Foto: Quequenae
Proposta do Governo Federal que tramita no Congresso Nacional, o chamado vale-cultura é o tipo de idéia que vem recheada das mais nobres e boas intenções, mas que, na prática, pode gerar o famoso “tiro que sai pela culatra”.

Trata-se de um projeto de lei que prevê a empresas a possibilidade de repassarem, com dedução fiscal, 50 reais mensais a seus funcionários que recebam até cinco salários mínimos para compra exclusiva de produtos culturais.

Em primeiro lugar é consenso que é absolutamente necessário dar condições para que todo brasileiro possa consumir cultura. Isso é inquestionavelmente bom par as pessoas e para o país. Mas não é verdade que uma simples distribuição de um vale-cultura vai garantir o consumo de bons produtos culturais.

Modéstia à parte, posso falar com autoridade sobre esse assunto.

Nos últimos 10 anos, tenho trabalho diariamente para produzir espetáculos culturais gratuitos, com incentivo de leis culturais, direcionados também para esse tipo de público não habituado a assistir apresentações tradicionais de arte e cultura: peças de teatro, shows de música erudita ou instrumental, espetáculo de dança etc.

Todos os eventos culturais que produzo são gratuitos. É posso dizer que pouco adianta um público “não-formado” como consumidor de cultura ter “dinheiro” para consumir bens culturais se ele não tiver: “educação para entender e valorizar” a obra cultural e, principalmente, acesso a bons equipamentos culturais.

Falando de modo bem prático, se um trabalhador das regiões mais periféricas do nosso país tiver 50 reais no mês para gastar em cultura, mas não tiver “formação educacional” para isso ou não tiver o “equipamento” cultural adequado ao seu alcance, é bem provável que ele gaste esse recurso, por exemplo, consumindo revistas de pouco valor cultural em bancas de jornal.

Como já disse, trabalho há pelo menos 10 anos com projetos culturais que visam formar público.

E tenho plena certeza de que a formação de público para bons produtos culturais, a criação do hábito social de prestigiar e consumir a cultura, passa inquestionavelmente e em primeiro lugar pela escola.

É nela que a pessoa precisa ser educada a ter o gosto pelo consumo cultural. Se isso não for feito diretamente no banco escolar pouco vai adiantar dar um “dinheiro” para o cidadão simplesmente comprar algum bem de cultura.
Em segundo lugar, o problema passa pela infra-estrutura cultural das nossas cidades, cujos bairros de periferia carecem de equipamentos culturais consistentes.

Em terceiro lugar, é preciso elaborar uma programação de produtos culturais planejados e disponibilizados justamente para isso: para formar público.

Sabemos, mesmo que empiricamente, que há muita gente que, embora educada e com acesso à equipamentos culturais, não tem o hábito de freqüentar museus, espetáculos de dança, concertos eruditos…

Precisa-se então pensar uma produção cultural planejada para seduzir e atrair essas pessoas.
Além do que, será um erro bastante grave fazer o vale-cultura competir com o incentivo fiscal das leis culturais, como a Rouanet, o que poderá por em risco todo mercado cultural que hoje trabalha e produz cultura com base nessas legislações.

Este ano, produzi no Brasil uma excursão do Quinteto Villa-Lobos, um dos mais renomados do país, por seis estados brasileiros, só com apresentações gratuitas, viabilizadas com patrocínio empresarial via lei Rouanet.

E em todas as apresentações, a maioria do público que compareceu não foi o tipo de público que deverá receber o vale-cultura. E foram todas apresentações gratuitas.

Ou seja, não adianta “apenas dar dinheiro”. Não adiantar criar mais um tipo de “bolsa”.

Se quiser que se consuma cultura no Brasil, precisamos urgente de uma profunda política e estratégia de formação de público cultural.


contributor

Antoine Kolokathis, fundador da Direção Cultura Produções, que atua há 22 anos com leis de incentivo e é associada a diversas entidades do segmento, como a APTI (Associação de Produtores Teatrais Independentes), ABCR (Associação Brasileira de Captadores de Recursos) e FBDC (Fórum Brasileiro pelos Direitos Culturais).

