O evento multidisciplinar Anos 70: Trajetórias, promovido pelo Itaú Cultural, apresentou o debate Cinema e Televisão, com a participação de Esther Hamburger e Carlos Augusto Calil.Deborah Rocha

O encontro ocorreu no dia 30 de outubro, às 19h30, no Itaú Cultural – Av. Paulista, 149, e teve entrada franca. Anos 70: Trajetórias inclui também ações em teatro, dança, artes visuais, música, cinema, literatura, publicidade e design. Todas elas com enfoque na variada produção que marcou a década.

Veja abaixo o currículo dos debatedores:

Esther Hamburger é professora da USP, crítica de televisão do jornal Folha de São Paulo e colaboradora das revistas Bravo! e República, é autora de Diluindo Fronteiras: As Telenovelas no Cotidiano (in A História da Vida Privada), Politics and Intimacy: The Agrarian Reform in Brazilian Telenovela (in Television and New Media) e Política e Novela (in A TV aos 50).

Carlos Augusto Calil é professor da Escola de Comunicações e Artes da USP e diretor do Centro Cultural São Paulo, exerceu funções de direção em órgãos públicos culturais (Secretaria da Cultura, Embrafilme, Cinemateca Brasileira). Realizador de documentários em filme e vídeo, é autor de ensaios e editor de publicações sobre cinema, iconografia, teatro, história e literatura dedicados a Blaise Cendrars, Alexandre Eulálio, Paulo Emílio Salles Gomes, Glauber Rocha, Leon Hirzsman, Joaquim Pedro de Andrade, Federico Fellini, Paulo Prado e Vinícius de Moraes.

Televisão nos anos 70
Inaugurada em 1950, a televisão consolida-se na estratégica década de 70 como uma atividade economicamente viável. As novelas, segundo Esther Hamburger, estão intrinsecamente relacionadas com a formação do mercado consumidor da época. Foram, neste sentido, de importante contribuição para a evolução do “milagre econômico”, da publicidade e da pesquisa de mercado.

Esther aponta para o processo de urbanização da época e para a influência das novelas como partes constituintes desta mudança. Entre elas, destaca Irmãos Coragem, Selva de Pedra, Pecado Capital e Beto Rockfeller. Esta última, produzida em 1968, é considerada um marco da telenovela por suas propostas inovadoras e pela consagração do melodrama.

A palestrante estabelece quatro oposições características que passarão a existir a partir da década de 70. São elas: oposição de classe (rico/pobre), oposição de gênero (homem/mulher), oposição de geração (pais/filhos) e oposição de meio (urbano/rural). “É a polaridade que tende para o moderno, indícios de uma transição para um Brasil do futuro”, diz Esther.

Outros aspectos da TV nos anos 70 notados por ela, dizem respeito ao uso de referências da linguagem jornalística e à inspiração norte americana na nossa produção. O primeiro pretende dar à trama um caráter de verossimilhança através da abordagem de temas marcantes da época como por exemplo, o futebol e a migração para as grandes cidades – aqui o espetáculo e o sensacionalismo já dão sinais de vida. O segundo contribui para a criação das tramas e das sequências numa alusão – quase um pastiche – que se adapta à realidade brasileira. Essas referências se repetirão e ficarão mais explícitas na década de 80.

Cinema nos anos 70
Calil se propõe a fazer uma periodização do cinema brasileiro da década de 70. Deste modo, define seu início com Macunaíma, adaptação do romance de Mário de Andrade feita por Joaquim Pedro de Andrade em 1969 – segundo ele uma produção inédita que uniu elementos do Cinema Novo com elementos da chanchada – e seu término em 1980 com Pixote, a Lei do Mais Fraco, de Hector Babenco.

A passagem dos anos 60 para os 70, segundo Calil, foi marcada pelo deslocamento da política da esfera pública para a privada. As conquistas individuais ao longo dos anos 70, viveram seu auge com a liberação da sexualidade e com as revoluções sociais. No cinema, esta liberalização dos costumes foi a principal característica da década, manifestando-se através da pornochanchada. Filmes com intensa carga erótica voltados especialmente para as elites masculinas. Entre os principais estão: Morfina, Vício e Beleza e Toda Nudez Será Castigada, este último uma adaptação do teatro de Nelson Rodrigues por Arnaldo Jabor.

Outros destaques do cinema nacional da época são: Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto, A Dama do Lotação, de Neville D Almeida, e Xica da Silva, de Carlos Diegues, alguns dos maiores fenômenos de público da produção cinematográfica brasileira.

Serviço: Mais sobre TV
Cultura e Mercado está fazendo uma cobertura sobre eventos e debates que envolvem o tema Televisão. Aguarde, em breve, uma edição especial sobre o tema.

No início de outubro deste ano ocorreu o debate Televisão Alternativa e Cultura, que teve a participação de representantes de emissoras, programas e entidades. O encontro foi organizado pela UBE – União Brasileira de Escritores, e coordenado por Lourival Sodré, no Bar Academia e Letras do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073), com o apoio do Conjunto Nacional e da Academia Bio-Ritmo.

Os debatedores foram: Carlos Meceni, do Canal Comunitário, para o tema Televisão e Mídia, Professor Marcelo Amadei Júnior, das Faculdades Oswaldo Cruz, para o tema Televisão e Educação, Professor José Carlos Aronchi, para o tema Coproduções e Cooperação entre Canais Universitários e Comunitários, Professor Fernando Moreira, da Universidade Vale do Paraíba, para o tema Produção Universitária e Conversão Digital e Professor Sebastião Squirra, do Instituto Metodista Superior, para o tema Televisão, Jornalismo e Tecnologia.

Segundo o assessor de comunicação, Cláudio Willer, o principal objetivo da discussão foi o de examinar, em termos gerais, a questão da democratização das Comunicações, dando ênfase às emissoras de televisão que criam alternativas aos monopólios e às que veiculam conteúdos culturais. Foram também questões de destaque o conteúdo dos programas dirigidos a crianças na TV aberta, a deseducação através da televisão e a importância de haver alternativas para se repensar a situação atual. Willer salienta o discurso de Carlos Meceni e sua contribuição significativa no sentido de esclarecer o funcionamento do Canal Comunitário, além de expôr seus pensamentos em relação à televisão e à mídia. Não foram levantadas questões a respeito de leis de incentivo: “é um tema que futuramente terá que ser examinado. Há preocupação com mudanças, para pior, do Código de Telecomunicações”, aponta Willer. O programa Página Aberta, da UBE, em parceria com instituições de ensino, foi também uma questão discutida.


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