Debate sobre digitalização, pirataria e audiovisual levantou questões polêmicas na reunião preparatória para a Conferência da INCD
Um debate polêmico sobre as mudanças que a digitalização vem trazendo para o cenário cultural mundial esquentou a reunião preparatória para a Conferência Anual da INCD (Rede Internacional pela Diversidade Cultural), ocorrida em São Paulo no último sábado. Na mesa, estavam presentes Cláudio Prado (Coordenador de Cultura Digital do Ministério da Cultura), o cineasta Alain Fresnot (A.F. Cinema e Vídeo) e Dieter Jaenicke (diretor executivo do Fórum Cultural Mundial).
O debate foi iniciado por Cláudio Prado, que defendeu que o Minc vem representando uma posição de vanguarda sobre a questão junto aos organismos internacionais , e que Brasil tem o único Ministério da Cultura do mundo com uma área voltada para a cultura digital. Ele afirmou que a digitalização trouxe uma nova realidade de desmaterialização da indústria, lançando um componente anárquico (já que desestabliza o poder central) e permitindo a convergência tecnológica. Para ele, há duas maneiras de enxergar a digitalização: como pirataria ou como maneira de democratizar o acesso à cultura, sendo que em sua opinião, a segunda opção é que deveria ser considerada pelos governos. Prado disse que quem vê a digitalização como pirataria é a indústria da intermediação, que vem sendo eliminada por esse novo cenário.
Cláudio ainda afirmou que “muito pouca gente ganha dinheiro com direito autoral” e que “a patente interessa ao mundo de ganhar grana”. Ele deu um exemplo bem-humorado de como seria se a patente tivesse sido criada há séculos atrás, brincando que hoje teríamos que pagar para utilizar o número zero inventado pelos árabes ou as formas geométricas criadas por Pitágoras. Em outra declaração veemente, disse que o software livre não é uma questão de gratuitade, e sim de liberdade, complementando que o kit multimídia com esse sistema que vem sendo usado pelo Minc nos Pontos de Cultura é “um fixador de cultura local que permite às comunidades passar do século XIX diretamente para o século XXI”. Ele observou que essas mesmas comunidades estão totalmente ausentes das questões ligadas à propriedade intelectual, da qual nem chegam a ter conhecimento.
Fresnot provocou Prado ao afirmar que com a baixa dotação orçamentária do Minc e o entendimento que a elite brasileira faz da cultura, dificilmente o Brasil terá um real desenvolvimento cultural. Trazendo para o debate a questão do audiovisual, ele disse que o fato de a Índia e a Nigéria serem atualmente os maiores produtores cinematográficos do mundo e não terem se rendido à dominação do cinema hollywoodiano é uma questão que precisa ser contextualizada. Ele lembrou que na Índia a maior parte da população é analfabeta (e portanto não consegue ler legendas) e não tem televisão em casa, enquanto o ingresso de cinema tem um custo muito baixo. Opinou também que o fenômeno do cinema nigeriano é um caso isolado que não pode ser analisado como produção substancial.
O cineasta criticou as políticas públicas para o setor audiovisual, que segundo ele, agem de maneira paternalista, “dando migalhas aos cineastas”, mas não agem na construção de uma indústria, na geração de empregos e nem na redução do déficit comercial. Ele disse que “o cinema nacional precisa de uma lição de casa: parar de fazer de conta que os problemas estão sendo atendidos” e que o interesse pela diversidade cultural se cria culturalmente, educando a sociedade.
Dieter afirmou que o Brasil precisa se relacionar com o exterior de modo mais sofisticado, indo além dos esteréotipos de “futebol, samba e mulheres”, e elogiou o trabalho de articulação internacional que vem sendo desempenhado por Gilberto Gil. Para ele, o ministro é visto no estrangeiro como o verdadeiro ministro das Relações Exteriores do Brasil.
“Pirataria é uma palavra totalmente errada”, na opinião de Dieter. Ele disse que aqueles que são considerados “piratas”, que para ele são revolucionários, estão na realidade provocando a indústria e mostrando que o sistema atual de capitalismo não está funcionando mais. Afirmou ainda que o download ilegal irá continuar existindo e que obrigará as indústrias a repensarem suas formas de distribuição e lucro.
A importância dos downloads foi exemplificada por Cláudio Prado, através do caso do rapper Bnegão, que após disponibilizar gratuitamente suas músicas na internet, recebeu um convite para se apresentar na Europa e construiu uma carreira por lá. Atualmente, o cantor excursiona freqüentemente para o exterior, adquirindo o respeito e a renda que nunca teve antes no Brasil.
Sobre o audiovisual, Prado opinou que o conceito do Cinema novo de “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça” era viável para “meia-dúzia” de cineastas que podiam pagar por uma câmera e que somente agora com a digitalização, o conceito passou a ser realmente praticável.
O Coordenador de Cultura Digital do Minc ainda deu uma prévia das mudanças na área cultural que deverão ocorrer no futuro por conta da digitalização. Para ele, as editoras irão acabar, e os livros poderão ser impressos em casa, sem a necessidade do intermediário, enquanto a televisão deixará de ser vista em aparelhos tradicionais para ser assistida em computadores e celulares. (AF)