“O Brasil não conhece o Brasil”, cantava Elis Regina na década de 70, na célebre canção de Aldir Blanc. Pois décadas se passaram e grande parte dos brasileiros ainda continua a desconhecer muito do que de melhor acontece aqui. E um caso dos mais típicos dessa “alienação nacional” é a nossa genuína música instrumental brasileira.

Acredito que ainda são poucos os brasileiros que têm consciência de o quanto o Brasil é considerado no mundo um fenômeno em termos de música instrumental.

Basta ir numa boa loja de CDS de qualquer grande capital da Europa e nos EUA, onde é comum encontrar títulos de instrumentistas brasileiros.

Nossos grandes nomes – como Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos, entre muitos outros – sempre foram considerados gênios lá fora.

E isso não é de hoje: vem desde os tempos dos Oito Batutas, de Pixinguinha, que nos anos 20 fez a Europa se curvar pela primeira vez à beleza do nosso choro, passando pelo violonista Garoto, que na década de 30, nos shows de Carmen Miranda, encantava os jazzistas americanos, que o chamavam de “O homem dos dedos de ouro”, entre muitos outros casos.

Tanto verdade que muitos dos nossos melhores instrumentistas chegaram inclusive a se radicar em outros países, onde foram (e geralmente são) muito mais respeitados, requisitados e valorizados do que aqui.

E como se todo esse histórico rico e eclético não bastasse, a cada nova geração, a música instrumental brasileira se renova, em quantidade e qualidade impressionantes, em novas safras de novos músicos, grupos e CDs.

Prova disso são “movimentos” musicais que recentemente começaram a ocorrer em São Paulo, como o “SP Vanguarda Instrumental” (www.myspace.com/spvanguarda), que reúne uma série de grupos instrumentais, e o “Movimento Elefantes” (s://www.movimentoelefantes.com/), que aglutina as chamadas “big bands”, que têm feito um excelente trabalho de abertura de mercado – conquistando novos espaços para tocar e despertando nas novas gerações o gosto pela nossa música instrumental.

Mas não podemos nos contentar com pouco. Ainda há muito para se fazer.

O grande problema é que apesar de ter muito mercado lá fora e demonstrar uma grande força “localizada” aqui no Brasil, a música instrumental brasileira ainda é uma ilustre desconhecida em nosso grande território nacional – pelo menos para a maior parte da população brasileira.

Pouquíssimas rádios tocam esse tipo de música, e as que tocam ficam restritas aos grandes centros. São raros os espaços dedicados ao estilo na TV, com exceção das TVs públicas que, sabemos, pouco alcance têm entre a maioria da população.

E os CDs, embora ainda sejam gravados por poucos, mas bons selos, ficam restritos a um grupo seleto de formadores de opinião dos grandes centros.

Mas porque isso acontece, considerando-se que se trata de um “produto” tão excelente, que encanta – e sempre encantou – pessoas em todo mundo?

Acredito que há vários fatores. O primeiro é a causa “mãe” de todos os problemas relacionados à produção cultural brasileira: a educação do brasileiro.

Não precisa se pesquisar muito para saber que a educação pública no país – que é a que atinge a maior parte do Brasil – tem uma série de falhas e carências. E isso é problema porque, para ser mais bem assimilada e, portanto, consumida, a boa música instrumental exige por parte do público um repertório cultural um pouco mais sofisticado.

Mas isso é só parte da causa raiz do problema, pois o que não falta ao brasileiro é sensibilidade para gostar de música boa, pois, como se sabe, somos um povo muito musical.

Acredito que a outra falha vem da própria mídia, do próprio mercado e indústria cultural e seus agentes, que ainda não perceberam o potencial mercadológico da boa música instrumental.

Desde 2005, atuo num projeto cultural que vem me provando a força mercadológica da música instrumental brasileira.

Trata-se do selo Kalamata (s://www.kalamata.com.br/), de Campinas (SP), especializado em produzir e lançar intérpretes, compositores e arranjadores da mais fina flor da música genuinamente brasileira, com ênfase na música instrumental.

Nele, lançamos diversos trabalhos de alguns dos mais importantes instrumentistas brasileiros da atualidade, como o violeiro Ivan Vilela, o saxofonista Mane Silveira e o compositor Ricardo Matsuda, entre muitos outros.

Em todos, o resultado é sempre o mesmo: ótimas críticas e elogios aos discos e instrumentistas por parte da imprensa especializada e de “iniciados”, o que nos fortalece cada vez mais a noção de que a música instrumental brasileira é e sempre será um excelente produto cultural, no qual vale a pena investir e explorar, no melhor sentido do termo.

