SÉRIE MUSEUS DO BRASIL – Solange Farkas defende papel social do MAM Bahia e aceita o desafio de trabalhar a diversidade na arte

Além da execução de ações emergenciais como a criação de uma nova reserva técnica para abrigar as obras encontradas em estado de abandono, a nova curadora propõe uma política de circulação de ações culturais compartilhadas entre o museu e demais instituições do estado que ampliem o acesso ao público.

Esta é a segunda entrevista da série realizada com curadores de importantes museus brasileiros, realizada por Cores Primárias (conheça aqui), site parceiro de site parceiro do 100canais, núcleo editorial do Cultura e Mercado. Na última edição, publicamos a entrevista com o curador do MAM de São Paulo, Felipe Chaimovitch (leia aqui) e, nesta, trazemos os depoimentos de Solange Farkas, que acaba de assumir a direção do MAM da Bahia.

As principais metas de Solange Farkas, nestes primeiros momentos à frente do Museu de Arte Moderna da Bahia é a execução de ações emergenciais como a criação de uma nova reserva técnica para abrigar as obras encontradas em estado de abandono. Propõe ao longo de sua gestão uma política de circulação de ações culturais compartilhadas entre o museu e demais instituições do estado que ampliem o acesso ao público, “invertendo o sentido usual de circulação das exposições”. Através da criação do núcleo de arte contemporânea Solange Farkas dividirá com historiadores, críticos e demais pesquisadores os trabalhos de estudos do acervo e das curadorias.

Solange Farkas é uma das criadoras e atual curadora da Associação Cultural Videobrasil, com sede em São Paulo, entidade responsável pela produção de festivais internacionais e publicações em várias mídias da produção de arte eletrônica e essa experiência, segundo suas declarações, deve ser somada às suas novas responsabilidades, na Bahia, como um novo desafio: trabalhar com os aparentes extremos na arte, de um lado as artes tecnológicas e, de outro, a rica e diversificada cultura popular, regionalista e identitária da Bahia.

Cores Primárias – Como foi a escolha do seu nome para a direção do MAM?
Solange Farkas – Fui convidada pelo Secretário da Cultura, Marcio Meirelles que é um amigo ainda do período em que morava na Bahia. Mas soube que o Marcio recebeu uma série de e-mails sugerindo meu nome para ocupar a direção do museu, o que também pesou bastante na minha decisão.

CP – Antes da posse, ocorrida dia 26 último, você procedeu a um levantamento sobre as condições do museu: a que conclusões você chegou, o que deve ser mudado e o que pode ser preservado?
SF – Na verdade, ainda não tenho um estudo conclusivo de toda a situação do museu, mas de qualquer forma o levantamento que foi iniciado pela reserva técnica aponta para uma estratégia de ação emergencial no sentido de proteger o acervo do alarmante estado de abandono em que se encontra.

CP – …por exemplo…
SF – É urgente pensar na criação de uma nova reserva técnica, mais adequada para abrigar as quase 1 300 obras do acervo. Ainda não existe um levantamento final desse acervo. Neste momento, estou desenvolvendo ações para sanar as principais deficiências localizadas.

CP – Que função você acha que o MAM poderia desempenhar no conjunto da cultura baiana?
SF – O MAM, é um equipamento do governo e, como tal, passível de ser um instrumento de política cultural pública e com condições de realizar ações transformadoras na sociedade. Talvez aí consista a mudança de atitude, de política de gestão. Pretendo reforçar o papel do museu como propositor de ações e não apenas para ele próprio, mas também para outras instituições do estado. Proponho uma política de circulação destas ações, sobretudo com as exposições itinerantes elaboradas a partir do acervo do museu, iniciadas por outros “equipamentos” do Estado, invertendo o sentido usual de circulação dessas exposições.

CP – Você acha possível fazer mostras itinerantes, como sugere o secretário da cultura Márcio Meirelles, com obras de grande valor como as dos modernistas, por exemplo?
SF – Acho sábia e absolutamente pertinente essa preocupação, sobretudo porque atende de imediato uma necessidade de restauração e recatalogação das obras além de tornar o acervo do MAM permanentemente acessível ao público baiano e aos visitantes de outras cidades do interior. Pretendo criar um núcleo de arte contemporânea no museu, trabalhar com curadores, historiadores e críticos locais na construção de recortes e formatos curatoriais que permitam a ênfase nos mais variados níveis – temático, histórico, técnológico, filosófico, formal, etc – para produzir conteúdos por meio de publicações e chamando a atenção do público para algumas das questões cruciais da arte brasileira representadas na coleção. Quanto à questão da segurança das obras no processo de itinerância, isto não deve se configurar um problema, pois as obras circularão somente por espaços museológicos que serão prévia e tecnicamente preparados para receberem estas exposições, além do que o conjunto das obras dos modernistas, muito provavelmente, ficarão em exposição permanente no MAM.

CP – Ainda segundo declarações do secretário da Cultura “arte é tudo aquilo que agrega um outro valor ao cotidiano, um valor poético, um valor simbólico”. O novo conceito de cultura a ser implantado na Bahia coloca no mesmo patamar a cultura dita erudita e a popular. É possível realizar esse trabalho de fusão entre culturas nas ações do MAM?

SF – Acho que o Marcio Meirelles coloca isso num plano político mais abrangente. Nas ações do museu pretendo dar ênfase às práticas artísticas contemporâneas onde será bem vindo o diálogo entre o popular e o erudito desde que com uma leitura contemporânea.

CP – Você trabalha na Videobrasil com o que há de mais contemporâneo na arte, o uso de novas tecnologias: como conciliar essa prática com a natureza regionalista da arte baiana, com o fazer artesanal e identitário que caracteriza a produção de arte baiana? Trabalhando com os extremos?
SF – Pode ser, mas este aspecto é o mais sedutor e estimulante em tudo isto. Aproximar e fundir os supostos extremos é um belo desafio embora não concorde que a arte baiana seja na sua totalidade caracterizada desta forma. Existe aqui uma geração de artista com olhar e atitude bastante contemporânea, mas sem visibilidade, desconectados do circuito oficial. Acho também que todas as questões que você observa são verdadeiras, mas eu as enxergo mais como aspectos positivos, pois tenho um bom feeling de que, ao iniciar um trabalho de inclusão e, sobretudo, inserção digital no museu, todos estes aspectos mesclados com as possibilidades de experimentação com os meios tecnológicos, farão explodir um novo pólo nas artes contemporâneas brasileiras.

CP – Existem algumas ações já programadas, Salão da Bahia, mostras temporárias?

SF – Ainda não tenho uma análise da situação do Salão da Bahia, mas adianto que vou tratar desta questão com muito carinho e com o tempo necessário para fazer dele uma ação que dê visibilidade também aos artistas locais.

CP – São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Brasília perfazem um circuito significativo das artes plásticas. Como inserir o MAM-Bahia nesse circuito Há essa preocupação?
SF – Claro e muito mais que isto! Pretendo fazer da Bahia uma referência fundamental no circuito internacional, operando em network também com os países que já tenho uma grande conexão, especialmente do circuito do sul.

Leia também entrevista exclusiva de Marcio Meirelles à Carta Maior. (leia aqui)

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(*) Margarida Nepomuceno é editora do site de jornalismo especializado em história das Artes Visuais, Cores Primária, parceiro do 100canais, núcleo editorial do Cultura e Mercado.(visite aqui).

Margarida Nepomuceno*

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