SÉRIE MUSEUS DO BRASIL – entrevista exclusiva com Felipe Chaimovitch – MAM SP

Novo curador do MAM de São Paulo pretende nacionalizar e internacionalizar o museu.

Esta é a primeira entrevista da série realizada com curadores de importantes museus brasileiros, realizada por Cores Primárias (conheça aqui), site parceiro do 100canais, núcleo editorial do Cultura e Mercado.

Felipe Chaimovitch, que já atuava no MAM de São Paulo desde 1997, assumiu o cargo de direção do museu e pretende dar continuidade a processos que serviram de escola para a sua formação durante o tempo em que prestou serviços ao museu, que são as curadorias coletivas: uma forma de reconhecer e valorizar pesquisadores da casa e de outras instituições de arte.

Está repensando seriamente a política de aquisição das coleções do MAM, compostas em sua maioria pela produção artística paulista, mas pensa, sobretudo, em dar uma guinada radical rumo à internacionalização do museu, não somente via intercâmbios e misturas de coleções, mas por meio de novas parcerias que apontem para novos caminhos de adequação das práticas museológicas: “como disponibilizar ao público, por exemplo, o acervo das bibliotecas dos museus quando tudo está sendo digitalizado?”. “Como os países estão resolvendo as questões da interação com o público?”, pergunta Felipe.

O espaço do museu continua pequeno para tantos sonhos e projetos. O acervo de 4.500 peças continua espremido na reserva técnica, mas a estratégia é uma só: continuar as negociações políticas com os poderes públicos e entrar de cabeça na concorrência para ocupação da OCA.

Cores Primárias – Você já é um antigo conhecido do MAM. Participou do grupo de curadores organizado por Tadeu Chiarelli, em 1997; foi responsável pela curadoria do Panorama da Arte Brasileira, em 2005; foi um dos curadores da mostra MAM na Oca, o ano passado, e agora é o curador geral do museu: o que muda para você essa nova responsabilidade?
Felipe Chaimovitch – De fato já trabalho com o MAM há dez anos. Comecei em 97 com o Grupo de estudos em curadoria, coordenado pelo Tadeu Chiarelli, na época curador. Tivemos a oportunidade de trabalhar com o acervo de maneira experimental, com total liberdade para explorar. Era um acervo muito escondido, tímido até . Até então o museu não tinha clareza sobre a nova etapa a seguir depois da perda da grande coleção histórica. O museu tinha uma relação ambígua com a sua própria coleção. Esse grupo de curadores levantou essa bandeira: de que era uma nova coleção, que era um novo museu que essa coleção deveria preencher a expectativa de um museu de arte moderna , mas sobretudo, caminhar para o contemporâneo. A minha experiência no MAM, desde o início, já teve esse sentido: de trabalhar o acervo e de apontá-lo para a produção atual da arte.

CP– Quais as suas experiências em curadoria no MAM?
FC – Realizei a primeira exposição com o grupo que foi A Medida de Si, em 1998 e, em 1999, o Sonho da Razão. Em 2002, fui convidado para estar no Conselho Consultivo de Artes Plásticas do Museu e passei a conhecer mais o seu funcionamento interno, a me familiarizar. Em 2003, fiz a exposição 2080 a convite da curadora executiva Rejane Cintrão que me propôs logo um desafio: em primeiro lugar, fazer uma exposição sobre os anos 80 e em segundo, fazer uma exposição em colaboração com o educativo. Dessa parceria, surgiu uma exposição móvel que foi remontada quatro vezes ao longo da temporada a partir de jogos que eram propostos para os visitantes. A cada quinze dias, o educativo reunia-se comigo, nós interpretávamos os resultados qualitativos dos jogos, a reação do público, e propúnhamos novas arrumações. A exposição era um jogo. No fim do mesmo ano, 2003, eu fiz a exposição 5050 sobre os anos 50 no acervo do MAM, que durou até o ano seguinte e, em 2005, fui convidado para fazer o Panorama, minha experiência mais marcante, que me possibilitou viajar pelo Brasil. Fui a quatorze cidades ao longo do ano conhecer a situação da atual arte contemporânea para fazer uma grande mostra para o museu.

