Referência quando o assunto é mercado editorial no Brasil, o site PublishNews lançou neste mês o Prêmio Jovens Talentos da Indústria da Indústria do Livro. A ideia era premiar cinco profissionais de até 35 anos que se destacassem na sua atuação dentro da cadeia produtiva do livro. Os vencedores terão acesso à Feira do Livro de Frankfurt – sendo que o primeiro colocado terá passagem, estadia e ajuda de custo no valor de 500 euros -, que acontece de 14 a 18 de outubro, na Alemanha.
Em comum, os selecionados têm a polivalência e a diversificação, ou seja, transitam em diversas áreas. “Isso hoje me parece fundamental para um jovem profissional do livro. Observa-se que todos os vencedores não se limitaram em suas atuações a uma função específica da indústria, mas transitaram entre editorial, marketing, vendas ou estratégia, por exemplo, e muitas vezes ao mesmo tempo”, explica Carlo Carrenho, fundador do PublishNews.
Foram 73 inscritos, de diversos Estados brasileiros, atuantes em 57 empresas, incluindo editoras, livrarias, universidades, além de donos de pequenas empresas e startups do mercado editorial. Uma curiosidade, segundo Carrenho, é que não houve inscrição de profissionais da área comercial. Para ele, isso pode ser reflexo das mudanças no mercado: aquele perfil de vendedor que costumávamos ver há alguns anos não atrai mais os jovens talentos.
“É sintoma de uma revolução nessa área, como a importância cada vez maior das mídias sociais”, reflete Carrenho. Esse novo profissional precisa entender e participar de todo o processo de produção do livro e entender a importância do marketing, saber como apresentar o livro para seu público.
Por outro lado, segundo o consultor de políticas públicas para o livro e leitura Felipe Lindoso, uma das mudanças no perfil dos profissionais dessa indústria nos últimos tempos é justamente a especialização e segmentação dos profissionais, principalmente nas editoras maiores. “Há mais editores especializados em segmentos, como nas áreas de marketing e comunicação. E também na produção, principalmente dos livros eletrônicos, que se torna cada vez mais complexa e urgente”, explica.
Para ele, a maioria das editoras continua sem entender a importância de metadados e seu papel na difusão dos títulos, por exemplo. “As editoras, em grande medida, desprezam os investimentos nessa área, considerando-os como despesas, e não como inversões fundamentais”, afirma. Isso acontece em toda a cadeia, mas é mais evidente no varejo, segundo Lindoso. “Os sites, praticamente sem exceção, são muito ruins. Neles, só se acha o que se sabe que existe. O conceito de printing on demand não entrou e as questões de logísticas continuam sendo tratadas da forma mais tradicional, e esse é um gargalo sério.”
Mesmo as pequenas editoras, que tradicionalmente têm uma atitude mais corajosa no lançamento de novos autores e o desenvolvimento de tendências, para Lindoso, no campo da inovação tecnológica, continuam tão defasadas quanto as grandes. “Infelizmente os editores brasileiros continuam muito avessos às inovações tecnológicas, inclusive nas que dizem respeito à organização de seu processo editorial. Poucos sabem recolher, analisar e usar dados – de todos os tipos – e continuam em uma posição extremamente passiva no que diz respeito ao desenvolvimento do mercado.”
Digital – O universo digital é uma das coisas fundamentais que as editoras precisam implementar, segundo Camila Cabete. Gerente de relações editoriais da Kobo no Brasil e sócia da Zo Editorial, consultoria para autores e editoras com foco no digital, ela concorda que, ao longo de toda a história desse mercado, inovou-se muito pouco ou nada, se comparado com outras áreas. Para ela, é preciso que esse mercado se movimente e estreite laços com o pessoal de TI e desenvolvimento.
“O Brasil não tem se desenvolvido com a velocidade necessária nessa área. Hoje na Kobo temos mais quatro milhões de títulos, sendo somente 30 mil em português brasileiro. Os números mostram o quanto estamos atrás”, diz Camila. Ela atribui isso a uma visão míope das equipes de marketing e editorial, que ainda veem o digital e novos produtos como uma forma de canibalizar o papel. “Essa visão foi derrubada há anos pelo próprio [Philip] Kotler, quando diz que se o produto vai ser canibalizado, que seja por você mesmo. Hoje o leitor escolher o que ler e em que formato. O editor não dita e impõe nada.”
Lindoso acredita que as editoras que foram adquiridas por grupos estrangeiros estão mais avançadas nesse sentido. “A conglomerização é, em primeiro lugar, fenômeno inerente ao capitalismo. Inevitável. Isso tem vantagens e desvantagens: mais volume e presença no mercado pode ajudar inclusive no desenvolvimento tecnológico. Por outro lado, em alguns casos, pode ‘mamutizar’ as empresas”. Ou seja: algumas crescem, mas não acontece uma mudança de qualidade na atuação, e isso pode levar à extinção; ou pelo contrário, podem aproveitar dessas vantagens e absorver a experiência internacional.
O fortalecimento de grandes jogadores, principalmente no varejo, pode acelerar a inovação. “A Amazon, com todos seus problemas, desempenhou esse papel nos EUA, junto com a Ingram e seu Lightning Source. O duro é controlar a tendência monopolista inerente a isso”, alerta o especialista.
Tesouro escondido? – Com um alto índice de natalidade de editoras no Brasil, é preciso cuidar para que a mortalidade também não seja elevada. “A renovação dos jogadores é muito ampla e constante, embora fluida”, diz Lindoso, alertando que, de maneira geral, a atualização técnica dos profissionais é muito irregular, e as instituições existentes – Escola do Livro, Universidade do Livro e similares – continuam, em grande medida, fazendo mais do mesmo.
Para Camila, um bom profissional hoje é aquele sem preconceitos, aberto a mudanças e altamente adaptável. “Ficamos muito atrás dos profissionais de tecnologia em relação à inovação. Temos que correr atrás de uns 500 anos de atraso.”
A partir das inscrições do prêmio do Publishnews, Carlo Carrenho acredita que ainda há muitos talentos a serem descobertos. “Pelo menos 30 inscritos poderiam ganhar. Foi uma grata surpresa. Recebemos coisas sobre as quais eu nunca tinha ouvido falar, alguns trabalhos que eu desconhecia, editoras de fora do eixo Rio-São Paulo. Temos uma mina de ouro.”