O discurso engajado do ministro Gilberto Gil e a platéia que reunia boa parte do PIB cultural brasileiro marcaram o encontro. Conheça os nomes do conselho diretorPor Israel do Vale
25/04/2003
Foram abertos na manhã-tarde de hoje, em São Paulo, os preparativos para a realização do Fórum Cultural Mundial, em encontro na Secretaria Municipal paulistana com participação do ministro Gilberto Gil, da prefeita Marta Suplicy e do secretário municipal de cultura da cidade, Celso Frateschi.
A prefeita comprometeu-se a mobilizar toda estrutura de eventos e espetáculos da cidade para uma ação contra “a selvageria do mercado” na área cultural. O termo foi usado em referência ao suposto empenho da Prefeitura em resguardar a produção cultural de menor apelo comercial.
Marta vê a realização do FCM na capital paulista com olhos de estrategista. Para ela, isso é parte da “política de inserção da cidade no mundo”, fato que reafirma citando como exemplo adicional a transposição para a capital paulista, neste mesmo 2004, do Fórum Mundial de Educação _antes agregado ao Fórum Social Mundial de Porto Alegre.
O engajamento do ministro Gil é também visível. E, no caso dele, manifestou-se no melhor estilo telúrico tropicalista. Gil chegou a assumir tom de palanque, inflamado e gesticulador, após recitar trecho de letra de uma de suas canções: “O povo sabe o que quer/ mas também quer o que não sabe”, disse, acentuando que é esta a máxima de sua gestão no Minc.
Em lugar das canjas que deram o tom no início de sua atuação na pasta, o ministro ora parece ter adotado arroubos poéticos. Gil ressaltou a capacidade brasileira de administrar “conversas múltiplas entre os vários brasis” e se disse otimista com a “fotossíntese extraordinária” e a “carga extra de clorofila cultural” que o evento trará para “vivificar o corpo” do país.
O ministro vê o Fórum como excelente tubo de ensaio para a implantação de um modelo de sinergia com os poderes estadual e municipal, afinado com o espírito do que o programa de governo petista para a área batizou de Sistema Nacional de Cultura _e vem sendo chamado nos bastidores de SUS cultural.
A longa escalada
O cronograma preparatório do FMC prevê 70 eventos preliminares na América Latina e Caribe. Há mais sete programados para o Brasil, o principal deles no RJ. Os trabalhos práticos começam a se estruturar nos próximos dias, viabilizados pela recente liberação de US$ 200 mil pela Fundação Ford _parte do pacote de US$ 800 mil que a instituição aprovou para o evento. O resto será liberado em agosto.
Além das autoridades citadas, estavam à mesa Cezar Silva, Roberto Malta (presidente da Rede Brasil de Promotores Culturais e um dos mais atuantes “pára-raios” no recrutamento de novos agentes para a estruturação), o austríaco Franz Patay (representante do comitê internacional do Fórum e homem forte da verba que vem do exterior), o colombiano Octávio Arbelaez (presidente da Rede Latino-americana de Promotores Culturais, hoje esparramada por 300 escritórios) na região e Danilo Santos de Miranda (diretor regional do Sesc-SP e principal agregador das instituições que engajaram-se desde a primeira hora no evento).
A platéia congregou boa parte do PIB político-cultural nacional, com secretários de cultura de outras capitais (como João Roberto Peixe, de Recife), representantes do governo federal (Antônio Grassi, presidente da Funarte), consultores (Yacoff Sarkovas, recém-escalado para atuar em conjunto com a Secom na definição do uso de verbas das estatais), representantes do setor empresarial (Ary Scapin, do Sebrae-SP; Marcos Barreto, da Telemig Celular mineira; José Jacinto Amaral, da Petrobras). Cultura e Mercado vai listar, em seu próximo boletim, a relação completa de participantes _testemunhas e cúmplices do que vem pela frente e fontes certeiras na continha de multiplicação iniciada hoje.
Apenas duas notas dissonantes: uma delas, a ausência da secretária estadual de Cultura paulista, Claudia Costin _que teria tido compromisso no interior do estado e mandou representante; a outra, o desnecessário desfile pelo auditório de homens da guarda municipal, de cacetetes e revólveres na cintura.
Reuniões setorizadas definiriam, ainda à tarde, passos estruturais como a composição do conselho diretor, formado inicialmente por nove pessoas _ que seriam, segundo Cultura e Mercado apurou, Danilo Santos de Miranda, Roberto Malta, Ruy Cezar, Celso Frateschi, Paulo Miguez (braço direito de Gil no Minc), Rebeca Raposo (diretora-executiva do Gife _Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), Regina Novaes (Ibase e UFRJ), Iara Peticovsky (do Imesc, ONG de Brasília que assessora outras organizações e tem estado envolvida na organização do Fórum Social Mundial) e Claudia Costin.É só o começo e está tudo por fazer. Mas a impressão é de que fôlego e disposição não vão faltar.
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