Mas ainda é algo restrito, localizado, consumido por poucos. A música instrumental ainda é um filão a ser explorado. Ela precisa “invadir” as rádios. Precisa ir para as novelas de grande audiência. Precisa ocupar os programas de TV mais populares – por que não? Por que não dá audiência? Quem disse isso?

Em qualquer mercado ou indústria, há sempre “descobertas” de novos produtos que até então estavam “escondidos”, mas que, muitas vezes, “do nada”, são descobertos e explorados, gerando produção cultural e empregos ao setor etc. Uma dessas descobertas mais recentes são as produções de musicais ao estilo Broadway no Brasil.

Claro que tais produtos culturais só se tornaram viáveis porque alguns agentes culturais apostaram nisso. E se deram muito bem.

Pois em nosso Brasil do gênio de Aldir Blanc, muitas “querelas” – pendências, segundo o dicionário – ainda persistem. Uma delas certamente é a nossa indústria cultural ainda vir a descobrir o poder mercadológico da nossa mais genuína, bela e encantadora música instrumental brasileira.

*Antoine Kolokathis ([email protected]) é um dos mais atuantes produtores culturais do país. É diretor-fundador da Direção Cultura (www.direcaocultura.com.br), produtora cultural de Campinas que em 10 anos de existência já produziu dezenas de grandes projetos culturais gratuitos, aprovados em lei de incentivo à cultura, sempre visando educação e formação de público.


contributor

Antoine Kolokathis, fundador da Direção Cultura Produções, que atua há 22 anos com leis de incentivo e é associada a diversas entidades do segmento, como a APTI (Associação de Produtores Teatrais Independentes), ABCR (Associação Brasileira de Captadores de Recursos) e FBDC (Fórum Brasileiro pelos Direitos Culturais).

3Comentários

  • Daniel Guedes, 20 de setembro de 2010 @ 14:00 Reply

    Antoine

    A música instrumental brasileira é exuberante, pode-se inclusive falar de um paralelo que encontra uma maneira de penetrar nesse espaço virtual agora com as ferramentas como o myspace, youtube, facebook, aonde a maioria dos brasileiros pode conferir que o paralelo da música instrumental é real para unir forçar e trocar experiências. Carlos Henrique Machado, de quem eu leio sempre os artigos, é, como já foi anunciado, o instrumentista brasileiro mais visitado no myspace, http://www.myspace.com/carloshenriquemachado.

    Espero que ele possa falar aqui da derrubada de barreiras que as modernidades tecnológicas estão trazendo à música instrumental brasileira. Alô alô Carlos, fale um pouco desta experiência. Quando estive em Lisboa, assistindo a um concerto, pude constatar que a beleza da música instrumental brasileira é muito prestigiada pelos nossos irmãos portugueses. Eles, pelo que percebi, estão se reatualizando com as luzes da música brasileira.

  • Carlos Henrique Machado, 21 de setembro de 2010 @ 11:28 Reply

    Permita-me ser um pouco extenso, Antoine kolokathis, concordar e discordar do seu precioso artigo. Digo precioso, porque ele é emergencial no sentido de entendermos melhor esse estranho fenômeno.

    Gostaria de fazer uma observação que creio ser fundamental: a frase atribuída como título da música de Maurício Tapajós e Aldir Blanc, se dirigia às elites brasileiras e seus imperativos internacionalizados, “O Brazil não conhece o Brasil”, e isso faz toda a diferença, Kolokathis, por quê? Porque o Brasil conhece o Brasil. O Brasil não só conhece a sua música como é no seu seio que nascem os magníficos sons de tantos gênios que são sim identificados pela sociedade, ao contrário do que o imaginário quer nos fazer crer. Aqui mesmo nesta citação de Mário de Andrade, no seu fabuloso livro “Ensaio Sobre a Música Brasileira”, ele fala sobre esta questão:
    “Uma arte nacional não se faz com escolha discricionária e diletante de elementos: uma arte nacional já está feita na inconsciência
    do povo.”

