Um espetáculo sem patrocínio

Terça-feira, 10 de maio de 2011, no auditório da Folha, foi realizada a leitura dramática de minha nova peça, “Um Espetáculo sem Patrocínio”, por Maira Chasseraux e Paula Liberatti. No momento em que Roberto Jefferson enfrenta José Dirceu na Comissão de Ética, duas atrizes, Laís e Carolina, vivem cena análoga no interior de um apartamento.

Carolina está diante da televisão querendo assistir à CPI do Mensalão. Quebrando o clima, Laís confessa que cometeu um crime contra o namorado da amiga, homem mais velho, poderoso, que prometeu patrocinar uma escola de teatro em troca de sexo. A partir daí, a trama se desenvolve.

Escrevi esse texto preocupado com os nossos filhos, sujeitos a educação degradante, que, a cada dia, os convida à corrupção e ao caminho fácil -pressionados pela lei do “se dar bem” e esquecidos da busca vocacional.

Exponho o quadro de jovens perdidas, sem referências morais, diante de um sistema pernicioso e aparentemente sem saída, que leva a se deixar seduzir pelo poder quem não tem dinheiro para realizar seus sonhos. Em uma classe relegada ao descaso, inflada pela indústria da fama, com o teatro visto como um trampolim para o sucesso televisivo, é compreensível que existam muitos aspirantes, poucos deles vocacionados, e que sejam raros os que consigam sobreviver.

Há uma quantidade enorme de peças em cartaz, muitas delas com estética parecida, temática repetida, pouco esforço e nenhum crivo.

O padrão de qualidade está rebaixado à opinião de críticos de última hora, jurados de prêmios fajutos e amigos que julgam pelos parâmetros da embriaguez das praças.

Não há interesse verdadeiro em arte, e o ensino medíocre do país está longe de estimular tal busca. Assim também a aprovação dos projetos e a escolha de contemplados ficam subordinadas a quem não entende do assunto e a conchavos dos lobistas, mestres em fazer com que se aprovem a hipocrisia e grupos formados na véspera dos editais.

Maria Bethânia causou escândalo com seu blog de poesias, mas é a lei que permite os absurdos, e seria ridículo acusar os artistas de serem os únicos que estão atrás de dinheiro público. A discussão é de todos.

Pergunto: é possível a montagem de um espetáculo sem patrocínio, sem apoio nenhum, sem dinheiro das leis de incentivo, de parentes e amigos, sem mendicância, sem permuta, com a expectativa única de vender ingressos para pagar a produção e o salário de quem trabalha? Sonho.

Meu texto se mostrou interessante para quem ouviu a leitura. Quero que o tema da peça e a forma como ele é expresso sejam relevantes por si, sem conchavos, sem esquemas, sem apelos midiáticos.

Desta vez, recuso paternalismos e trocas indevidas. Para tanto, preciso de uma audiência alerta, viva, renovada, criteriosa. Convido a todos e espero com esperança, sem choramingar, sem dizer que as coisas estão ruins e que desse modo não é possível. É preciso não entregar os pontos e não sair do jogo só porque estamos perdendo para as injustiças.

*Publicado originalmente na Folha de S. Paulo

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