Cultura hoje - Cultura e Mercado

Cultura hoje

“Todos os indícios levam-nos a crer num eterno descompasso entre os avanços e os retrocessos, nas práticas e nas intermediações culturais, respectivamente.”

Por que pensar cultura?

A cultura, o mercado cultural propriamente dito, tornou-se a chave, a coluna vertebral, o sustentáculo do sistema capitalista e desenvolvimentista do nosso século e promete tornar-se ainda mais central nas décadas vindouras.

Se recorrermos à história, vamos observar um grande vazio ideológico deixado com a queda do muro que separava ocidente e oriente, as vigas que mantinham intactas o denominado modo de produção socialista. Um pouco antes, mas quase que paralelamente, assistimos ao nascer dos códigos e aparelhos eletrônicos que mais tarde fluiriam naturalmente para um novo espaço criativo cujo nome vem, não por acaso, do vocábulo “net”, gerando o seu derivativo internet, uma espécie de rede em todos os sentidos. Rede de comunicação, de troca de idéias, de pesquisa e armazenamento. Se ontem muitos não viviam sem televisão, hoje estes mesmos passaram a ter o micro como referencial e assistente de tarefas que vão desde a mais simples composição de um texto até as complicadas e sofisticadas trocas virtuais.

Com a projeção do espectro sensorial e mnemônico do âmbito meramente humano, para o campo do virtuosismo e da infinitude de recursos, é mister resolver, dentro desse novo contexto, o que exatamente a cultura, enquanto mercado de bens simbólicos e enquanto fator de valoração do humano, realiza ou colabora no sentido de compreensão do novo homem, antenado e compenetrado, um homem ao qual não se pode mais fazer concessões, ao qual não se pode mais delir.

Num primeiro momento, presencia-se a queda do capital, dos latifúndios, e das mercadorias assim como os conhecemos. O mundo respira mais seccionado em todos os aspectos. Porém, mais uno se levarmos em consideração a derrocada cambiante dos direitos autorais, como primeiro passo na direção da demolição do conceito de propriedade intelectual. Autores compreendem que se passou de um estágio comunal para um processo histórico justamente a partir do fenômeno da propriedade. Assim podemos dizer que o meio virtual “socializou”, até certo ponto, o acesso a determinado status cultural, pois quem possui as ferramentas certas é dono de um acervo incomensurável de informação e conhecimento. Chegando até mesmo a interagir com todo o seu domínio.

Por outro lado, em oposição à maré cultural facilitadora, ou talvez, em razão dela, surge uma busca dentro do mercado cultural, pela autenticidade e pela inovação como jamais vista. Uma procura incessante, que se coaduna com o individualismo tão difundido em territórios ocidentais capitalistas. Aparecem as chamadas indústrias criativas que perseguem os benefícios passíveis de serem extraídos daquilo que não tem dono, ou melhor, que possui milhares de donos e consumidores num só tempo.

Dentro dos parâmetros de uma sociedade da informação e à medida que esta alcança seu ponto de ruptura, rumo a uma sociedade do conhecimento, a cultura deflagra uma tese recorrente: a sujeição do cérebro (um monomotor, digamos) a uma amplitude de conteúdos infinitesimal (um ônibus espacial). Adequar o meio social às necessidades intrínsecas à nova realidade cibernética ou virtual, como se queira, tornou-se o grande desafio da cultura e seus atores para esta década. Nesse plano, vale questionar: quais as pontes éticas entre o fato e o seu derivativo virtual? Que elementos nos levam a suspeitar da informação? Existem, ou existirão, fatos meramente virtuais?

Todos os indícios levam-nos a crer num eterno descompasso entre os avanços e os retrocessos, nas práticas e nas intermediações culturais, respectivamente. Enquanto as primeiras evoluem a passos de tartaruga, as segundas desprendem-se ladeira abaixo sem qualquer óbice que lhes imponha uma desaceleração gradual. A gravidade, assim como despertou a curiosidade de Newton, parece corroborar o velho ditado, cujo teor encontra-se mais próximo de um presságio: “o futuro a Deus pertence” (ou deuses).

A cada dia que passa, a cultura parece mais beirar um destino ignorado e ignorante. Sem prumo, parece perderem-se os significados em mentes insignificantes.

Apenas um detalhe: não se pode mais voltar atrás. A história agora não é mais escrita pelos vencedores, mas por todos, numa forma de colaboração indelével e perene. A nova formatação do mundo permite que todos sejam latifundiários assim como é permissiva a que países de terceiro mundo desenvolvam ogivas atômicas. Pouco importa, entretanto, o cenário de guerra que se instaura em dimensões tangíveis, mais perigosas são as insurreições subcutâneas, as ondas, e saliências capilares que forjam todos os dias, milhares de desafetos sistêmicos. Aqueles para os quais não interessa se o mundo vai acabar hoje ou amanhã, para os quais o futuro pode ser definido em minutos numa tela multidimensional, aqueles que padecem da síndrome do “deixa (a cultura) pra lá”. Eles vieram ao mundo para aperfeiçoá-lo, mas apenas até alcançarem a última fase e “the game over”.

Marcos André Carvalho Lins

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