Conhecimento versus informação - Cultura e Mercado

Conhecimento versus informação

Na mesma semana em que se realiza a Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação em Tunis, Marcos André Carvalho Lins analisa as repercussões dos conceitos de “sociedades de conhecimento” e “sociedades de informação”.

Conhecer é dominar os meios éticos e eficazes para se alcançar determinado fim. Assim, as sociedades do conhecimento são aquelas que melhor se inserem no mundo, como entes engajados, e preocupados com o destino dos indivíduos que as compõem. Para elas, o bem-estar de cada um dos seus membros faz parte do fim último, qual seja, o bem-estar global.

As sociedades de informação são hábeis na condução dos negócios privados mas perdem-se no campo da coisa pública. A res pública tem para estas sociedades o estigma da formação rochosa, que embora lá e sempre lá, apenas serve-lhe de entrave.

Melhor colocando a questão, as informações encontram-se desvinculadas de valores ou finalidades em si mesmas. Tanto servem a este ou àquele interesse. Trata-se de bem extremamente volátil e adversário voraz da burocracia. 

Pensemos, então, a repercussão de ambas as visões. Na sociedade de conhecimento temos como matriz ou incubadora a educação, o princípio mesmo do conhecimento é preparar o cidadão, em toda a sua humanidade, para discernir e impor valoração ao tiroteio de informações dos quais todos são vítimas. Dentro do atual contexto mundial, podemos dizer que a sociedade de informação visa armar os seus associados enquanto as sociedades de conhecimento buscam justamente o oposto: transformar “quimicamente” o tecido social através da utilização dos elementos derivados de um necessário desarmamento. Não extinguir a natural disseminação de informações mas humanizá-las, torná-las tão próximas e acessíveis de todos os componentes do todo social que dificulte, ou até impeça, a sua manipulação com fins espúrios ou egoístas.

O que significa, em última instância, identificar o conceito ou produto com sua utilidade empírica e social. Relacionando a prática à determinada idéia ( vice-versa ) e coadunando estas com o intuito de bem gerir o patrimônio físico e cultural de um povo. 

Não vinculemos, entretanto, a idéia de uma ou outra sociedade dentro de uma perspectiva extremista ou maniqueísta. A própria gênese das sociedades de conhecimento depende em grande parte da pré-existência de informações. Em verdade, as duas realidades convivem paralelamente. Conceber uma sem a outra, seria formular hipóteses e não constatações. Engendrar utopias no lugar de sonhos passíveis de concretização a longo prazo. O que se almeja é uma sociedade onde predomine o fator cognitivo, mas nunca deixando-se de atribuir significado e importância às mídias como fontes de conhecimento. Nem mesmo abandonando-se esses mecanismos à sua própria sorte.

Enquanto sociedades de informação procuram aperfeiçoar os veículos de divulgação e a acuidade da própria informação, a sociedade do conhecimento preocupa-se com o público alvo. Com a maneira, há um só tempo, mais útil, articulada e solidária destes lidarem com a informação.

Por outro lado, as sociedades de conhecimento tendem, e apenas tendem, a represar a vazão de informações construindo diques de regulamentos e normas cujo teor pode ser interpretado (o que ocorre de fato) como censura ou negação do livre arbítrio. Isto acontece por dois motivos polêmicos. Primeiro, por não se acreditar numa capacidade de discernimento das massas. Segundo, justamente por  ser o próprio conceito do que é ético, ou não, algo por demais subjetivo e distinto de cultura para cultura.

Há, portanto, de se cultivar a educação em se desejando alcançar uma sociedade respaldada no conhecimento no lugar da informação. Não obstante, é mister confiar naqueles parâmetros que são lecionados. Do contrário, tolhe-se qualquer perspectiva de se enveredar além dos limites de uma cultura de massa em direção à construção de uma cultura cidadã e responsável.

Quanto às particulares abordagens do que é ético, há de se implantar tribunais, por intermédio de uma educação voltada também para o auto-conhecimento, dentro da seara íntima de cada cidadão. Ou seja, apontar os nortes e permitir aos seres humanos construírem as bússolas.

Marcos André Carvalho Lins é bacharel em direito formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE ), ocupando atualmente o cargo de técnico judiciário do TRT-6a região, sendo também escritor diletante. Endereço eletrônico para contato: carvalholins@aol.com.   

 

Marcos André Carvalho Lins

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