Na dialética da interação cultural, ganham aqueles que descobrem no outro a razão de ser de si mesmos
Constituir uma entidade cultural passa longe de ser tarefa fácil. Em primeiro lugar, por conta dos trâmites burocráticos a que estão sujeitos quaisquer tipos de organização, tenha ela fins lucrativos, sociais ou meramente filantrópicos. Em segundo plano, mas par a par com o primeiro, está a questão financeira. Todavia, precisa-se questionar exatamente o que é uma entidade cultural. Alguns ainda pensam tratar-se de algo extra-terreno, que só existe e sobrevive sob os auspícios dos recursos governamentais e que tem vida útil( ou inútil ) curta e efêmera. Sugerimos aqui um conceito mais amplo de entidade cultural. Partindo do pressuposto de que cultura é tudo aquilo pensado e realizado, não apenas de cunho artístico, mas em todos os matizes do gênio humano.
Posta desta forma, a entidade cultural ganha vida, podendo, até mesmo, tornar-se comparável a uma projeção, em termos concretos ou abstratos, de todo universo humano perceptível pelos sentidos. Temos daí outra conseqüência importante: toda unidade que possua uma gestão, uma organização estrutural e uma finalidade pode ser denominada entidade cultural.
Mas qual o intuito de tal classificação?
É imperiosa tal definição para concluirmos que assim como a sociedade é uma entidade cultural que comporta outros milhares de núcleos culturais, também a empresa, privada ou estatal, é uma unidade cultural dentro de um todo maior. E além: concebendo a sociedade como elemento cultural padrão, todas as demais formas de organização lhe são submissas , por adotarem parâmetros semelhantes, de um lado, e por estarem nela contidas, por outro. O paradoxo cultural é pois ajustar e equacionar o inteiro e as partes num só tempo. Enquanto esforçam-se os segmentos para participarem, o todo esboça a mesma ação para obter suas participações. Como um todo social é composto de inúmeros compartimentos culturais, é mister que ambos olhem na mesma direção e que suas teleologias sejam compatíveis.
A nível alegórico, podemos analisar um pequeno nicho cultural: um condomínio. Num condomínio habitacional coexistem diversos planos de interesses. Primeiro: o interesse de cada residente, ou seja, o detentor de uma cota-parte ideal do conjunto. Segundo: o interesse da “ empresa” ou “empreendimento”. Terceiro: o interesse dos serventuários do edifício. Quarto: o interesse dos usuários que ocupam um espaço sob a tutela condominial.
Podemos dizer que os interesses em questão encontram-se sob a gestão de um síndico e de um conselho, sob organização de um regulamento próprio, e com a finalidade última de conservação do bem condominial. Ora, como toda entidade cultural, os meios para se atingir a finalidade são vários e conflitantes entre si. O ponto de partida, entretanto, é cotejar este tipo de organização com o padrão. Observamos que cada residente possui por si mesmo uma visão “empresarial” peculiar, isto é , uma cosmovisão singular das coisas e, particularmente, em relação ao ente condominial. Admitamos que todos os residentes sejam também condôminos, não haja locatários ou unidades desocupadas, nesse caso, todos os interesses convergem na mesma direção. Não obstante, os caminhos são necessariamente divergentes! Se uma parte dos condôminos prefere pintar a fachada , um outro percentual pretende melhorar o hall de entrada. E assim por diante.
Em não havendo consenso, há de se submeter o impasse ao crivo da maioria. Até aqui tratamos de uma relevante percepção de marketing, isto é, como melhorar a imagem do imóvel. Eis a questão crucial e essencial em qualquer entidade cultural. A preocupação maior, e primária, encontra-se sempre no prazer sensorial que este possa proporcionar aos usuários, no caso específico, os moradores e visitantes. Quanto melhor a impressão que eu passar do meu imóvel, maior seria meu “lucro” enquanto usuário, entre outros aspectos isso indicaria uma melhor acolhida dos meus.
Mas existem aqueles que defendem um auxílio-creche para os funcionários.