No fim de 2005, fui convidado a voltar ao Conselho Consultivo do museu, pois fiquei fora enquanto fazia o Panorama e, em 2006, surgiu a oportunidade de fazer a co-curadoria na Oca (MAM na Oca). Foi a primeira vez que teve uma grande exposição e o museu enxergou-se de outra maneira. Não apenas por ver boa parte de sua coleção reunida (700 obras), mas por ocupar um prédio tão fantástico como é o prédio da Oca que pra trabalhar é uma loucura. Você não tem noção de profundidade, lá tudo parece fundo infinito. Foi uma maravilha fazer parte do trio de curadores, junto com Tadeu e Cauê. Vamos manter essa tradição do MAM, de curadorias conjuntas.

CP– Como surgiu o convite para ser curador do MAM?
FC – Surgiu a partir de todo esse percurso que decorreu de uma situação que já em curso. A grande mudança da minha entrada pra cá, desde 8 de janeiro deste ano, foi conhecer a estrutura administrativa do museu: o setor de recursos humanos, da contabilidade, a planilha com os compromissos do museu para este ano, a parte que faz o museu funcionar.

CP– Antes você conhecia o que era bonito no museu, o seu acervo e a parte de que você fala agora não tem arte alguma, não é? Só matemática…
FC – Sim, matemática, mas é um setor estratégico. Minha proposta para que o acervo do MAM ganhe visibilidade internacional, que tenha uma coleção representativa de todo o Brasil – pois hoje ela é essencialmente focada em arte paulista – precisa desse setor. Os objetivos do meu programa e pelo qual fui contratado exigem esse respaldo político e administrativo. Sem ele, nada vai pra frente. Agora tenho que viabilizar um projeto para dez anos, trabalho com essa perspectiva, independente de ficar ou não aqui todo esse tempo. Antes eu prestava serviços ao museu, agora eu estou dentro da instituição. É uma outra visão.

CP– Na sua avaliação, decorrido esse tempo inicial, o que deve permanecer no museu e o que deve ser mudado?
FC – O organograma de 2007 já está fechado. Eu ajudei a construí-lo como conselheiro, já estava acompanhando esses trabalhos. Estou articulando 2008 e 2009. Vou continuar trabalhando com outros curadores, curadores convidados, os que já trabalham com o museu, como Cauê Alves, Eder Chiodetto e, claro, Tadeu Chiarelli, além das pesquisadoras e da equipe da casa. Neste ano, teremos uma exposição com a curadoria de Magnólia Costa, professora de história da Arte do MAM , com início em 15 de março, e mais para a frente, a exposição de Vieira da Silva, artista portuguesa, com obras realizadas durante a sua permanência Rio de Janeiro, durante a 2ª Guerra Mundial. Teremos a Coleção de Fotografias do Deutch Bank e, em outubro, o Panorama da Arte Brasileira*. Na sala Paulo Figueiredo, realizaremos ainda este ano, uma exposição da fotógrafa japonesa Rinko Kawauchi que fez uma série de fotos dobre a imigração japonesa no Brasil. Esta mostra será uma abertura para as comemorações do centenário dos 100 anos de imigração japonesa, a ser comemorado em 2008, e o início de uma parceria com os museus de Tókio para a realização de outros eventos.

(*) Esta será a 30ª edição do Panorama da Arte Brasileira realizada pelo MAM, um evento criado em 1969 por Diná Lopez Coelho, diretora do museu na época. Felipe Chaimovitch foi curador da 29ª edição realizada em 2005. O curador percorreu 14 cidades do Brasil e trouxe para São Paulo a produção de 50 artistas contemporâneos.

CP– Quem será o curador da próxima edição do Panorama da Arte Brasileira ?
FC – Moacir dos Anjos.*

(*) Moacir dos Anjos foi diretor do Mamam de Recife até 2006. É crítico de arte.

