Uma cultura indigente - Cultura e Mercado

Uma cultura indigente

Um ano após seu polêmico pedido de demissão como Secretário de Cultura de São Paulo, Emanoel Araujo oferece uma mordaz reflexão sobre o estado da arte

Um ano depois de ter colocado o meio cultural paulistano em polvorosa, com uma carta-demissão em que atirava para todos os lados, o ex-secretário de Cultura de São Paulo Emanoel Araujo, 65 anos, parece estar menos encrenqueiro. Mas mantém o espírito crítico a postos. Ao receber a reportagem de CartaCapital para falar sobre a exposição de Carybé no Museu Afro Brasil, criado por ele próprio, começou a explicar a obra do artista, mas, ao fim de uma hora, já tinha saltado para temas mais amplos. Gestor cultural e artista plástico famoso pela língua solta, Araujo não fez os ataques diretos e nominais de outrora. Mas ofereceu uma provocativa reflexão sobre a cultura no País.

O senhor escreveria de novo aquela carta?

Escreveria com mais veemência ainda, porque nada aconteceu nesse um ano. Ao contrário. A secretaria ficou morna e silenciosa. Ou seja, deve ter cumprido tudo o que aqueles pequenos grupos exigiam de mim de imediato.

Que grupos?

Os grupos de teatro beneficiados pela lei do fomento (lei municipal que beneficia especialmente grupos experimentais) e toda aquela gente que fez um barulhão porque queria verbas. Mas atendê-los não é fazer política cultural, é cuidar de feudos que criaram formas institucionais de ser beneficiados. Assim, a Secretaria de Cultura transforma-se num mero repassador de verbas. Aliás, a cultura interessa muito pouco aos políticos. Por isso, até uma festa como o carnaval de Salvador vira o que virou. Vem um grupo, fecha o Campo Grande e o povo fica de fora. Eu encontrei o Caetano Veloso em Pernambuco, perguntei o que ele estava fazendo lá e ele disse: “Eu não agüento mais o carnaval de Salvador”. Isso tem a ver com a sociedade perversa brasileira, que transforma tudo a seu bel-prazer, que faz uso privado do bem público.

Na breve passagem pela secretaria o senhor se defrontou com essa confusão entre público e privado?

Veja o caso do Teatro Municipal. Os patronos do teatro são senhores grã-finos que não metem a mão no bolso e querem que a renda para a administração saia do próprio teatro. Aí eles alugam aquilo para batizado, casamento, formatura, o que você imaginar, transformando o espaço público numa coisa privada. No primeiro dia como secretário de Cultura, eu soube que a filha do doutor Silvano Raia tinha um desfile de moda lá. O teatro estava todo desmontado. Eu chamei o Corpo de Bombeiros para pôr fim àquilo. Então, alguém me disse: “Não faça isso. Ela é filha do Silvano Raia. E se um dia você precisar trocar o fígado?” Só rindo. Esse é o Brasil. Por isso tenho inimigos.

Mas para gerir um museu também é preciso pedir doações, não?

Desde a Pinacoteca, eu pego o chapéu e vou bater à porta de A, B e C. Há anos repito a mesma cantilena. Eu sempre pensei que, depois de um tempo, como resultado de um trabalho, os recursos viessem naturalmente. Que nada! Qualquer projeto cultural é como uma obra de arte: você está sempre diante de um vazio. Na Pinacoteca, eu criei a Sociedade de Amigos para que pudéssemos receber as doações sem precisar entrar no processo burocrático que bateria nos cofres públicos, já que, se o dinheiro vai parar no caixa da Secretaria da Fazenda, ele se perde para sempre.

Como ter apoio da iniciativa privada sem prostituir o museu?

Precisa haver bom senso. O problema é que o Brasil é sempre um reflexo, torto, do que acontece no Primeiro Mundo. Por exemplo: fizeram o carré do Louvre, que é um belo espaço com loja, butique, e que pode ser alugado. Mas as pessoas só entram no nome, não no museu. A National Gallery, de Washington, faz jantares, mas cobra 800 mil dólares, que é o custo de uma exposição. Aqui, uma senhora foi à Pinacoteca querendo fazer um jantar e me disse “o senhor faz isso, faz aquilo e eu estou disposta a lhe dar 5 mil reais”. Essa é a questão do Terceiro Mundo: nos achamos ainda piores do que somos. 

Como manter uma relação honesta entre curadores de exposições e mercado de arte?

Essa é uma questão muito complexa. De certa forma, a cada artista que você reúne num museu, você dá uma grande colher de chá ao mercado. Isso é inevitável.

A diferença estaria na origem de cada projeto?

Sim, mas no Brasil os museus não têm recursos para comprar obras, não têm acervo definido. Então, você vai contar com quem? Com o colecionador particular, com as galerias de arte. Enfim, isso é um olhar cruzado que você não tem como evitar. O mercado de arte tem as próprias leis e formas de agir.

