Não é preciso voltar tanto no tempo para encontrar exemplos de quando as artes, em suas diversas expressões e linguagens, contaminavam-se e compartilhavam suas criações. A década de 1960, talvez a mais fecunda nesse aspecto, assistiu o teatro, dança, cinema, artes plásticas, música, moda, literatura e poesia construírem uma simbiose de profusão criativa inigualável. Tratava-se de um novo instante de nacionalismo e modernidade cultural, obviamente também provocado pelo regime autoritário e censura da nossa ditadura. Então, não trato aqui do saudosismo desse instante, na medida em que nenhuma ditadura é capaz de provocar tal sentimento. Ao contrário. Recuperamos a liberdade e a estrutura ao fazer da arte precisou, com muitos erros e acertos, reconfigurar seus mecanismos e meandros. E agora, estamos aqui; em outro momento e novos dilemas.
Característica fundamental à sobrevivência da produção cultural, os editais públicos substituíram, sobretudo na última década, o controle majoritário atribuído aos departamentos de marketing na escolha dos projetos a serem viabilizados. Esse outro meio de realização somado aos diversos prêmios, fundamentais nessa recuperação da produção, trouxe inúmeros ganhos ao desenho de outro mercado cultural, mas também consequências e vícios. Era de se esperar que isso ocorresse, afinal, todo e qualquer mecanismo acaba por ser em suas escolhas limitador de algum modo.
Dentre os dilemas resultantes dos novos princípios, está a relação direta de ocupação dos editais e prêmios, exigindo ao vencedor a perspectiva de superação dos demais. Se de alguma maneira isso faz parte da condição de escolha, seja pelo marketing ou comissão, hoje assistimos a seu acirramento, frente à multiplicação de criações e artistas em busca de verbas, recursos, estruturas, apoios etc. Nada errado, evidentemente. Não está na metodologia o problema maior aqui, e sim na consolidação de um imaginário de isolamento e solidão ao artista. Encontraremos diversos exemplos que contradirão esse argumento, contudo, na maior parte das ações, trata-se de reunir e agrupar como estratégia de oferecer vantagem sobre o outro.
Paralelo à necessidade de superação, a segmentação das linguagens fortaleceu o distanciamento dos artistas. Tal opção metodológica alterou a intenção de aproximação das criações, provocando igual isolamento dos segmentos. A Cultura passou a ser enxergada como uma série de itens específicos, aos quais a política pública precisaria intervir e auxiliar. Como, porém, nem todos os setores organizaram-se com igual capacidade, e a disputa, que antes era entre artistas, tornou-se ampliada entre as próprias linguagens artísticas.
Se ao sistema não resta outra saída objetivamente, visto precisarmos dos editais e premiações para suprir o desinteresse privado pela cultura, cabe ao artista encontrar as soluções ao seu isolamento. Diferentemente ao ocorrido nas décadas passadas, não necessita reunir as linguagens como meio de potenciar um discurso estético e conceitual contra um opressor. Trata-se, então, de provocar aproximações como meio de pesquisar e construir novos paradigmas, dialogando com um público igualmente diferente, superando as distâncias e valorizando a cultura como ação instável, incontrolável e fundamentalmente problematizadora. Os tempos são outros, sabemos. Que igualmente os sejam os artistas e suas criações.
Pensado sobre isso, a revista Antro Positivo convidou artistas e empreendedores culturais para participarem da campanha Somar pela Cultura. Lado a lado, atores, quadrinistas, cantores, escritores, grafiteiros, músicos e tantos outros, convidam à contaminação e ao encontro. Em nenhum momento, a campanha se propõe a solucionar a amplitude da questão. Porém, são grandes nomes da nossa cena cultural, jovens e consagrados, e o mero convite exigiu a todos falar e pensar sobre. Isso, talvez, seja de fato o mais urgente, perceber o isolamento consequente e o quanto é urgente à cultura se colocar outra vez como a soma de suas manifestações, não apenas a soma de seus produtos. A aceitação imediata dos convidados comprovou a necessidade da ação. Hoje, a campanha ganha seu espaço dentre tantos outros artistas e amplia ainda mais a presença de sua reflexão.
