Helouise Costa, vice-diretora do Museu de Arte Contemporânea da USP e coordenadora da 6ª Semana de Museus da USP, faz um balanço do evento.
SÃO PAULO – Esta é a sétima entrevista da série realizada com curadores de importantes museus brasileiros, realizada por Cores Primárias (conheça aqui), site parceiro do 100canais, núcleo editorial do Cultura e Mercado. Nas semanas anteriores, publicamos a entrevista com o curador do MAM de São Paulo, Felipe Chaimovitch (leia aqui), com a curadora do MAM da Bahia, Solange Farkas (leia aqui), com Cristiana Tejo, que assumiu a curadoria do Mamam de Recife (leia aqui), com Paulo Garcez, do Museu Paulista (leia aqui), com Samira Margotto, diretora da Casa Porto em Vitória que conta que o Salão do Mar ganhou projeção nacional ao fortalecer a cultura local (leia aqui) e com José do Nascimento Júnior, diretor do Departamento de Museus e Centros Culturais do Iphan (leia aqui).
Nesta semana, Helouise Costa faz um balanço dos debates realizados durante a 6ª Semana de Museus da USP, cujo tema foi Museus Hoje, desafios da contemporaneidade, que ampliaram o campo de discussões das experiências museológicas e ultrapassaram as fronteiras das universidades. A vice-diretora do Museu de Arte Contemporânea da USP e coordenadora do evento faz um balanço do encontro e anuncia o tema para a 7ª Semana de Museus a ser realizada em 2009: “O museu na cidade e a cidade no museu”. Leia os principais trechos da entrevista:
Cores Primárias – Em que medida os novos desafios aproximam instituições museológicas de naturezas diferentes como, por exemplo, o Museu da Maré, no Rio de Janeiro, que é uma criação comunitária, e o MAC, um museu universitário?
Helouise Costa – Acredito que não apenas na USP, como no âmbito dos museus de uma maneira geral, há uma tendência de aproximação entre instituições de naturezas distintas devido à ampliação dos estudos interdisciplinares, muito embora atividades concretas nessa linha infelizmente ainda sejam raras. A Semana dos Museus da USP tem contribuído para a aproximação entre os museus da Universidade que hoje já conseguem visualizar pautas de reivindicações político-administrativas comuns. O próximo passo, a meu ver, seria uma aproximação acadêmica que permitisse o desenvolvimento de projetos interdisciplinares reunindo dois ou mais museus. Para focar no exemplo que você citou, a experiência do Museu da Maré, enquanto instituição criada por iniciativa de comunidades provenientes de favelas cariocas, tem muito a nos dizer sobre as expectativas de diferentes segmentos da sociedade em relação ao museu hoje. Os museus universitários não podem esquecer que o seu compromisso social é com um público amplo e diversificado. Foi nesse sentido que nos pareceu importante trazer a experiência do Museu da Maré para ser discutida na Semana dos Museus da USP.
CP – Como as questões conclusivas dos debates e mesas-redondas poderão redirecionar as ações dos museus universitários?
HC– Considero que os debates e mesas-redondas deste tipo de evento não são conclusivos e nem têm como objetivo buscar aplicabilidade imediata. O objetivo não é chegar a conclusões fechadas, pois não há respostas prontas para as questões com as quais nos deparamos no dia-a-dia dos museus. Cabe-nos nessas oportunidades, em que se reúnem profissionais e teóricos de diferentes linhas e formações, refletir num sentido amplo, colocar em xeque certos conceitos, entrar em contato com diferentes experiências e, principalmente, exercitar a crítica. A meu ver a reflexão e a crítica são essenciais para nortear as ações nos museus.
CP – Um dos desafios dos museus é resistir à visão superficializada de diversidade cultural, à “geléia geral” que anula os espaços de confronto nos museus, como refletiu Ulpiano Bezerra de Menezes em sua palestra. Há outros, por certo. Por estarem sedimentados em uma estrutura acadêmica, espaço por excelência de reflexão, os museus universitários estão mais protegidos dessas tendências?
HC– Talvez, sim, mas desde que exerçam a sua função crítica. Isso foi algo que tentamos problematizar na VI Semana dos Museus, pois sem dúvida nenhuma tratar da diversidade cultural em tempos pós-coloniais é um dos desafios dos museus na contemporaneidade. E essa discussão ganha contornos peculiares em um país como o Brasil. Uma das mesas-redondas que organizamos tinha como tema “A institucionalização da memória pelos museus: a dialética entre memória e esquecimento, poder e saber, cultura e barbárie”, em que se buscou justamente discutir o fato de que os museus não são espaços neutros, mas locais de disputas entre diferentes grupos sociais pela legitimação de sua visão de mundo. Resta saber encontrar meios para se trabalhar criticamente essas questões nos museus sem cair em um relativismo vazio.
CP – Qual o tema proposto para a realização da sétima edição da Semana de Museus da USP e para quando está previsto o novo evento?
HC– A Semana dos Museus acontece a cada dois anos na USP. A próxima edição está prevista para o primeiro semestre de 2009 e o tema será “O museu na cidade e a cidade no museu”. Este tema foi tirado em plenária e aprovado no fórum de encerramento da VI Semana dos Museus da USP, procedimento de praxe desde a primeira edição do evento. Segundo o sistema de rodízio implementado pela Pró-Reitoria de Pesquisa a VII Semana dos Museus da USP ficará sob a coordenação do Centro de Preservação Cultural, cuja diretora atual é a Profa. Maria Lúcia Bressan Pinheiro.
(*) Margarida Nepomuceno é editora do site de jornalismo especializado em história das Artes Visuais, Cores Primárias, cooperadora do 100canais.
Margarida Nepomuceno*