Qual a sua avaliação do milionário mercado de arte contemporânea?

Eu, realmente, não consigo entender os preços da arte contemporânea. Mas é como você chegar a uma loja e comprar uma roupa do Yves Saint Laurent por 70 mil dólares, vestir uma vez e guardar. Há alguma razão para alguém fazer isso. Não sei qual é. Eu fui, pela primeira vez, à Arco (feira de arte de Madri) e não consegui diferenciar bem uma coisa da outra. Você vê ali, entre 250 galerias, artistas que se parecem uns com os outros. Aí, um diz: “Olha, aquele lá parece o Marcelo Nitshe, que já fez aquilo nos anos 50 no Brasil”. Daí, outro diz: “Ah! Aquilo parece a Beatriz Milhazes”. O que é que está acontecendo?

São os novos tempos da arte?

Os novos tempos regidos por uma conspiração entre curadores, museus, coleções e dinheiro. Mas isso fica entre um grupinho de negociadores e não vai definir quem permanece e quem some. O tempo incumbe-se de resolver isso. Então, eu fico pensando: alguém que compra um Romero Brito por não sei quanto… coitada dessa pessoa. Torrou dinheiro. Mas há quem torre num armário embutido, num tapete persa. As relações são muito chãs, muito vulgares.

Enquanto isso, os museus vivem à míngua.

Pois é, e os museus deveriam guardar a memória, o significado de cada movimento. Mas os nossos museus sofrem com a pobreza, a indiferença. Não temos aqui a consciência dos colecionadores americanos. A elite brasileira não liga para isso. Se ela pode viajar e freqüentar os museus da Europa, o resto que fica aqui que se dane! E o que existe é malcuidado. Foram roubados o museu da Chácara do Céu, a Biblioteca Nacional… Fica tudo à deriva. É essa a política que falta. Se você pensar no Patrimônio Histórico, é pior que os museus. Na Igreja de São Francisco de Assis, na Bahia, a primeira coisa que se vê é uma lata grandona onde está escrito “lixo”, no claustro. Aí, você lê: “O Patrimônio Histórico Nacional interditou esta área porque está caindo”. Por que tem de ter uma lata de lixo no meio de um claustro do século XVIII? A verba de um ano colocada no cinema salvaria o patrimônio histórico nacional. Acho que nós somos realmente muito indigentes. Mas temos de insistir em sair dessa indigência, em continuar existindo. 

Foi isso que o levou a ser, além de artista, um administrador cultural?

Sim, porque tudo isso me deixa aflito. Como artista, eu teria contribuído comigo mesmo. Como administrador, é uma outra forma de contribuição. No fundo, é como se eu não quisesse ser esquecido. A minha escultura no Museu de Arte Moderna está toda brocada, enferrujada. Quase tudo que eu fiz público por aí já está perdido. Quer dizer, não tenho força para cuidar do meu próprio trabalho. Mas eu tento ajudar outros artistas a expor. Agora, quando entrei na secretaria e vi aquilo que eu chamei de pocilga, sem uma cadeira decente, as pessoas sem nenhuma auto-estima, não agüentei. Estamos em franco processo de destruição. E o que acontece com o patrimônio histórico mostra isso. Ninguém está nem aí para a memória.

É como se o que passou deixasse de interessar…

E o que vai acontecer? A cultura material vai virar pó? Vamos ser modernos com edifícios neoclássicos com telhado de ardósia em São Paulo? Com aquelas janelas falsas imitando janela colonial? Estamos regredindo ao século XIX. Fake. São Paulo já teve a melhor arquitetura do País, teve um homem como o Vital Brasil, que fez o edifício Esther, em 1929, o auge do modernismo no Brasil. Hoje, você tem um arquiteto fazendo neoclássico, imitando o telhado da Place des Voges, de Paris. Você quer o quê? Olhe aqui em frente ao museu: três prédios com ardósia no telhado. Vai nevar em São Paulo!

É o auge do velho e bom “nada se cria, tudo se copia”?

E nesse caso é a cópia atrasada! Mas a massificação chegou a um ponto tal que não só a cultura, mas até a religião é atingida. Hoje, qualquer pessoa pode montar um candomblé. Você chega a um mercado como Água de Meninos, em Salvador, e encontra a galinha enrolada para ser sacrificada, o bode enrolado, os colares, as roupas, as ervas, tudo pronto. Ou seja, não é mais preciso criar uma atmosfera para justificar a existência do divino. Você chega lá e compra. Eu não sei se a gente chora ou se dá muita risada. Estamos numa época da desmistificação geral. Coisas que eram sagradas, que eram de quem conhecia, estão abertas para qualquer um. E como todo mundo tem pressa, todo mundo quer tudo pronto. As pessoas têm tanta pressa que vão a um museu e dizem: “Eu fotografo o quadro e olho depois, em casa”.

Entrevista concedida à revista “CartaCapital”, e reproduzida com a autorização da publicação

Ana Paula Sousa

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