Trocar dívida por cultura

PX Silveira analisa a conversão da dívida externa em investimentos em educação como uma nova forma de cooperação internacional.

Coisas novas estão surgindo no cenário internacional e que merecem ser vistas também sob o ângulo da cultura, que como a gente não se cansa de apontar, é base de apoio para o desenvolvimento real de todas os setores que englobam a vida humana.

É o que acontece, entre outros exemplos, com a histórica decisão da Espanha de perdoar 60 milhões de euros da dívida externa argentina para que esse montante seja investido em educação.

A decisão, anunciada em janeiro, é um exemplo de uma nova forma de cooperação e solidariedade internacional que deveria ser adotada bilateralmente por países credores e devedores de todo o mundo, afinal, estamos todos na mesma nave.

Por mais interessante que possa parecer, esse mecanismo ainda merece alguns reparos para se tornar uma importante válvula de escape da pressão social nociva armazenada diariamente nas falanges abissais da falta de uma democracia cultural plena.

Na prática, o que temos até agora é que a iniciativa coloca a redução da dívida externa dos países em desenvolvimento sob uma ótica voltada para a promoção da educação. E pode-se acrescentar aí o conseqüente combate à pobreza em todo o planeta, implícito no retorno social dos educandos, e a cristalização deste avanço, que só se consegue se a cultura estiver como pano de fundo.

Por um lado, volta à tona a esperança de que os paises hermanos, no nosso caso, logrem novo acerto na articulação de políticas globais de apoio às nações endividadas que somos.

Por outro lado, é um empurrão na subida, sem passar pela antipática criação de novos impostos ou taxas internas. É sem dúvida uma contribuição inteligente e viável para mudar a realidade educacional destes paises.

Mas essa é apenas uma face do que poderia estar acontecendo. E é aí que a gente pergunta: porque não avançar mais um pouco e estender esse entendimento à cultura de maneira geral, uma vez que ela é reconhecidamente o arsenal de sustentabilidade da nação e o diferencial primal que permite todo o resto, a educação inclusive? 

Assim, esses novos recursos poderiam fermentar de fato as nações endividadas, por meio, sim, de investimentos prioritários em educação básica, mas acrescentando aqueles que permitiriam a conquista e permanência do desenvolvimento social de fato.

Novamente, aproximando-nos da questão, temos que, se por um lado está provado e amplamente aceito pela comunidade internacional que o investimento em educação dá retorno social e econômico, por outro lado, o lado perverso e sempre recorrente, tem sido também comprovada nestes países em dificuldades permanentes a queda relevante na proporcionalidade destes investimentos.

As cores deste quadro tornam-se ainda mais dramáticas quando percebemos que estamos perdendo nossa capacidade de indignação, fazendo com que o aumento da distância entre compromissos e ações práticas seja tanto unânime junto aos governantes quanto impune por parte dos cidadãos.

Essa equação que tem se revelado frágil só poderá ser revista na medida em que se aceite o fator cultural como relevante, tendo a cultura como pano de fundo para garantir que sejam irreversíveis as tomadas de consciência que, estranhamente, se dão sobretudo quando em campanha por votos.

Síndrome terceiro-mundista, não se pode mais ficar subindo e descendo degraus, às vezes até descendo dois para cada um que subimos. Saltam aos olhos as evidências que de que é necessária a geração de conhecimento e cultura para se alcançar o desenvolvimento sustentável global, seja lá o que isso signifique.

Surge agora mais uma chance. É bem verdade que a ofensiva política em favor da conversão da dívida em investimentos em educação, iniciada por volta de 2003 em fóruns internacionais, ganha força ainda não mesurada com a inédita decisão do governo espanhol.

E com ela, de forma inevitável, abrem-se novas possibilidades e brotam novos significados que devem servir para redimensionar o seu enorme potencial.

É a hora certa para que os ministros de educação, de finanças -e os ministros da cultura, acrescentamos, apresentem argumentos sólidos na proposta conjunta que devem construir e apresentar nas negociações internacionais, sejam com países credores, sejam com as instituições financeiras de grande porte, leia-se Banco Mundial, o BID e o FMI.

“Transformar a idéia da conversão da dívida em uma ação prática que beneficie os parceiros do Mercosul requer a firme decisão de cada um dos países de tratar o assunto como uma prioridade nacional e como uma política global de elevado alcance social”, diz Jorge Werthein, representante da Unesco no Brasil.

Mais que óbvio, trata-se da possibilidade de uma mudança profunda no concerto das nações. Sobretudo se acrescentamos nesse entendimento o papel cultural como maestro. Não podemos desafinar.

                         

Px Silveira

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