Três perguntas para o MAR – Museu de Arte do Rio

No dia 10 de setembro começam as aulas do MBA Gestão de Museus, promovido pela Universidade Candido Mendes em parceria com a Associação Brasileira de Gestão Cultural (ABGC) e o Museu de Artes do Rio (MAR).

O curso é direcionado a gestores públicos e privados, profissionais que atuam em museus, centros de cultura e patrimônio. Entre os objetivos está formar e reciclar profissionais, proporcionar uma visão integrada das áreas multidisciplinares que suportam a gestão em museus, dinamizar a comunicação e diversificar as audiências dos museus.

Em entrevista ao Cultura e Mercado, o diretor administrativo-financeiro do MAR, Luiz Guimarães, fala sobre a importância dos programas de formação, o modelo de gestão do museu carioca e as ações de aproximação com o público.

Cultura e Mercado – Por que o MAR decidiu ser parceiro do MBA em Gestão de Museus da Ucam/ABGC? Qual a importância desse tipo de formação hoje no Brasil?
Luiz Guimarães – A integração entre arte e educação é o horizonte do MAR e, por isso, seu programa inclui um espaço dedicado à educação que é a Escola do Olhar. Na nossa escola desenvolvemos uma série de programas de formação continuada em artes e cultura visual, que compreendem o arco da educação – desde educação infantil até a pós-graduação. Dentre os programas desenvolvidos encontra-se o MAR na Academia, cujo objetivo principal é estimular a participação da universidade no projeto do museu e promover a inscrição da arte na esfera pública, enfatizando as relações entre museu e educação, fortalecendo a cidade do Rio de Janeiro como um centro de reflexão teórica.

A agenda do MAR na Academia envolve uma relação estreita com as universidades cariocas numa série de seminários nacionais e internacionais, cursos, workshop e conferências. Nesse sentido, o convite da Universidade Cândido Mendes para desenvolver em parceria o MBA em Gestão de Museus vem ao encontro das principais diretrizes do nosso programa. Sendo o MAR um museu público da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, cuja gestão foi confiada ao Instituto Odeon, acreditamos que seu modelo de gestão pode contribuir como um campo de estudos, debates e reflexões acerca da agenda de formação em Gestão de Museus no Brasil. Compreendemos o museu com um território de educação tanto nas suas ações e áreas, quanto nos próprios fluxos e sistemas instituídos para sua gestão. Por isso, temos expectativa de que durante o curso possamos também promover uma qualificação continuada do nosso próprio modelo a partir das contribuições acadêmicas, análises e percepções de professores, alunos e pesquisadores convidados do MBA.

CeM – Como funciona o modelo de gestão do MAR?
LG – O Instituto Odeon obteve a qualificação de organização social no Rio de Janeiro em 2012, o que o habilitou a tornar-se parceiro da Prefeitura e da Secretaria Municipal de Cultura na gestão do Museu de Arte do Rio. O processo de escolha da organização social ocorreu por edital público, aberto a organizações sociais interessadas. A parceria foi firmada por meio da assinatura de um contrato de gestão, com indicadores e metas de resultado que devem ser atendidas pelo Instituto Odeon.

O organização social (OS) é uma qualificação concedida pelo poder público para entidades da sociedade civil sem fins lucrativos, orientadas diretamente para o atendimento do interesse público. Os governos podem estabelecer parcerias com uma OS, transferindo a ela a gestão de serviços não exclusivos do estado, ou seja, aqueles em que o setor privado atua lado a lado com o poder público. Esse modelo possibilita agilidade dos processos, transparência e alinhamento estratégico com as políticas públicas estabelecidas para a área.

Embora ainda em consolidação no Brasil, a gestão por OS tem sido muito utilizada na área de saúde e ganha espaço na área cultural, sendo adotada atualmente por estados, como Minas Gerais e São Paulo, e por cidades, como Recife, Fortaleza e Curitiba. Quando realizada em consonância com princípios éticos e em conformidade com as determinações legais, a adoção da gestão por OS permite que sejam mantidos o caráter e o controle público (órgãos de fiscalização e gestão), e o estado pode concentrar esforços no monitoramento da democratização do acesso e da qualidade dos serviços prestados à sociedade. Desde o inicio o modelo de gestão adotado para o MAR é o mesmo.

CeM – De que maneira o MAR estrutura sua programação? E como é planejado o relacionamento com o público? O que indicam como diferenciais do museu nesses dois aspectos?
LG – A programação é estruturada em algumas frentes: programa expositivo; programação cultural derivada do programa de exposições ou convites/parcerias complementares; e programação da Escola do Olhar – a dimensão educacional do MAR. Há uma parte da programação que é articulada entre si – quando questões das exposições se desdobram em atividades como cursos, conversas de galeria, seminários, etc – e há outra, complementar, que tem relativa autonomia diante da agenda de exposições, como o programa MAR na Academia ou o programa de formação de professores, que podem estar ou não estreitamente vinculadas às mostras. Essa programação responde a interesses estéticos, sociais e políticos do Museu, como é o caso do Programa Arte e Sociedade do Brasil, que produz exposições relacionadas a temas como educação ou política habitacional – respectivamente “Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas” (em cartaz atualmente) e O abrigo e o terreno (2013). Ao mesmo tempo, o MAR intenciona que essa agenda seja uma contribuição para os debates que se dão na esfera pública, no âmbito da cidade, do país ou mesmo tratando de questões de amplitude internacional.

O relacionamento com o público se dá através dessa programação, como também em projetos específicos, como o Programa Vizinhos do MAR, que desenvolve uma plataforma de relacionamento com aqueles que habitam a região portuária, criando coletivamente uma programação que, potencializada a partir da produção cultural desse local, enriquece, por sua vez, a agenda do MAR. O Programa Vizinhos do MAR é, junto com programas como o Amigos do MAR e da presença digital do Museu na web, uma das instâncias de relacionamento dessa instituição com seus vizinhos, a cidade e seus apoiadores, e seus espectadores de maior ou menor frequência. Faz parte desse relacionamento uma preocupação constante com a qualidade e com a abertura ao outro, que vai desde pesquisas de satisfação a instâncias de escuta e ação conjunta.

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