3Comentários

  • Alessandra, 19 de dezembro de 2009 @ 8:39 Reply

    Adorei a matéria! A ideia é válida, mas é preciso ensinar essas pessoas a apreciar e entender a cultura de qualidade, encontrada principalmente nos livros. O amor pela leitura começa na infância, assim como os princípios fundamentais da formação do caráter humano. As escolas precisam ensinar “o gosto pelo consumo cultural”, mas os pais também têm um papel importante nessa formação. No Natal as crianças ficam desesperadas por brinquedos e produtos tecnológicos e os pais ansiosos por agradá-los, mas e os livros? É difícil, senão raro, ver uma criança “desesperada por livros”. Os brinquedos são o exterior, aquilo que podemos tocar e mostrar, mas os livros… os livros são alma, sentimento, coração… inundados de magia, beleza e fantasia; os livros são nosso “eu” interior, os brinquedos nosso “eu” exterior. É preciso ensinar essas crianças e jovens a olhar para dentro e aprender que só seremos realmente felizes quando o interior de uma pessoa por mais importante do que o exterior.

  • Ernesto Izumi, 19 de dezembro de 2009 @ 20:29 Reply

    Promover incentivo com a concessão de cinquenta reais para um trabalhador consumir produtos culturais não é suficiente para que esse cidadão tenha acesso a produtos culturais de qualidade. Mas é preciso destacar 2 questões, a primeira é que o público alvo será de trabalhadores com carteira de trabalho assinada, uma vez que o programa contará com a necessária adesão das empresas em troca de incentivos fiscais, portanto com o mínimo necessário para manutenção de sua vida, ou seja, um salário, mesmo que mínimo, e outros direitos, não sendo portanto um despossuído absoluto, seja de recursos ou capacidade de discernimento. A segunda questão é aceitar como pressuposto que tais indivíduos são desprovidos da capacidade de decidir onde devem consumir o incentivo à cultura e que precisariam de tutela para decidirem o que é de qualidade, e o que não. Mas há preconceito com a produção e consumo cultural das camadas populares, como se, por estarem ao largo da produção mainstream, não seriam dignos de ter a capacidade de discernimento sobre cultura. Vamos apoiar o vale-cultura, vamos apoiar a produção popular, de qualidade e independente, vamos garantir que os recursos da Lei Rouanet não sejam direcionados para shows que são cobrados preços absurdos e que só servem à classe mais favorecida da população.

  • Carlos Henrique Machado Freitas, 21 de dezembro de 2009 @ 17:12 Reply

    Que bom que você promove este tipo de apresentação Antoine Kolokathis!

    O quinteto Villa Lobos é, sem dúvida, um dos orgulhos brasileiros. Mas acho que você poderia fazer uma análise mas profunda sobre o suas preocupações.

    O próprio Quinteto leva o nome do mais importante artista brasileiro de todos os tempos que deixou um magnifico acervo de cantigas colhidas no meio da população pobre do pais e que serviu como material didático nas escolas brasileiras, reeditado agora pela FUNARTE. Com seu guia prático, Villa Lobos não só aplicou o conceito de integridade do homem brasileiro, como também revelou ao país seus inspiradores.

    Além disso, Antoine, o repertório basicamente de choros que o quinteto maravilhosamente apresenta, é extraido da sociedade periférica de outras épocas ou atuais.

    Quanto à formação de público, nacional e internacional, essa mesma sociedade periférica que te preocupa, sempre foi a formadora de público, a principal imagem do Brasil e que mais divisas trouxe, no campo da cultura, para este país. O povo sabe tudo, Antoine, a história nos revela isso. A grande obra de violão de Villa Lobos foi inspirada na magistral capacidade criativa do pedreiro do interior de Pernambuco, João Pernambuco.

    Temos que nos preocupar á com a burguesia, essa sim, no auge da importação do lixo cultural americano, ela se comportou como alguém que se deslumbra com as bugingangas eletrônicas de camelô. Essa classe média incluida está mais excluida de si do que parece. E agora, com a quebra da indústria do entretenimento, ficou órfão, sem pai nem mãe, sem heróis pop star, tendo que reaprender a andar sozinha e reconstruir seus próprios sentimentos, já que foi ela a vítima primeira do grande mercado internacional de entretenimento.

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