Uma fábrica de fazer cultura - Cultura e Mercado

Uma fábrica de fazer cultura

Conheça César Piva, gestor da Fábrica do Futuro Ponto de Cultura e do Instituto Cidade de Cataguases – ICC, ação cultural de desenvolvimento da cultura mineira com foco no audiovisual. Em entrevista a Cultura e Mercado ele falou das bases de sustentação destes projetos, do Sistema Nacional de Cultura e da Convenção da Unesco, da experiência adquirida em ações anteriores e deste novo momento em que a cultura é vista como processo, conforme sua essência e diversidade

Não poderia ser diferente. O roteiro percorrido por César Piva até a implantação da Fábrica do Futuro Ponto de Cultura em Cataguases – MG, revela a fonte do conhecimento estratégico em gestão cultural que vem aplicando em Minas Gerais em projetos inovadores e bem-sucedidos.

Em 2000 e 2001 participou da implantação do escritório antena da UNESCO no Rio de Janeiro, coordenando o Projeto Fala Galera – Juventude, Cultura e Cidadania. “Dessa experiência tive o privilégio de, por uma lado, conhecer e me relacionar com o trabalho e força de jovens lideranças de grupos importantes da cidade como o Afroreggae, Nós do Morro, Cooparoca, Ceasm-Maré, Viva Rio-Galpão de Direitos, Excola, Teatro Anônimo e, em especial, conviver com pessoas como Regina Novaes (Iser) Márcio Libar (Anônimo), José Júnior e Márcia Florêncio (Afroreggae), Lorenzo (Fase) Patrícia Lacerda e Marta Porto (Unesco)”, lembra César, que absorveu deste relacionamento a compreensão sobre a “importância das respostas locais produzidas por novas práticas, da capacidade pró ativa de uma nova geração de organizações sociais no Brasil”.

A Fábrica do Futuro Ponto de Cultura, selecionada pelo Programa Cultura Viva no edital de 2004, é a primeira incubadora do audiovisual de Minas Gerais. Passada a fase de implantação e estruturação, foi novamente selecionada pelo Ministério da Cultura, com a possibilidade de “ampliar e amplificar essa experiência para várias cidades de nossa região, dentre elas, Juiz de Fora, Muriaé, Santos Dumont, Rio Pomba, Ubá, Mirai, Além Paraíba, São João Nepomuceno e Guarani”, um processo de implantação de núcleos regionais, a partir do trabalho de jovens criadores e produtores de mídias dessas cidades.

Delineada como uma rede de articulação cultural que abraça conceitos comunitários e de cidadania, a Fábrica “é resultado concreto de um intenso trabalho de cooperação entre diversas instituições e empresas, onde o Instituto Cidade de Cataguases cumpre um importante papel de reunir iniciativas e lideranças da cidade e região, com a visão contemporânea de que Cultura é o fio e a energia que tecem o desenvolvimento local e a transformação social”.

Para o gestor, esta arquitetura de cooperação e de conhecimentos pode ser ampliada não só para os municípios de Minas, mas, para além das divisas do estado. “A parceria estratégica com os governos, nos âmbitos municipal, estadual e nacional, faz parte do nosso processo de gestão, e a participação no Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura é fundamental para alavancar nossas experiências sociais para um patamar de políticas públicas inclusivas, até mesmo para outras regiões do país”, afirma, consciente das forças de um mundo de fronteiras cada vez mais tênues. Se por um lado esta vulnerabilidade amplia as possibilidades de gestão, ao mesmo tempo suscita uma posição mais firme diante dos fluxos culturais dominantes, especificamente o impacto dos meios de comunicação audiovisuais, que “exercem sobre a nossa sociedade, sobretudo na juventude, definindo valores, formas de pensar e agir, reforça-se a necessidade de investir na formação de adolescentes e educadores como cidadãos críticos capazes de se posicionar e intervir em sua comunidade através da criação e produção de mídias públicas alternativas e comunitárias”.

A oficina da TV Fábrica do Futuro, que produz o “Programa Geração Digitaligada”, surgiu com esta finalidade, contando com uma estrutura de estúdio no Teatro Rosário Fusco para uma platéia de 400 jovens de Cataguases e outras 15 cidades mineiras. O conteúdo do programa é exibido diariamente em 6 bairros pólos da cidade. César revela que a idéia é transformar estas ações em um Pólo de Criação e Produção Audiovisual que contemple a diversidade e atenda à demanda do setor mineiro. “A produção de conteúdo audiovisual, educativo e cultural, torna-se resposta local fundamental para sobrevivência da diversidade e promoção da liberdade cultural, expansão da democracia e o exercício da cidadania plena. A Fábrica do Futuro deseja contribuir essencialmente com esse processo, possibilitando, tanto a formulação de políticas públicas quanto na indução de novos mercados de trabalho.

Nesse sentido, sonhamos com a instalação de um Pólo de Criação e Produção do Audiovisual, atendendo, inclusive, uma demanda indicada pelo Plano Diretor do Audiovisual em Minas Gerais”, explica. Ele sugere ainda uma visão de processo na gestão de políticas públicas como estratégia de sustentabilidade, onde a idéia de incubação cultural “se aproveita das melhores experiências de incubadoras tradicionais (empresas, projetos, tecnológicas e ou cooperativas de trabalho) que, associada a um programa de gestão cultural local, trabalha e fomenta toda a cadeia criativa e produtiva de um setor específico, no nosso caso, o do audiovisual e das novas tecnologias”. Processo, aliado a idéia de tempo para uma geração, “presente e futura, onde o papel da juventude, das comunicações e das novas tecnologias, ganha uma dimensão estratégica”.

