Apesar de dominante, o capitalismo não consegue mais sustentar a lógica de acumulação e trabalho. Seus principais alicerces — a economia, a ética burocrática e a cultura de massas — estão em crise. Com a internet florescem, em rede, novas formas de produzir riquezas, diálogos e relações sociais
Aprendemos que as redes são orgânicas. Aprendemostambém que as redes são emergentes. Emergência é um processo deauto-organização. “A única diferença é o material de que são feitas:células de enxames,calçadas, zeros e uns”. Isso não importa. Relevante é observar atendência do pensamento de baixo para cima, bottom up,modificando a forma da humanidade pensar. Continuamente, ouvimos falardas experiências de organização de comunidades de seres vivos, dacapacidade de construção de redes descentralizadas das formigas, doscupins, das abelhas. Seriam reflexos da capacidade orgânica dacolaboração?
Mutação, transformação e modificação são palavras queuso bastante nocotidiano digital. A internet trouxe a idéia de revolução, e trazconsigo críticas inequívocas de como a sociedade moderna estáestruturada. Romper paradigmas significa destruir os preconceitos nosquais estamos inseridos. E muitos desses preconceitos estãodiretamente ligados à forma como nos organizamos e conversamos. Mesmode forma sutil, sem exatamente compreendermos porque agimos dedeterminada maneira.
Se debatemos tal desconstrução da sociedade de massa,podemosadmitir as mudanças e passar a agir de acordo com essa novapossibilidade. E existe uma tendência de utilizarmos cada vez mais osmeios binários — seja para comprar e vender, ou para distribuirinformação. Comercial ou não. E essa tendência acompanha a forma deorganização dos grupos sociais e sua capacidade de conversarem demúltiplas maneiras.
Nessa corrida maluca, percebemos que os mercados também setransformam. O Manifesto Cluetrain é claro. Propõe o fim dos negócios como conhecemos. Por quê? Osmercados são conversações. E essa conversação faz as pessoas seaproximarem, não só para trocar informações cotidianas, muitas vezesdescartáveis. Mas para uma auto-organização da sociedade civil. Asconversações seriam a democratização do processo organizacionalcoletivo?
Linux, o primeiro produto moderno e competitivo criado de modo não-capitalista
Essa é a proposta do movimento dos códigos livres. Uma organizaçãocolaborativa, anárquica e disforme. Poderosa pela essência que une aspessoas num projeto comum. A rede faz tal movimento aflorar. O Linuxfoi o primeiro produto moderno e competitivo criado num modo deprodução não capitalista. Entender isso é compreender que as mudançasatingem o meio digital. E devem repercutir construtivamente paraoutros setores.
Mas o mundo dos negócios é avesso a críticas. Idéias sustentadas emfatos reais são mostradas como se fossem apenas utopia. Lunáticos quenão entendem o dinamismo do dinheiro. Pois o vil metal move o mundo. No entanto, qual foi o investimento inicial no Linux? Nada!
E esse nada está apavorando o grande monopólio. É difícil combater a organização de pessoas comuns. Estamos vendo o Linux e outrosprogramas abertos aumentando a participação nos mercados. Essarealidade é inexorável. Uma realidade que modifica a essência da formacomo conversamos, como estamos buscando nos organizar. Amudança é estrutural, topológica, elementar e, absolutamente,transformadora.
Colaboração é a novidade da sociedade da informação. Linus Torvaldscausou um alvoroço enorme ao liberar o código de seu programa numa lista de debates. A frase Release early and release often (Libere cedo e libere freqüentemente)passou a redesenhar um modelo deprodução. Colaboração como capital social. Colaboração para fazerqualquer coisa que o desejo provoque. Colaboração como condição desobrevivência. Colaboração como viés estrutural no desenvolvimento dasnovas organizações, veia latente dos processos de inovaçãotecnológica, canal de viabilização da interação entre fornecedores,clientes e comunidades de usuários dos múltiplos produtos hojeoferecidos pela internet.
Por meio das redes sociais, novas geografias de poder, nas quais o link subverte a hierarquia
Com as tecnologias da comunicação e da interação, as redes passam afacilitar a convivência à distância em tempo real. Provocam epotencializam a conversação. Reconduzem a comunicação para uma lógica de sistemas organizacionais capazes de reunir indivíduos einstituições de forma descentralizada e participativa. Reorientamfluxos criativos e abrem novas possibilidades de circulação da riqueza.
