Termos como “big data” e “era da informação” têm se tornado tão comuns que passam a impressão de que vivemos num mundo repleto de dados de todo tipo e que o trabalho maior não é produzi-los, mas peneirá-los. Isso pode ser verdade para algumas áreas, mas não para todas. Não, certamente, para cultura.

No Brasil, a realidade é de poucos indicadores, que começaram a ser coletados só recentemente – de modo que ainda é difícil captar mudanças –, e de falta de um ambiente que estimule discussões sobre o que já existe.

A professora Gisele Jordão, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), põe a questão em termos quase alarmistas. “Não se pode dizer que temos buracos em pesquisas, porque quase não temos pesquisas – e no nada não há buracos”, diz ela, coordenadora das duas edições do Panorama Setorial da Cultura Brasileira, que mapeou o consumo e a produção no Brasil e nas grandes regiões.Além desse estudo, feito em parceria com o Ibope, há outros de âmbito nacional, como o da Fecomércio-RJ e da Ipsos e do Sesc com a Fundação Perseu Abramo. Órgãos públicos, como IBGE e Ipea já se debruçaram sobre o tema, mas em trabalhos pontuais. E há levantamentos com foco mais local – que é, em última instância, onde se concretizam as práticas culturais. É o caso do levantamento do Observatório de Favelas do Rio de Janeiro e da série de pesquisas feitas pela consultoria JLeiva Cultura & Esporte em parceria com o Datafolha, abrangendo cidades como Rio de Janeiro e, mais recentemente, 21 municípios paulistas, incluindo a capital.

É pouco. “Os dados existentes não são suficientes nem para a academia, nem para o campo cultural, nem para o governo, que deveria estar formulando políticas públicas”, ressalta a antropóloga Cláudia Leitão, professora da Universidade Estadual do Ceará, consultora em economia criativa da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) e ex-secretária de Economia Criativa do Ministério da Cultura. “Existem poucos dados, sobretudo de distribuição e demanda. São informações pontuais, que não permitem elaborar séries históricas”, acrescenta a especialista em economia criativa Ana Carla Fonseca, sócia da produtora Garimpo de Soluções.

O diretor da JLeiva, João Leiva, costuma citar as artes cênicas como exemplo. Não há informações organizadas sobre peças teatrais – o que abordam, quanto público atraem, que fontes de recurso são mais importantes para viabilizá-las, em quantas cidades são apresentadas. O cenário não é diferente em outras áreas. Quantos espetáculos de dança Curitiba recebeu no ano passado? Que estilos musicais predominam nos shows do Rio? Onde é feita a maioria dos saraus na cidade de São Paulo? Não há respostas precisas para tais questões.

Leiva admite que é difícil sistematizar, em números, um universo multiforme como a cultura. Mas pondera que há necessidades bem práticas – como estabelecer e distribuir verbas governamentais, mensurar políticas públicas ou o impacto de investimentos privados – que ganham muito quando se baseiam em dados.

Um ambiente sem indicadores precisos acaba prejudicando a tomada de decisões estratégicas. “O mundo todo está se direcionando para a produção de dados, mas aqui continuamos na cultura do edital, do projeto”, lamenta Ana Carla. “Secretarias que não têm dados para planejar investimentos vão no viés de quem está à frente, ficam no ‘achismo’ de cada gestor e não criam políticas estruturantes”, resume André Diniz, presidente da Fundação de Arte de Niterói, ligada à prefeitura da cidade fluminense. A instituição está mapeando a cultura na periferia do município, com a ajuda do Observatório de Favelas, a fim de propor políticas que deem visibilidade à arte produzida nesses locais. “A fragilidade em pesquisa produz políticas frágeis, decisões tomada pelos humores do gestor da vez”, concorda Cláudia.

No lado dos produtores a situação não é diferente. Frederico Reder, diretor da Brainstorming Entretenimento, que cuida dos Theatro Net em São Paulo e no Rio de Janeiro, conta que define a programação das casas com base em “intuição, nos símbolos decodificados por quem, como eu, está há muito tempo no mercado”.

Foi por intuição, por exemplo, que Reder decidiu apostar em peças e musicais brasileiros. A mesma intuição é que está levando o empresário a investir em casas em duas regiões carentes de opções: o bairro do Tatuapé, em São Paulo, e Bangu, no Rio de Janeiro.

História, recursos, interesse – Mas, afinal, por que há escassez de pesquisas sobre cultura no Brasil? Leiva vê raízes históricas. “As pesquisas na área sofreram por causa da ditadura, quando educação e cultura foram deixadas em segundo plano. A crise econômica posterior e o período Collor também afetaram negativamente.”

Além disso, elas são um tipo de trabalho caro, ainda mais em um país com as dimensões do Brasil. Mas a relação entre custo e benefício é vantajosa, avalia Gisele Jordão: “Quando olhamos de modo isolado, parece não fazer sentido investir nelas, mas os dados podem gerar ainda mais recursos para o setor. Pesquisa não é produto, é insumo”.

Ainda assim, o pesquisador José Durand, professor de pós-graduação de estudos culturais da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), defende que “são necessários editais públicos voltados para subsidiar pesquisas sobre cultura no Brasil”. Cláudia Leitão, que trabalhou no Ministério da Cultura entre 2011 e 2013, defende “parcerias com outros ministérios que têm mais recursos, como o da Educação e o de Ciência, Tecnologia e Inovação”.

Uma barreira menos visível é o fato de haver, dentro da própria área, certa resistência ao tema. “Existe pudor em falar em mercado de cultura. Há um problema de entendimento geral, pois se coloca mercado como algo contrário à arte, mas não são conceitos excludentes”, argumenta Gisele. “O cinema foi a área que melhor conseguiu ir atrás de dados, por causa do perfil mais industrial e da cadeia de distribuição mais marcada”, ressalta Leiva.

Uma consequência desse cenário é que faltam também ambientes para criação de pesquisas e discussão dos dados. Durand constata, por exemplo, que “o Brasil forma aproximadamente 100 doutores e 300 mestres em ciências econômicas por ano, e não consegue ter um centro de economia da cultura com economistas diplomados e capacidade analítica. Não há interesse deles”.

Circular os indicadores é fundamental, tanto para que o mercado conheça os resultados quanto para que o pesquisador possa ter um retorno sobre o levantamento. A difusão dos dados, diz Leiva, ajuda a potencializar os achados, a estimular outros levantamentos, a evitar redundância entre as pesquisas e a gerar subsídios para melhorar a qualidade dos indicadores produzidos e a interpretá-los melhor.

*Essa é a primeira de um conjunto de reportagens sobre indicadores que Cultura e Mercado publicará nos próximos meses. A série vai se basear nos dados da pesquisa Cultura em SP, da consultoria JLeiva Cultura & Esporte.


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Jornalista da PrimaPagina, produtora de conteúdo parceira da JLeiva Cultura & Esporte.

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