Uma nova cultura de resistência? - Cultura e Mercado

Uma nova cultura de resistência?

?Deixar de considerar prioritário o investimento público em cultura é pavimentar o caminho para a barbárie. […] Desorganização social é, em si, problema cultural?Recentemente, em reunião do Conselho da Fundação Padre Anchieta, entidade mantenedora da TV Cultura de São Paulo, foi anunciado que havia risco dessa emissora sair do ar, em virtude do contingenciamento das verbas para sua manutenção previstas no orçamento do Estado de São Paulo. Esta pode ser apenas mais um dentre inúmeras conseqüências de cortes ou reduções de recursos públicos destinados a finalidade cultural. Os motivos, sabemos quais são. Carências dramáticas requerem medidas urgentes. A crise da segurança pública obriga a destinar verbas para essa área. O crescimento econômico foi menor que o previsto já em 2001. Aumentou o desemprego. Pagamentos de dívidas comprometem orçamentos municipais, estaduais e o federal.

No entanto, o argumento de que a redução de dotações de recursos para a cultura é inevitável, para que se possa atender prioridades sociais e de segurança pública, é falacioso. Assemelha-se àquele enunciado da época do ?milagre econômico? do início dos anos 70, quando se registrava um crescimento do nosso PIB a taxas superiores a 7% ao ano. Dizia-se então ser necessário, primeiro, que a economia crescesse, para então distribuir melhor a renda. A afirmação contrária teria sido mais correta, pois a melhora da distribuição de renda é condição prévia para o crescimento, fundado em um desenvolvimento econômico estável e consistente.

Por razões semelhantes, não podemos aceitar o argumento de que a cultura deve ficar para depois. Esse ?depois? acaba postergado até os confins da eternidade, às margens do nunca. Deixar de considerar prioritário o investimento público em cultura é pavimentar o caminho para a barbárie. Entender que a redução da miséria deve preceder o desenvolvimento cultural é um duplo erro. Abandonam-se instrumentos para resolver graves questões sociais, esquecendo que o investimento em cultura é economicamente produtivo. Social, em primeira instância, é aquilo que produz ocupação remunerada.

E já foi demonstrado que cada real aplicado em atividades e projetos de natureza cultural pode gerar muito mais empregos, proporcionalmente, do que, por exemplo, aquele dirigido ao desenvolvimento industrial. Além disso, desorganização social é, em si, problema cultural. Sua correção ou solução passa pela criação de melhores condições de acesso da população à informação e à transmissão do conhecimento.


Claudio Willer, poeta e escritor, é presidente da União Brasileira de Escritores.

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Claudio Willer

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