“Considerar como recursos trazidos pela empresa apenas os valores dedutíveis e os recursos próprios investidos por ela diretamente no meio cultural equivale a não perceber que, muitas vezes, as maiores contribuições trazidas pela empresa a esse mercado são justamente recursos “indiretos” disponibilizados para ações culturais patrocinadas.”
As análises do impacto econômico da entrada da empresa no cenário cultural geralmente se concentram no cálculo dos recursos dedutíveis e próprios investidos diretamente nas atividades culturais. Desconsideram-se, nas contas dessas análises, os principais recursos trazidos pela empresa à esfera cultural: as estruturas montadas para conceber estratégias, dar suporte e viabilizar as ações culturais às quais associa sua marca, assim como os valores indiretamente disponibilizados para sua realização. São recursos canalizados para iniciativas que ampliam não só a qualidade com que essas ações são realizadas, mas, principalmente, seu alcance e resultados para a coletividade.
Se considerarmos os montantes investidos pela empresa diretamente nos salários – e devidos encargos e benefícios – dos profissionais que compõem seu quadro de empregados que dedicam todo seu tempo, assim como no salário dos que dedicam parte de seu tempo às atividades culturais realizadas por seu intermédio, e somarmos a essa conta todos os gastos da empresa diretamente na realização dessas, perceberemos que a empresa investe grandes somas na manutenção da estrutura colocada a serviço da cultura.
Para se ter uma idéia desses valores, basta listar alguns itens necessários à execução das atividades culturais empresariais, muitos dos quais multiplicados pelo volume e freqüência dessas ações e pelo número de profissionais a ela dedicados. É necessário considerar os gastos com os escritórios e com os demais espaços físicos ocupados, o que inclui despesas tais como aluguel, água, energia elétrica, telefonia fixa e celular, correio e materiais de escritório; funções administrativas, manutenção e limpeza; equipamentos alugados e adquiridos; gastos relacionados à computação, conexão e transmissão de dados; utilização de veículos da própria frota, transporte aéreo e terrestre, hospedagem e alimentação.
Da mesma forma, é preciso computar nessa conta os recursos “invisíveis” que custeiam as estruturas materiais e humanas, próprias e terceirizadas, dedicadas à realização das ações culturais da empresa. Devem ser considerados os meios de comunicação próprios ou mídias compradas e disponibilizadas para amplificar a parceria, especialmente aqueles meios através dos quais a empresa se comunica com seus clientes, tais como seu site na Internet, contas e extratos mensais, comunicações via celular e outros meios eletrônicos. Da mesma forma, é importante computar os gastos com as empresas de prestação de serviços ligadas à sua operação comercial disponibilizadas para a cultura, como agências de publicidade, de criação, manutenção e atualização de suas comunicações via internet, assessoria de imprensa, clipping, promoções, produção de eventos, marketing direto. Soma-se a essa lista a mão-de-obra terceirizada pela empresa, necessária à execução das atividades culturais dentro de padrões estabelecidos para ações que levam sua marca, como promotores, divulgadores, recepcionistas, dentre muitos outros.
Vale observar que a empresa patrocinadora, além de custear o trabalho das empresas terceirizadas mencionadas, é fundamental no processo de fazer com que estas coloquem seu trabalho e estruturas a serviço do mercado cultural. Muitas delas têm exigências com relação ao valor das contas que atendem, tornando difícil para os que atuam no mercado cultural contar com trabalhos de tal qualidade, sem a interferência da empresa patrocinadora.
A própria estrutura de negócios da empresa – seu Call Center, sua rede de lojas, atendentes, seus profissionais de Marketing e Vendas – também é colocada a serviço dos projetos patrocinados, gerando ampliação do impacto desses, trazendo para os artistas uma dimensão e qualidade, muitas vezes, impensáveis sem a parceria com a empresa.
É claro que, quanto maior o volume de recursos próprios repassados pela empresa diretamente para atividades culturais, mais dinheiro “novo” está sendo injetado no mercado cultural. Porém, é muito significativo também o que é trazido além de dinheiro, digamos, em papel. Uma série de recursos não-financeiros é disponibilizada pela empresa, garantindo a qualidade do processo de gerenciamento dos projetos patrocinados e, mesmo, dos recursos – inclusive públicos – neles envolvidos.
A colocação do seu corpo gerencial, de seus profissionais e de suas estruturas comerciais a serviço da realização ou mesmo do acompanhamento das atividades culturais que recebem recursos das empresas é algo de muito valor. E, considerando a relevância das ações, estamos falando da empresa gerenciando recursos públicos que, somados aos seus recursos próprios – em espécie, serviços ou utilizando suas estruturas humanas e materiais – estão a serviço do interesse público.
Considerar como recursos trazidos pela empresa apenas os valores dedutíveis e os recursos próprios investidos por ela diretamente no meio cultural equivale a não perceber que, muitas vezes, as maiores contribuições trazidas pela empresa a esse mercado são justamente recursos “indiretos” disponibilizados para ações culturais patrocinadas. Como, por exemplo, o planejamento, o gerenciamento, o pensamento estratégico voltado para resultados concretos, linguagens próprias do dia-a-dia dos profissionais pertencentes aos quadros da empresa. Pontos que têm mais impacto no resultado do trabalho cultural desenvolvido do que uma proporção equilibrada entre recursos próprios e recursos dedutíveis investidos pela empresa, comparação freqüentemente trazida à tona quando se analisa o relacionamento econômico entre empresa e cultura.
Comparações como essas são motivadas, presume-se, pelo entendimento de que o uso de um maior volume de recursos dedutíveis tornaria menos relevantes as ações culturais da empresa, já que ela estaria utilizando mais recursos “públicos” do que próprios. Como falado anteriormente, a exigência de que a empresa invista recursos próprios, a título de contrapartida, é saudável por trazer novos recursos para o meio cultural e por gerar um processo educativo de envolvimento de suas diversas áreas no investimento em ações culturais. Mas, além de não considerar todas as moedas canalizadas pela empresa, percebê-la apenas como financiadora é, no mínimo, não entender todo seu potencial a serviço da realização de ações culturais. Isso gera distorções, como o equivocado entendimento de que é, por princípio, melhor investidora em cultura a empresa que repassa aos projetos, diretamente, uma proporção maior de recursos próprios do que recursos dedutíveis, independentemente de uma análise do envolvimento global da corporação patrocinadora, do destino dado à soma investida e dos resultados gerados.
Marcos Barreto Corrêa