    Em termos práticos, podemos dizer que a grandeza de Garoto que tinha a temática brasileira em sua total legitimidade para uma exposição universal, como você perfeitamente cita, que encantou os jazzistas, sobretudo Duke Ellington, a mim foi apresentado por meu pai, o que me levou, mais tarde, em 2001, a me dedicar à pesquisa de sua vida e obra, sendo que meu pai não é músico e, muito menos, estudioso no assunto e com pouquíssima formação, saído de uma pequena cidade no meio do mato, chamada Getulândia, RJ. E aí, neste ponto que devemos refletir sobre várias questões relativas a esse momento da música instrumental dentro do Brasil. É fácil observar que a pedagogia da música instrumental mergulhou num profundo retrocesso na tentativa de sobreviver dentro do mercado e, com isso, foi criando o perigoso público alvo tentando seduzir as novas gerações pela técnica, sobretudo as estrangeiras, Berkeley e Cia. Digamos que inventaram uma música para se ouvir com os olhos, com várias escalas e harmonizações “jazzísticas”, forjando assim a elitização de uma música que nasceu no seio da sociedade, principalmente nas camadas mais pobres, tanto que os primeiros músicos instrumentais da história do Brasil, a grande maioria de grandes compositores populares e eruditos eram negros, escravos ou alforriados. Enquanto o Brasil deteve o comando dos negros nas instituições de música, não só avançamos extraordinariamente na criação, vide Callado e a Santíssima Trindade, Pixinguinha, Donga e João da Baiana, como também havia uma sociedade toda envolvida por esses sons mágicos.

    Devemos observar que a música instrumental pegou o caminho errado, ao invés de continuar seduzida pelo encanto da criação, legitimando, sobretudo dos novos compositores, caímos na esparrela das releituras modernosas, o que acabou criando um quadro aritmético e insosso, aonde o paradoxo, estudos de improvisação transformam, através de determinados mecanismos, toda uma liberdade em um curral estético, repetitivo e inaudível, sob o ponto de vista da relação artista/sociedade. A supervalorização de determinada performance universal, de imediato excluiu tesouros de nossa música, cadências, timbres, os sincopados e a nossa majestosa melodia foram sendo substituídos por uma receita artificial com muito mais imagem do que som. E o resultado é este que hoje assistimos, à incessante busca por uma platéia de “entendidos”, a maioria formada por estudantes de música e, através de workshops e outros contorcionismos para produzir públicos.

    Daniel Guedes fala da minha experiência no myspace, mas tenho consciência de que o número de acessos foi provocado principalmente pela colher de chá que o próprio pessoal do myspace me deu, indicando algumas vezes a minha página dentro do próprio myspace para milhões de pessoas, o que me possibilitou a divulgação mais internacional que nacionalmente, o que me possibilitou estabelecer ótimo canal com grandes músicos de todos os segmentos da música instrumental mundo afora.

    O que posso afirmar Antoine, pela experiência, sobretudo com o meu último trabalho fonográfico, o vale dos Tambores, é que com absoluta certeza a sociedade brasileira tem sim interesse em sua música instrumental, ao contrário do que prega o mito, ela quer saber sobre os novos compositores, suas fontes de inspiração e sobre toda a realidade que norteia os compositores, sua historia, sua essência, mas principalmente a sua assinatura, a sua criação, ou seja, na contramão da pedagogia mecânica que está mais preocupada com as técnicas adquiridas na onda universalizante.

    Dia desses fiquei estupefato com uma das “maiores autoridades” brasileiras da batuta falando sobre música brasileira, um desastre. E ele anda por aí com sua varinha de condão, levantando milhões para dar aulas à sociedade com sua pedagogia neocolonizadora. O que precisamos Kolokathis é discutir francamente essas questões. A música instrumental tem que voltar para as ruas, mas não com ares de educadores e de formadores de público, mas para aprender com a sociedade sobre mais genuína, a mais bela e encantadora música instrumental brasileira, como você diz com bastante pertinência, ocupa o coração da sociedade. Os dedos de ouro de Garoto nasceram dessa escola e conquistaram geração após geração, o seu espaço, respeitando e valorizando os sons extraídos das esquinas, varandas, biroscas, terreiros que sempre tiveram absoluta empatia com a sociedade. Enfim, este papo é longo, mas gostaria de parabenizá-lo por levantar de forma apaixonada todas essas questões.

    Um grande abraço e espero que possamos continuar este papo aqui ou por email.
    [email protected]

    .

  • Lena Machado, 1 de outubro de 2010 @ 13:48 Reply

    Carlos Henrique,
    Para além de teu talento como músico, permita-me dizer que sou fã da capacidade que você tem de compreender a música brasileira e a sua história. Infelizmente, muitos instrumentistas ainda não tiveram a oportunidade de aprender desta forma e o resultado são músicos extremamente talentosos tecnicamente, mas que não conseguiram ainda estabelecer o diálogo entre esta técnica e a beleza que é tocar a música brasileira de forma criativa, assumida, sem despencar pros ares modernosos que acabam caindo na descaracterização.
    Prá ser moderno é necessário conhecer o passado, assumí-lo na própria identidade e buscar os caminhos novos que essa tradição pode nos ensinar. E sobretudo nos orgulhar dela.
    Bjos pra vc. Parabéns pela reflexão.
    Um grande abraço daqui do Maranhão
    Lena Machado
    intérprete http://www.myspace.com/lenamachado (sou sua amiga no myspace!!)

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