Os hemisférios norte e sul têm muito a aprender um com o outro para o melhor desenvolvimento de suas economias criativas
O momento fascinante em que vivemos se caracteriza por uma palavra que ainda não foi posta em prática em nossa história, principalmente por falta de instrumentos: a inclusão. Inclusão necessária num período onde paradoxalmente existem recursos, conhecimentos e pessoas para fazer do mundo aquilo que sonhamos e merecemos, porém o que falta é vontade política, decisão, escolha.
Se, de acordo com a definição do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, desenvolvimento é o processo de ampliação de escolhas (o que faz ainda mais sentido numa perspectiva quântica) criamos novos mundos à medida em que criamos mais possibilidades de escolha. Para haver inclusão é portanto necessária a ampliação de escolhas.
Porém inclusão não é fácil, uma vez que pressupõe algumas premissas que ainda não dominamos: mais do que identidade é necessário trabalhar com a alteridade – a percepção do outro, a consciência de que a polaridade, mais do que provocar conflitos é quem provoca evolução. Afinal, como dizia Darwin, “das diferenças vem a evolução”. Necessitamos – no mínimo – duas pernas para andar, dois pontos de vista para compreender, dois hemisférios para integrar um planeta e a humanidade.
Assim como as pernas não competem mas cooperam e com isso caminhamos (conscientes de que andar é um constante re- equilibrar-se) é fundamental que os hemisférios percebam que devem cooperar e que esta cooperação só é possível se cada um tiver sua identidade e características. Tentar caminhar com duas pernas direitas é certeza de cair. Adotar modelos únicos também é certeza de queda, não de evolução.
Neste sentido iniciativas como a do recente Simpósio sobre Indústria Criativa (do qual pude participar) realizado em Xangai, numa parceria da cidade com o South South Cooperation Unit da ONU, são fundamentais, pois deixam claras as diferenças e a complementaridade entre as visões e estratégias de cada hemisfério.
O Sul pode e deve adotar parte das metodologias desenvolvidas pelo norte nas quais é carente, como planejamento, mensuração, trabalhar por evidência. Porém são metodologias que não devem ser adotadas como modelos únicos pois foram construídas para outras realidades. Realidades onde a necessidade de inclusão social não é uma premissa; onde não existe tanta diversidade cultural, diversidade de conhecimentos e técnicas tradicionais. Portanto, realidades onde a massificação e homogeneização têm impactos menos danosos.
Para o Sul, a necessidade de inclusão social é a primeira premissa, inclusive para poder formar mercados. O melhor “consumidor” é aquele que está vivo e com recursos, materiais e culturais, suficientes para permitir escolhas.
No caso da Economia Criativa é fundamental que cada “perna”/hemisfério tenha sua característica e função complementar. O Norte tem história, tradição, que resulta em habilidade de planejar, mensurar, coletar evidência, normatizar. Sua Economia Criativa nasce ordenadamente, como um jardim, onde o estado é o principal jardineiro.
O Sul não tem tradição nem suporte porém tem imensa riqueza de recursos naturais, humanos e culturais, frutos da diversidade que compõe a maioria de seus países. A Economia Criativa aqui cresce geralmente sem jardineiro (China é exceção) pois a inconstância e leviandade do Estado geralmente fazem com que sua credibilidade e atuação sejam muito pequenas. Crescemos como uma selva desordenada, inexplorada nos seus potenciais. Sem o Estado, quem sobrevive é o mais forte: as grandes corporações, a Indústria Criativa de massa.
Uma estratégia que atende a necessidade de países que tem uma história mais antiga implica numa Economia Criativa baseada em forças econômicas originárias do século XIX e metade do XX: a indústria, os direitos autorais, a mídia de massa.
Porém, o Sul passa muitas vezes direto para um novo tipo de economia, onde a principal alavanca é a economia da experiência e as novas metodologias e oportunidades que surgem da cultura associada ao terceiro setor. Economia onde a inclusão social é causa (não conseqüência) de crescimento econômico, o que faz com que seja percebida como prioridade.
O atraso do Sul pode ser sua vantagem, uma vez que ele pode passar direto ao século XXI, evitando foco em males do século XX como indústrias homogeinizantes e de monopólio. Para nós do Sul a Economia Criativa do século XXI estará ligada ao cuidar e aprimorar, que será o maior gerador de trabalho e renda neste século. Exemplo disso é o enorme campo da arte cidadania. Campo vasto que inclui arte pública, reabilitação social, direitos, arte educação, educação complementar. Só esta última desempenha enorme papel: verifica-se que, através das linguagens artísticas, os conteúdos programáticos podem ser de fato compreendidos por crianças e jovens, muitas vezes ainda analfabetos funcionais depois de anos de escola.
Economia Criativa que brota através das inúmeras, fascinantes e inovadoras experiências oriundas do terceiro setor. Economia Criativa que vem do uso de conhecimentos e técnicas tradicionais na construção de linguagens contemporâneas. Economia Criativa como fator de soberania. Economia Criativa como fator de integração de setores por seu caráter transversal, sendo o único setor que pode cumprir esta necessária e complexa tarefa.
Economia Criativa que preserva e multiplica a diversidade cultural pois cria modelos e estruturas de trabalho que a favorecem. Economia Criativa que propõe formas inovadoras de financiamento e produção, de caráter alternativo e solidário, pois os modelos de mercado do século XX não servirão para o século XXI.
É preciso ser criativo também na forma de gerenciar a economia criativa. Criativo na hora de criar parâmetros e métodos de pesquisa e mensuração capazes de abarcar a multidimensionalidade da Economia Criativa do século XXI, cuja estrutura de produção e difusão não é em forma de cadeia, mas sim de rede : interdependente, multifacetada, transversal.Nossos indicadores não podem ser como uma régua bidimensional tentando medir litros tridimensionais. Criativos para ver como mensurar e incorporar o mercado informal, provavelmente maior que o outro.
E, sobretudo, criativos na busca da melhor maneira de conscientizar nossas lideranças – governamentais e empresariais – do tesouro potencial que deixam escorrer entre os dedos.Este, aliás, é o principal aprendizado que o Norte tem a nos oferecer .
Poesia à parte, o fato é que precisamos um do outro. Se o Sul sabe que precisa do Norte – com seu histórico, conhecimentos e métodos – será que o Norte sabe o quanto temos para compartilhar, com nossa visão diferenciada de Economia Criativa como estratégia para desenvolvimento humano e sustentável e não apenas para crescimento econômico?
Lala Deheinzelin