Seminário Internacional Cinema Povo - Cultura e Mercado

Seminário Internacional Cinema Povo

Evento no Rio de Janeiro irá apresentar e discutir uma nova possibilidade de produção cinematográfica, a partir do estudo do cinema povo na NigériaO começo do mês de janeiro encontrou a imprensa mobilizada em torno da obtenção de verbas do BNDES para financiar o cinema nacional. O investimento é vultuoso: mais de 20 milhões de reais. Nos jornais, os personagens tradicionais, debatendo regionalização ou centralização da
produção cinematográfica, ou ainda, se o dinheiro deve contemplar jovens ou veteranos cineastas. O que mais impressiona nessa discussão é o quanto ela ignora um aspecto global importantíssimo que opera a transformação a olhos vistos da produção audiovisual: o avanço tecnológico e o modo pelo qual as periferias se apropriam dessa tecnologia para produzir, distribuir e assistir suas próprias narrativas visuais.

Do seleto clube de 4 ou 5 países que podem se dar ao luxo de assistir mais a produções nacionais do que hollywoodianas, um país em especial chama a atenção: a Nigéria. O último atlas do cinema mundial feito pela prestigiosa revista “Cahiers du Cinema” inclui o país entre os maiores produtores de filmes do mundo (mais de 1200 por ano, comparados a 611 dos Estados Unidos). Algo muito curioso para um país que simplesmente não possui salas de cinema. O milagre deve-se ao surgimento de um mercado de filmes feitos para serem vendidos diretamente em DVD. E ainda mais interessante: por camelôs – todos os filmes são vendidos nas ruas, por menos de três dólares.

O resultado: filmes que vendem centenas de milhares de cópias, sustentando uma das indústrias que se tornaram mais promissoras naquele país em termos de geração de empregos. Os filmes começam a se tornar febre em outros países africanos e um canal de TV por satélite dedicado exclusivamente a eles está a caminho. Trata-se de um modelo que se adapta construtivamente às condições efetivas dos países em desenvolvimento e produz autonomia econômica e cultural.

Há sinais de que esse cinema povo, nos moldes do cinema nigeriano, está acontecendo também no Brasil. Há notícias deste fenômeno de Manaus a São Carlos, em que filmes de longa-metragem produzidos localmente são distribuídos para o mercado doméstico, sem apoio governamental e falando diretamente para seu público. Sem falar no gigantesco mercado de DVD’s musicais populares, totalmente produzidos fora da indústria e de tremendo sucesso. Tudo compondo uma indústria cultura vibrante, autônoma e sustentável.

Enquanto isso, o debate no Brasil desconhece ou ignora essa possibilidade. A distribuição de filmes em salas continua dramática: em 2004, dos 302 filmes exibidos, apenas 51 eram nacionais. Se olharmos para o faturamento desses filmes, o quadro agrava-se ainda mais. Dos R$776 milhões gerados pela indústria cinematográfica neste mesmo ano, o cinema nacional contribuiu com apenas R$110 milhões. Interessante notar que a maior distribuidora nacional pertence a uma das maiores produtoras dos filmes estrangeiros aqui exibidos.

O modelo do cinema povo adapta-se criativamente de modo efetivo a essa situação. Não há salas de cinemas? Não há problema, porque os filmes são veiculados para o mercado doméstico. Não há distribuidores? A distribuição é feita por redes sociais já estruturadas. Não há financiamento? A produção é de baixíssimo orçamento e na maioria das vezes o investimento é recuperado. Não há público? Os filmes são feitos sobre temas que falam diretamente para o seu público, são narrativas
construídas a partir e para realidades sociais amplas, conectando-se com elas.

Objetivo e Programação

O objetivo é congregar atores da sociedade civil para inaugurar e estruturar um novo debate sobre a produção cinematográfica brasileira. O escopo será agregar governo (MinC e Ancine, etc.), setor audiovisual (produtores, diretores, estudantes, televisão) e terceiro setor (Cine Falcatrua e outras associações e ONG´s) para discutirem e terem contato com um uma nova possibilidade de produção cinematográfica.
E não basta apenas discutir. Além do seminário será realizada uma exibição de filmes que se caracterizam como cinema povo.
A programação do seminário pode obtida neste link.

Data e Local

11 de maio de 2006 entre 10h e 18:30
Praia de Botafogo, nº190. 8º andar, auditório 2 da FGV Direito Rio

Inscrições

As inscrições poderão ser feitas gratuitamente através na seção de eventos do site do Cultura Livre.

Realização

O evento é promovido conjuntamente pelo Centro de Tecnologia e Sociedade, no Brasil, e pelo Link Centre na África do Sul, através do projeto Cultura Livre e com apoio da Fundação Ford. Os dois países serão objeto de uma reflexão sobre as possibilidade de surgimento de um amplo e sustentável modelo de cinema povo e os resultados serão disseminados nos dois países.

da RedePensarte

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