Chegamos ao ponto central: uma perspectiva mais global e sistêmica. Acima de qualquer entidade cultural existe um núcleo cultural maior. Não há condomínios sem trabalhadores ( porteiros, garagistas, etc.) e sem outras entidades culturais que lhe supram as necessidades, como por exemplo, luz, gás, água etc. Em poucas palavras, nenhuma entidade cultural é uma ilha.
Cada célula cultural é, mais ou menos, como uma célula-tronco. À medida que a expomos a determinado ambiente adequado, ela multiplica-se de acordo com as mutações necessárias à sobrevivência daquele organismo. Ou seja, cada serventuário que se relaciona com meu empreendimento, propicia um acréscimo a minha qualidade de vida, pois tudo está intimamente conectado.
O que acontece hoje numa pequena unidade cultural, repercute num futuro que pode não estar tão distante assim. A grande falha de entidades culturais importantes circunstancialmente é não terem a noção exata de seu caráter meramente circunstancial. O meios de que se servem as suas finalidades, mais do que a própria escolha das finalidades, impõem riscos a curto, médio e longo prazo. Porém, quanto mais distantes encontram-se os riscos, menos eles são mensurados e levados em consideração. O impacto de determinado empreendimento frente às demais entidades culturais com as quais ele mantém alguma forma de vínculo ( por mínimo que seja ) pode vir a se manifestar completamente apenas depois de décadas.
Não se pretende um planejamento a longo prazo simplesmente porque lidar com probabilidades não é compatível com uma atitude capitalista arrojada, ao mesmo tempo em que a inércia do capital impede este de se antecipar à cura da doença, importando tão-somente medicar os sintomas quando eles se colocam como óbices às suas finalidades.
O princípio contábil que objetiva dissociar a personalidade da pessoa jurídica ( assim como muitos outros princípios diretivos) da pessoa dos sócios não deve ser levada tão ao pé da letra além da área financeira. No “escambo” cultural entre unidades, no mesmo patamar ou hierarquizadas, a individualidade do sócio pode ser atingida de modo significativo não apenas com a sinalização de uma queda de receita mas também com um excesso de lucro. Isto porque, dentro desse espaço, nem sempre ganhar implica distribuir renda. Não raro, ocorre justamente o oposto. Com uma concentração de poder aquisitivo, abre-se campo para a marginalização de unidades culturais e um progressivo aumento da violência. Que passa a ser sentida no cotidiano do empresário, o qual aciona o Estado por mais segurança e que, por sua vez, não vê outra saída além de aumentar a carga tributária ( sobre as classes com menor poder de barganha, diga-se de passagem).
Essa interação entre os diversos nichos culturais organizados passa sem dúvida por uma questão de aparência, porque o mundo capitalista parece girar em torno do agora e já. Contudo, melhorar o lucro real da minha empresa significa melhorar plenamente o aspecto saudável do meu mercado, o que implica um relacionamento mais próximo entre o eu, empresário, e o nós, serventuários e usuários. Não se pode deixar de levar em conta que os papéis estão constantemente sendo trocados. Se num momento eu sou patrão, no outro, posso ser subordinado, e vice-versa.
Essa conexão tão sutil e , ao mesmo tempo, tão impactante, entre as entidades culturais estabelecidas, justifica e, até torna imprescindível, a atuação múltipla de uma unidade cultural dentro do núcleo cultural maior, do qual faz parte e com o qual se relaciona.
A omissão, atualmente utilizada como moeda de troca entre um seleto grupo e seus usuários e serventuários, torna-se, a cada dia que passa, mais obsoleta. É mister que dentro da finalidade lucrativa inclua-se um caleidoscópio de possibilidades. Entre elas práticas que visem menos o espectro individual e mais o coletivo. Um empreendimento cultural que se depara com determinada dificuldade, sem dúvida, relaciona-se com outros em igual situação. De modo que, a falência de um único órgão pode ser o fim de todo um organismo vivo.
Apenas concluindo, podemos observar que um aparelho estatal corrupto traz, em si mesmo, o germe da corrupção do setor privado, e o contrário é verdadeiro. Na dialética da interação cultural ganham não apenas os “bons-mocinhos”, mas aqueles que descobrem no outro a razão de ser de si mesmos.
Marcos André Carvalho Lins