No último dia 20 de julho comemoraram-se os quarenta anos da chegada do homem à Lua. Afora os inúmeros avanços tecnológicos oriundos dessa aventura impulsionada pela disputa acirrada entre as duas superpotências da época, que influenciaram o cotidiano das sociedades mais desenvolvidas, houve uma mudança crucial na percepção humana em relação à vida e ao universo.
A partir de então passamos a olhar a Terra à distância e pudemos contemplar a imensidão do Cosmos e constatar a nossa insignificância em meio a esse conjunto inacessível e infinito. A Terra começou a ser vista quase como uma nave espacial, ou como cantou Caetano Veloso: “Que a força mãe dê coragem/ Pra gente te dar carinho/ Durante toda a viagem/ Que realizas no Nada/ Através do qual carregas/ O nome da tua carne”. Somos a partir daí a única espécie desse planeta que “vê” a Terra de fora.
Um teórico americano, Frank White, cunhou a consequência desse salto gigantesco para a humanidade de “efeito panorâmico” (overwiew effect). Não se trata somente de uma mudança ocasionada por imagens que nos apropriamos e introjetamos, mas de uma transformação profunda na consciência humana em relação a si mesma, ao sentido da vida e aos mistérios da existência. O autor se utiliza de uma metáfora curiosa apoiando-se na evolução da humanidade aceita pelos cientistas: um peixe consegue sair do mar e vê-lo à distância. Ele é capaz de vislumbrar o oceano e imagina-lo parte de algo infinitamente maior. Todos os referenciais válidos até então se transformam, desaparecendo os limites e as fronteiras. Novamente Caetano: “Quando eu me encontrava preso/ Na cela de uma cadeia/ Foi que vi pela primeira vez/ As tais fotografias/ Em que apareces inteira”. A consciência vai assimilando gradualmente novas concepções de espaço e tempo que apontam para a reestruturação da vida na Terra.
Bertrand Russel afirmou no início do século XX que o universo todo é simplesmente o resultado de agrupamentos acidentais de átomos. A existência ficaria desse modo desprovida de qualquer significado real. Seria um encontro com o Nada, que pode gerar sensações e posturas antagônicas: o desespero, a perplexidade e a alienação ou a condução sábia da vida e a paciência, a reverência à totalidade e a consciência ética. Muitos filósofos e pensadores já haviam expressado idéias semelhantes antes das constatações científicas e das divulgação das imagens da Terra e do Cosmos com as quais convivemos hoje, como algo que compõe o nosso horizonte de experiências possíveis.
Podemos deduzir daí que vivemos um período de transição, sendo confrontados a todo momento com perspectivas excludentes: a extinção de todas as espécies ou a vida harmoniosa em um planeta equilibrado, a barbárie extrema ou o mais alto grau de civilização, a tolerância e o respeito à diversidade ou o extermínio e o ódio destrutivo.
Para muitos vivemos hoje uma época similar à Idade Média. Nesse caso muito provavelmente vivenciaremos um renascimento ou assistiremos ao caos e à destruição. A escolha é de cada um.