A experiência da TV Fábrica do Futuro e seu programa Geração Digitalizada reflete esta dinâmica. Trata de um canal de difusão e visibilidade de experiências sociais bem sucedidas com a juventude, em todo o país, que pode ser exibido em telas de TVs, cinemas, ruas, murros, telecentros, rádios, internet. Desde a gravação do programa piloto, exibido em junho durante o II Fórum do projeto Fábrica, César diz ter comprovado na prática “a capacidade da juventude de construir formas comunicativas inovadoras”, e acreditando neste potencial, mais uma iniciativa do Programa Cultura Viva e Fábrica do Futuro acaba de se concretizar, com o apoio do Instituto Francisca de Souza Peixoto e da Companhia  Industrial Cataguases. Trata-se de uma oficina de Cultura Digital (metareciclagem e edição de vídeo e áudio em sistema livre), “com a presença de pessoas vindas de São Paulo, Rio de Janeiros, Brasília e 12  cidades mineiras: Belo Horizonte, Congonhas, Barbacena, Itabira, Santana do Riacho, São Gonçalo do Rio das Pedras, Santa Rita do Sapucai, Paracatu, Diamantina e Januária” relatou. 

Desenvolver projetos sólidos e focados nas carências sociais exige não só experiência, mas, capacidade em lidar com as dificuldades e uma visão panorâmica dos impactos e atores que fazem parte deste universo. Para César, a chave de processos bem sucedidos e sua continuidade “está na própria comunidade, na gestão democrática de iniciativas, especialmente às de escolhas estruturais e de interesse público. Esses processos devem ser viabilizados com o compromisso de lideranças locais, de empresas, de governos e da sociedade civil, através de uma rede horizontal de cooperação que viabiliza a conectividade do local com global. O local aí pode ser seu bairro, sua cidade ou sua região. Isso leva tempo, não é linear, mas bem calibrado, corre um sério risco de dar certo”. E acrescenta a necessidade de que os projetos culturais se transformem em “processos inovadores que atinjam a escala de ações transformadoras”, capazes de promover o poder local e que gerem novas ações.

No entanto, afirma que os papéis devem ser bem definidos, tanto o governo quanto as empresas e a sociedade civil, precisam assumir ações em prol de um ambiente mais fértil. “Acreditamos que é necessário criarmos as condições para processos que sejam capazes de enfrentar os desafios do novo milênio e que, para tal, essa missão não deve ser mais de responsabilidade exclusiva de governos – é tarefa para todos os setores da sociedade. Sendo assim, precisamos estimular relações equilibradas e sinergéticas entre os setores governamentais, privados e a sociedade civil, para que se crie caminhos e práticas com um nova visão do que é público, do que é ética e do que é sustentabilidade planetária”, explica,  Não se trata de eximir as obrigações governo, mas de reorganizar as ações de cada setor  “numa nova construção política para desenvolvimento local, de longo prazo, com foco na melhoria da qualidade de vida, no crescimento econômico e na justiça social”. E alfineta: “Não estamos inventando nada! Para horror dos “tecno-culturo-cratas”, apenas temos o privilégio de compartilhar e combinar todo o aprendizado conquistado em nossas experiências sociais com a ousadia de colocar em prática várias orientações de fóruns nacionais e mundiais”. 

A crença na cultura como processo acompanha César Piva não somente em projetos geograficamente especificados, mas em fatos decisivos da Política Cultural Nacional e internacional, como o Sistema Nacional de Cultura (SNC) e a Convenção da Unesco. “Com a aprovação da Convenção, a luta agora é para que essa resolução de fato, mais de que o instrumento jurídico internacional, ganhe a força de interferência, em especial, nas resoluções da Organização Mundial do Comércio. Nesse contexto, o setor audiovisual deve se constituir o grande palco de disputas e, no que depender de muita gente do mundo sem fronteiras, uma poderosa ferramenta de expressão da diversidade cultural mundial. Nada mais oportuno do que o livro “Democracia Audiovisual” de André Martinez, que inspira o seminário de mesmo nome que será realizado em São Paulo, no MIS, no próximo dia 7 de novembro”. Quanto ao SNC, César diz perceber um grande esforço para a participação nas pré-conferências nas regionais de Belo Horizonte e em todo o estado, mas acredita “que toda essa mobilização deve ser canalizada para a criação de instâncias de decisões democráticas, com uma visão ampliada do que é público, como por exemplo, com a criação de conselhos municipais e /ou consórcios intermunicipais envolvendo governos, empresas e sociedade civil. Acredito por aí, daremos passos históricos para a concretização de um bem vindo Sistema Nacional de Cultura”, afirma. “É preciso disseminar informações, qualificar instâncias democráticas e realizar escolhas. E aí, o papel dessas instâncias criadas no processo de evolução do SNC ganha dimensão central, de construção política avançada e contemporânea”.

Maira Botelho

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