Se por um lado, o isolamento do artista deu-se por sua mínima sobrevivência, por outro, a cultura permanece isolada também da responsabilidade de quem a consome. Não cabe nesse instante nenhum julgamento sobre sua mercantilização. Independentemente a isso e suas críticas, muitas vezes necessárias e também exageradas, é perceptível o pouco o quase nenhum envolvimento dos indivíduos na construção da cultura. Esse aspecto ressurge no momento em que temos o processo de escolha dos principais cargos nas esferas executiva e legislativa do país. As eleições e os candidatos deixarão como marca a ausência da Cultura nos debates e falas, assim como a falta de interesse da população pelo assunto.
Talvez por conta do isolamento dos artistas, o que provocou um exercício mais independente ao público, talvez por desconhecimento provocado dia-a-dia do quanto a cultura está presente na rotina de cada um de nós. A novela na televisão na hora do jantar em família, o passeio turístico da viagem de férias, o restaurante que se escolhe por ser diferente, a roupa que se compra por ter personalidade, o edifício que se para para observar a originalidade, e tantos outros fatores, somam-se às manifestações artísticas e complementam o entendido por Cultura. Portanto, pensá-la exige ao indivíduo reconhecê-la, posicionar-se e exigir dos governantes respostas e políticas específicas.
Parece distante? Mas o quanto um marco regulatório sobre a imprensa atingirá a informação, ou a discussão sobre as biografias autorizadas dialogam com o conhecimento da história, ou as decisões em tribunais impedindo espetáculos teatrais refletirão em um acostumar-se à proibições prévias? Esses são exemplos de discussões urgentes e em pauta, e que não limitam aos artistas; dizem respeito a todos nós e o quanto estamos disponíveis a abrir mão de liberdades, como se, ao proteger antecipadamente o homem, o Estado estivesse realmente o resguardando. Exemplos complexos que necessitam de discussões em muitos níveis.
Incomodado com os silêncios de ambos os lados, a Antro Positivo ampliou a campanha para uma segunda ação, desta vez provocando as pessoas a somar suas ideias e escolhas. São pílulas, frases curtas, em forma de perguntas, voltadas ao instante eleitoral, que urgem de respostas aparentemente óbvias, porém nada simples. Algumas se colocam diretamente aos candidatos, outras ao eleitor. O importante nessa ação é provocar a percepção sobre aquilo que nos esquecemos de perguntar, tendo em vista o entendimento limitado sobre a Cultura. Perguntas como “Quando arte e cultura entrarão nas falas de nossos candidatos?”, “Você conhece o plano para cultura de seu candidato?”, “Candidato, sabia que a cultura gera emprego, e não só diversão?”, dentre tantas outras.
Deste modo, a revista Antro Positivo se coloca novamente propositiva e provocativa, entendendo sua função de dialogar com os espaços vazios nas discussões mais urgentes. Não se trata, por fim, de solucionar ou responder nada, mas de perguntar e permitir redescobertas. Apenas no conflituoso espaço individual entre dúvida e vontade é que a Cultura poderá alcançar a potência transformadora fundamental ao desenvolvimento da sociedade. Assim como o interesse entre os artistas de abandonarem suas seguranças permitindo certo sabor de renovação e encontro levará as manifestações a um diálogo renovado com a sociedade. Basta se inquietar. Basta querer. E fazer desses dois estímulos os instrumentos para a soma incontrolável e modificadora.
Somar pela Cultura é uma campanha, mas antes, é uma urgente necessidade ao futuro de todos nós. Então olhe ao lado, pergunte-se, aproxime-se, desconfie e permita-se. E as respostas certamente virão.