Um novo cenário cultural começa a se desenhar no Brasil, onde a criatividade é chave para a troca da cultura submissa e irresponsável por um engajamento lateral
Uma das formas mais expressiva, digamos, de defesa da cidadania é o voto consciente. O voto não deveria, entretanto, esgotar a participação democrática do citadino na polis da qual faz parte. Há uma veia cultural brasileira nesse sentido: pensa-se o voto como semente embrionária do amanhã. Ocorre que a nossa experiência aponta para uma fragilidade e desgaste progressivo dessa formulação.
Sim. Há uma conscientização gradual e uma politização crescente da população.
Não. Não se trata de uma melhora de poder de barganha do trabalhador, nem reflete uma distribuição mais equânime de conteúdos e de informação.
Muito embora os dados oficiais demonstrem por A mais B uma interferência cada vez mais significativa da educação formal na vida do cidadão. Inclusive com adoção de ações como a bolsa-escola. Não. Ainda não é por aí.
Pensamos ser o brasileiro um forte, e como tal, resistente e inteligente. Há, na realidade, uma transformação importante, de mentalidade e de alcance, na legitimidade cultural brasileira.
O quê isso significa?
Os nossos patrícios estão, aos poucos, se desvencilhando de uma cultura caracterizada pela submissão, pela irresponsabilidade e pela condução passiva, para um engajamento lateral. Se as portas estão fechadas, fazemos uso das janelas. Ou seja, não se almeja mais a dentadura em troca do voto certo, nem as promessas como resposta ao descaso estatal. Já se verificou, na prática, que a coisa não funciona por aí, na base do toma lá dá cá. O brasileiro está migrando para expedientes mais intuitivos: utilizando o maior legado do seu singular processo civilizador, a criatividade.
Nesse novo cenário cultural , contudo, há o peso inexorável de uma classe média cada vez mais indignada e que teme o caos na segurança, que não vê outra maneira de se defender a não ser o voto.
O voto, então, se torna paradigma de uma negociação branca entre os diversos segmentos da sociedade. O ponto central do novo “contrato social” é a segurança, em todas as suas acepções: segurança no ir e vir, segurança alimentar, segurança nos resultados de seu labor, etc. Estar seguro, para o novo panorama cultural brasileiro, significa poder ir ao cinema, comer pipoca e tornar a casa sem surpresas desagradáveis.
O que questionamos, e pensamos ser passível de uma resposta, são os alicerces dessa nova roupagem que implica estar seguro.
Num tempo em que o MINC e o MEC parecem novamente se terem amalgamado e constituírem um todo articulado. Num tempo em que, mais uma vez, as saídas laterais passaram a ter o cuidado merecido. Num tempo como esse, é ultrajante assistir ao esquecimento daqueles que povoam os sinais de trânsito, os viadutos e os morros.
Forjam-se os chamados cidadãos de segunda classe que nada podem fazer a não ser pressionar a entrada pela porta principal. No que se encontram eivados pela razão, pois não se pode pactuar meios-termos ou passagens laterais quando não se tem o mínimo para sobreviver.
Nesse mister, a cultura, enquanto ponte entre o cidadão e o cosmos político, isto é, como maneira de veicular para a multidão os seus próprios limites e contradições, não é um joão-ninguém. Ela atua como um corredor lateral importante e se coaduna com o esforço de um país melhor.
Se a tendência atual é buscar caminhos alternativos, é na, e pela cultura que esses caminhos amorfos ganham estética definitiva e produzem transformações conjunturais.
Levando cultura aos mais diversos rincões de exclusão social, se estar privilegiando a mudança pela não violência ativa, e também, colaborando com a segurança alimentar da alma. Alma aqui não se refere a abstrações ou licenças poéticas apenas, mas a uma totalidade indivisível auto-proclamada nação.
A cultura está longe de ser um zero à esquerda dentro do jogo numérico do capitalismo. Ela , em verdade, traduz uma modalidade de luta silenciosa, lateral, subestimada, mas com a potência semelhante a um núcleo atômico quando magneticamente manipulado.
Sem dúvida, há uma noção de cultura ao bel-prazer das classes dominantes, porém essas mesmas classes estão cada vez mais atrasadas perante os avanços positivos das demais esferas de cidadania. A sua malícia e seus arranjos vis de dominação não mais assustam, o poder econômico já não pode mais ocupar solitário o posto de guardião da porta. Simplesmente porque não há mais uma porta, esta se converteu em várias e difusas janelas.
A lateralidade dos fazedores de cultura já não é tão certa. Pois já não se tem certeza do que é porta e do que é janela.
Marcos André Carvalho Lins