O capitalismo, apesar de dominante, não consegue mais sustentar alógica da acumulação e do trabalho. Seus principais alicerces, aeconomia, o paradigma da ética burocrática e a cultura de massas,estão em crise. Essa aponta a necessidade de uma nova ordem, uma reestruturação. Marx escreveu sua crítica em O Capital,num momento que a sociedade industrial estava aflorando, mas não seapresentava, ainda, como o paradigma dominante. O século 21 exige,portanto, modificações estruturais no poder para atender a nascentesociedade informacional. É nesse cenário que as redes sociais adquiremimportância, pois em seu elemento constitutivo trazem uma novapossibilidade organizacional, logo, estrutural dos fluxos deconversação e da forma como o poder é exercido a partir dosrelacionamentos entre pessoas.
A tecnologia catalisa a inteligência das pessoas. Arevolução dastecnologias da informação atua remodelando as bases materiais dasociedade e induzindo a emergência de agenciamentos colaborativos comobase de sustentação social. Não podemos atribuir tais mudanças apenas àtecnologia. A internet torna possível o florescimento de novosmovimentos sociais e culturais em rede. Possibilita organizar asociedade civil em novas formas de gestão e retornar às redes humanasdepois de um longo período de domínio das redes de máquinas e daburocracia. No limite da ruptura dos paradigmas, a colaboração aparececomo um potencializador das energias produtivas. A sociedade está setornando mais aberta e de uma forma ampla, mais colaborativa.
O software livre é o caso mais conhecido da resistênciadigital — e oque teve maior impacto. Uma nova dinâmica, que demonstra a produção deconhecimento livre como alternativa economicamente viável esustentável. O código aberto está trazendo para a inovação o que alinha de montagem trouxe para a produção em massa. Estamos caminhandopara uma era em que a colaboração substituirá a corporação. Uma opçãopela descentralização do poder catalisado pelas conversações de umasociedade em rede.
Ao invés de telespectadores, pessoas que desejam protagonizar suas existências e colaborar
As pessoas não querem mais ser telespectadores. Elas têm apossibilidade de interagir com as comunidades na internet e, assim,protagonizar as próprias existências. Buscando na comunidade digitalos interesses comuns. Uma alternativa para o crescimento colaborativo.
Entra a internet. E por incrível que possa parecer, essa ferramenta fezum estrago nas idiossincrasias dos poderosos. A internet é maquínica.Pois recria um poder nômade no âmago. Um poder que se recria a cadainstante. Catalisados pelos nós das redes. Uma reviravolta acontecenos dogmas ocidentais. Onde se lia transcendência, agora se enxerga evive a imanência
Nesse sentido, estamos num processo de progressão jamais visto. Poisqualquer pessoa tem a possibilidade de publicar na rede, seja em formade email, artigos, blogs, músicas ou imagem. A internet é um meiomultimídia que dá às pessoas inúmeras formas de expressão. A culturacibernética não é nada mais do que uma compilação de tal diversidade.Está em curso um processo silencioso, uma revolução que não serátelevisionada, que provocará mudanças profundas na sociedade.
Mais:
Dalton Martins e Hernani Dimantas assinam, no Caderno Brasil, a coluna Sociedade em Rede. Edições anteriores:
O desafio do Open Social
Em nova iniciativa supreendente, o Google sugere interconectar as redessociais como Orkut, Facebook e Ning. Proposta realça sucesso dossistemas que promovem inteligência coletiva e convida a refletir sobreo papel da individualidade, na era da colaboração e autorias múltiplas
Multidões inteligentes e transformação do mundo
Esquecidas na era industrial, mas renascidas com a internet, as redessociais desafiam a fusão entre o poder e o saber, permitem quecolaboração e generosidade sejam lógicas naturais e podem fazer daemancipação um ato quotidiano
Por trás dos links, as pessoas
Há dois séculos, a ciência descobriu e passou a analisar as redes. Hávinte anos, elas estão revolucionando o jeito de a sociedade serelacionar consigo mesma
Hernani Dimantas e Dalton Martins – Diplô
publicado originalmente em s://diplo.uol.com.br/2007-11,a2050