CP– Você vem falando muito em parcerias. Que tipo de parceria? Para a realização de novas mostras, para a aquisição de obras, criação de novos serviços?
FC – Essa exposição de fotografias (A Fotografia da Coleção do IVAM, em cartaz no MAM) já é uma parceria do museu com o Instituto Valenciano de Arte Moderno no mesmo momento que ocorre também uma mostra de fotografias do acervo do MAM em Valência*. São fotos de artistas brasileiros que trabalham com técnicas subordinadas a outros materiais, diferentes das fotografias do IVAM, que trabalham em seu suporte mais tradicional.

Acho que o MAM deve investir mais nessas parcerias com os museus, fazer intercâmbios e misturas de coleções.

(*)A mostra de fotografia em Valência, Desidentidad, tem a curadoria de Tadeu Chiarelli, está no Instituto Valencia de Arte Moderno desde 29 de setembro de 2006. É composta dos trabalhos de Nazareth Pacheco, Farnese de Andrade, Amílcar Packer, Paula Trope, Regina Silveira e outros, que utilizam fotografia em suportes não convencionais, como madeira, por exemplo.

CP– A mostra Volpi, a música da cor no MALBA* (Museu de Arte Moderno da Argentina) é exemplo também de parceria com outros museus?
FC – O pessoal do MALBA viu a exposição. Não sei, entretanto, dos detalhes dessa negociação. Eu não havia assumido ainda como curador. Mas o MALBA é um museu muito próximo do MAM. A Milú Vilela é do conselho internacional daquele museu. Existem muitas afinidades entre as duas instituições.

(*)De 17 de março a 14 de maio, a mostra Volpi, a música da cor, realizada ano passado pelo MAM/SP com curadoria de Olívio Tavares da Araújo estará no Museu e Arte Latino Americana de Buenos Aires.

CP– E quanto às novas aquisições?
FC – É importante repensar a linha de aquisições da coleção permanente do MAM em vista de se formar uma coleção representativa da arte brasileira. Está faltando muita coisa. É formada em sua maioria pela produção paulista embora tenha núcleos até representativos de outros locais formados pelos Panoramas ou por outras aquisições pontuais, mas isso não é sistemático. Temos que pensar também na ampliação das possibilidades expositivas, pois o espaço é pequeno. A experiência da Oca mostrou o potencial da coleção e a necessidade de salas para exposições permanentes do acervo do museu (cerca de 4.500 peças).

CP– Existem alguma estratégia para se conseguir maior visibilidade para as coleções do MAM?
FC – A estratégia nesse momento é apresentar projetos para o comitê que está analisando a locação da Oca. O MAM está concorrendo com outras instituições e apresentando projeto para aluguel do espaço. Neste momento é essa a nossa estratégia: entrar na concorrência.

CP– E aquela idéia de ocupar o prédio do Prodam?
FC – Isso demanda uma negociação política longa…

CP– … há algum interesse por parte da Instituição?
FC – Sim, há interesse, mas de imediato, o que a gente tem em vista é tentar alugar a Oca em 2008 para as exposições.

CP– O fato de não possuir salas para exposição do acervo permanente dificulta muito o trabalho dos pesquisadores?
FC – Não dificulta, mas não gera oportunidade de pesquisa suficiente. A gente acaba se ocupando de outra coisa por falta de espaço pra trabalhar. Mas aí a pesquisa vai pra outro lado. Aqui ninguém fica parado.

CP– O MAM já se recuperou da sua troca de identidade, o fato de ser um museu de arte contemporânea com um acervo, em sua maioria, modernista?
FC – O MAM já se recuperou a sua identidade no sentido de discutir o que significa essa diferença entre arte moderna e contemporânea, e de problematizar essa diferença. Não há consenso na História da Arte sobre essa delimitação, portanto, faz parte da identidade dos museus de arte moderna, hoje em dia, questionarem-se sobre o que é arte moderna e o que é arte contemporânea. A medida em que o Museu assume esse caráter investigativo isso deixa de ser um trauma. E o MAM assume a sua posição de risco, inclusive, adquirindo obras de arte contemporânea no momento que estão sendo experimentadas, sem ter a perspectiva de que determinada produção vai sobreviver na história ou não. Essa posição ficou comprovada através das obras expostas no 2º andar da Oca (mostra MAM na OCA) em que mostramos os riscos do museu. Então nesse sentido, acho que o trauma da identidade já foi superado.

