Cultura pede articulação - Cultura e Mercado

Cultura pede articulação

Para Carvalho Lins, o episódio da OMB aponta a ausência de uma população que se faça ouvir

Cultura pede articulação. Sem dúvida. A cultura nasce das relações humanas e constitui meta fundamental de um Estado de direito que se preze.

Mas o que se entende exatamente por articulação? Articulação assim como nos é trazida de cima pra baixo, ou melhor, imposta de cima pra baixo, implica jogo político, manhoso, mas significa também concessões e exigências. Eu concedo ao Estado o direito de legislar sobre cultura, mas exijo o direito de expressar a minha versão singular sem censuras, sem constrangimentos e principalmente com todo o espaço e os instrumentos necessários para exercer livremente este meu predicado, qual seja , o dom artístico.

O Brasil é um país musical!

Como é possível em pleno “auge da democracia”, alguém ser impedido de exercer sua musicalidade ?

Criticar uma entidade que deveria representar a classe musical depõe contra um músico a ponto deste ter cassada a autorização para exercer o que de melhor sabe fazer, preencher nossas lacunas cotidianas com música de qualidade ?

Meu Deus, o direito de expressão é garantia constitucional!

O fato de uma das partes se sentir ofendida é caso para o poder judiciário dirimir, não respalda, de modo algum, uma ação discricionária desse porte.

O incidente que ocorreu entre a OMB e o musicista é emblemático.

O fato é que a cultura, relegada a último plano nas iniciativas do Estado, padece do desmantelo proveniente ainda de duas ausências. Ausência não apenas do ente estatal, mas uma inexistência, ou uma existência nula, de uma população que proteste e se faça ouvir.

A mentalidade popular criou lendas urbanas sobre seus próprios limites. Pensa-se: o único meio para se mexer com o poder, no estado de direito, é o voto; a música que toca na rádio ou na tv é a melhor música; o artista escolheu essa profissão, ele que se vire; eu tenho que aprender matemática e física para passar no vestibular, o resto eu decoro; todo artista é cabeça oca ou intelectual demais. E por aí vai. E isso , não se enganem, carrega resquícios não só de uma abertura democrática que, de fato, ainda não se concretizou completamente como também de um espírito de lassidão intrínseco aos povos que ainda não se conquistaram. Nações que vivem ainda num eterno clima derrotista, onde o patriotismo é torcer pelo time não fazer parte do time!

Somos uma equipe. A cultura é o coração dessa equipe, a bem dizer, é o técnico, ou ao menos deveria ocupar tal posição.

O mundo globalizado não pode nos subtrair o prazer de uma boa música, de uma boa literatura, não apenas traduzidas na nossa língua, mas que carreguem o nosso sotaque.

O que parece é que gastamos toda nossa munição tentando vencer o regime de exceção. Conseguimos, porém, criamos outro, ainda mais perigoso, um regime de apatia e anemia generalizada. Brasileiros não se arriscam mais além do carnaval. A música, diga-se de passagem , que toca no carnaval é a mesma que toca o ano todo. Não se contesta mais com receio de ser mal interpretado e ficar estigmatizado. O que se lê nos “ orkuts” da vida está muito aquém do mínimo necessário à formação cultural de um país.

Simplesmente, embora há trinta anos fôssemos uma aldeia e hoje mais de cento e noventa milhões de seres planetários, não crescemos juntamente com nosso PIB. Essa atual geração parece ter pego o bonde andando e não se interessa em saber de onde ele veio, tão-somente imagina saber o destino para o qual os levará. Um destino incerto e desastroso se continuarmos fechando os olhos para episódios lamentáveis como este do musicista.    

Marcos André Carvalho Lins

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