. “Nunca foi tão fácil viajar. O deslocamento vira regra, tanto o da informação, com a virtualidade, quanto o físico”, escreve o professor, lembrando que a base da ideia da residência é poder se deslocar e ter acesso, inclusive virtual, à informação.

De meados dos anos 1990 em diante, a ideia de residência já está mais consolidada. Mas no Brasil, houve maior resistência. Atualmente houve uma enorme proliferação de residência em todo o mundo e com a ruptura de fronteiras, não só no mundo real, mas no virtual, surgem as redes, fundamentais para a propagação das residências: Res Artis, AAC, Intra Asia, Asialink, Peppinières, Red.

Em entrevista ao Cultura e Mercado, Thereza Farkas, diretora do Videobrasil, fala sobre a importância desse tipo de programa para o desenvolvimento das artes e as dificuldades ainda encontradas.

Cultura e Mercado – Qual é a importância dos programas de residência artística para o desenvolvimento da arte?
Thereza Farkas – Desde o final dos anos 1980, em um contexto onde a mobilidade é indissociável das práticas artísticas, o papel dos programas de residência se torna fundamental. Eles têm a capacidade de promover conexões e intercâmbios entre artistas, instituições e comunidades e, com isso, gerar oportunidades para que artistas saiam de seus contextos e enriqueçam suas práticas com o convívio e a troca com novos interlocutores, experimentando novas formas de se colocar no mundo e nos mais diferentes entornos.

As residências têm hoje um papel amplo. São espaços de formação, pesquisa, produção e difusão. Em uma residência, as trocas implicam descobertas que influenciam e provocam reflexões sobre a produção. É um processo de formação continuada e ampla. Em relação à pesquisa, a residência dá uma condição ao artista. É como se tivesse recebido uma bolsa. E essa pesquisa tanto pode significar ficar fechado num espaço ou envolver uma relação com a cidade, o mundo. E residência é produção. Produz trocas, ações, encontros, discussões ou, objetivamente, um trabalho. Quem circula difunde suas referências culturais, seu pensamento.

CeM – Quais as principais dificuldades para desenvolver esse tipo de programa no Brasil?
TF – A partir dos anos 1990, consolida-se a ideia de residência, mas houve maior resistência no Brasil. Atualmente essa resistência foi ultrapassada e cada vez mais cresce o número de programas de residência espalhados pelo país. Porém, a grande dificuldade está no financiamento. Infelizmente, após a crise europeia iniciada em 2007, as agências financiadoras e incentivadoras, antes muito atuantes, deixaram de apoiar muitos projetos.

Além da questão financeira, existem também dificuldades diplomáticas. Nos últimos anos, trazer um artista para o Brasil ficou mais complicado. Existe uma dificuldade na definição do visto, pois um artista que vem para uma residência não pode ter visto de turista comum, nem de estudante, nem de trabalho. Já vivenciamos no Videobrasil alguns problemas com vistos em outros países também, como um artista paquistanês que recentemente não conseguiu tirar visto para fazer uma residência no Líbano e um artista chinês, premiado no festival com uma residência na Bolívia, que enfrentou dificuldades para adquirir permissão para viajar. Essas questões políticas do deslocamento existem. Mas, de fato, o que prevalece hoje é um grande trânsito de artistas entre instituições no mundo todo. E os programas de residência ocupam um lugar central dentro da cadeia produtiva da arte.

CeM – Desde 1989, o festival Videobrasil promove programas de intercâmbio artístico. O que mudou de lá pra cá?
TF – Ao longo de uma trajetória que completou três décadas em 2013, o Videobrasil atua nas lacunas do universo da arte e no estímulo à experimentação artística. A associação dedica-se ao fomento e difusão da arte contemporânea e destina especial atenção à produção do circuito geopolítico Sul (que compreende América Latina, Caribe, África, Oriente Médio, Europa do Leste, Sul e Sudeste asiático e Oceania). Nesse sentido, as residências artísticas se alinham completamente às propostas da associação, pois as trocas geradas pelos programas contribuem para o desenvolvimento de uma nova cartografia artística e cultural, aproximando os eixos Sul-Sul e Sul-Norte.

Para o Videobrasil, a troca com as regiões do Sul, via residências – pela partilha e
pela hospitalidade – foi uma forma de ampliar nossa entrada no universo da arte em
países de difícil comunicação. Além do trânsito de artistas, elas facilitam o fortalecimento de uma rede colaborativa entre instituições, com outros desdobramentos e trocas. E a estratégia de residência foi definidora para termos uma resposta aferível, em participação de artistas do Sul no Festival. Então há uma importância estratégica das residências para nossa relação com as regiões
do Sul. Mas nosso programa de residência, hoje, não se restringe a esse recorte. A ideia é permitir que esse deslocamento seja o mais amplo e diversificado possível.

No entanto, apesar das significativas mudanças geopolíticas que vêm acontecendo, que contribuem para o redimensionando das noções de Norte e Sul, ainda é possível identificar a necessidade de atuar em prol de um campo artístico e cultural de regiões que ainda precisam inventar novas formas de circulação e visibilidade. Por conta disso, na próxima edição, o Festival transforma o Sul no grande direcionador de seus eixos curatoriais, e não mais apenas de sua mostra competitiva. Toda a programação terá como referência o Sul e suas múltiplas questões.

Dessa forma, em sua 19ª edição, o Festival irá buscar intensificar e ampliar a colaboração entre artistas, povos e culturas, fomentar diálogos pertinentes às experiências compartilhadas e estabelecer debates horizontais que evidenciem o trânsito de ideias e práticas no mundo contemporâneo, contribuindo para consolidar uma rede ativa de intercâmbios artísticos. Nesta edição, serão concedidos nove prêmios de residência artística, com duração de dois meses, em instituições parceiras da Rede Videobrasil de Residências ao redor do mundo.

Recentemente o Videobrasil lançou uma nova plataforma colaborativa, o blog In Residence, criada para que os artistas em residência possam compartilhar suas experiências, e a equipe da residência também possa contar um pouco do processo do artista.

Leia mais:
Mapa das residências artísticas no Brasil
O poder da residência artística


Jornalista, foi diretora de conteúdo e editora do Cultura e Mercado de 2011 a 2016.

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