CP– Como os intercâmbios de acervos contribuem para uma melhor compreensão do acervo do MAM?
FC – Pode haver parceria para intercâmbio de acervos (como as atuais mostras de fotografias, no Brasil e na Espanha) ou de mistura de acervos, quando juntamos numa única exposição acervos diferentes . Com essas ações estaremos estendendo a visibilidade do acervo, internacionalizando-o e problematizando-o. Aí eu acho que o MAM pode contribuir significativamente gerando uma produção bibliográfica interessante: quando as suas exposições forem questionadoras. Não há mérito algum quando você fica pisando no que já foi dito. E misturar acervos é um modo de você ter surpresas, rupturas, deixar surgir coisas insuspeitáveis, que só aparecem quando você tem que criar esse confronto.

CP– … e você é mestre nisso, não é? No Panorama de 2005, você usou ferramentas do século 17 (a questão dos gêneros) para significar a produção contemporânea…
FC – … mas a gente é barroco, não é?… a gente tem o barroco na veia.

CP– Acho que a polêmica sobre a natureza do acervo cai por terra quando você usa o espaço do museu para a discussão das problemáticas da arte, não é? Essa discussão perdeu a validade?
FC – O que perdeu a validade é o modo de exposição que era feito pra mostrar a verdade sobre a qualidade suprema das obras-primas da História. Elas ficavam na parede para nunca mais saírem do lugar.

CP– Nesse ponto a falta de salas conta a favor, não é? … pois obriga vocês a usarem de muita criatividade para expor o acervo…
FC – … o tempo todo, mas mesmo num lugar espaçoso como a Oca, o próprio prédio te impede de ser seqüencial, cronológico, e a nossa idéia é sempre essa: a de questionar os modos de historicizar a arte e não criar teses absolutas sobre ela. A arte é um dos modos de expressão do inconsciente, portanto do irracional. Ai está o seu potencial de liberdade. Engaiolar a arte é matar aquilo que ela tem de mais interessante que é o inesperado… abrir para experiências existenciais que você não tinha se dado conta.

CP– Mesmo com aquilo que foi produzido em períodos já exaustivamente estudados?
FC – Deixa cair na minha mão … eu venho da Filosofia, não venho da História da Arte. Então pra mim, se uma mostra não tem polêmica e não gera debate, não aconteceu.

CP– Sua preocupação não é explicar…
FC – … é gerar reflexão! O museu é um espaço de reflexão. É um espaço de busca, é um espaço de auto-conhecimento, mas também de formação de conhecimento. É diferente, entretanto, de uma sala de aula. Não é uma sala de aula e aí a gente tem que pensar como trabalhar essas diferenças.

CP– … como fica então o setor educativo do museu? Que função ele deve exercer num museu que não é sala de aula?
FC – … de maneira muito criativa! Justamente, uma das coisas que me interessa nessas parcerias é o intercâmbio de tecnologia entre os setores educativos dos museus para que a gente saiba, por exemplo, como a Documenta de Kassel e museus do Japão, da Espanha, do Chile, da Argentina estão lidando com essa questão. O mesmo interesse há com as bibliotecas de um museu de arte moderna: o quê significa ter uma biblioteca no museu no momento em que toda a informação está sendo digitalizada? O que acontece na China, como é no Japão, na França, nos museus hoje?

CP– … são parcerias que vão além da troca de acervos..
FC – Sim, vão além da questão dos acervos, tem a ver com a prática museológica hoje e com os desafios dessa prática museológica. Por isso, acredito que as parcerias são importantes. Acabo de voltar de uma visita com o pessoal do parque do Ibirapuera porque a gente quer fazer uma parceria com o parque, e no caso, com o setor educativo.

São práticas cujos modelos não existem, tudo tem que ser inventado.

Leia mais em Cores Primárias sobre a fundação do MAM e sobre o Grupo de Estudos em Curadoria, formado em 1997.

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(*) Margarida Nepomuceno é editora do site de jornalismo especializado em história das Artes Visuais, Cores Primária, parceiro do 100canais, núcleo editorial do Cultura e Mercado.(visite aqui).

Margarida Nepomuceno*

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