Foto: Leonardo Brant
O que faz o artista hoje para se manter vivo, independente, alerta, cidadão? Como lidar com o avanço do capitalismo, a consequente ocupação do espaço imaginário por conglomerados globais, o Estado diminuto, as identidades fragmentadas e as ideologias desgastadas?

Tomo emprestado a frase de Nestor Garcia Canclini para propor uma discussão a respeito da importância da cultura do consumo, numa sociedade em que o status de cidadão só é conferido somente a quem exerce o poder da compra.

Por esse motivo sempre fui defensor de programas como bolsa-família, mesmo sabendo de suas distorções e da dificuldade do Estado em propor algo que extrapole e avance na relação paternalista com quem vive à margem da economia. Essa situação fica mais delicada e frágil em época eleitoral.

O fomento aos processos culturais descentralizados, contemporâneos ou tradicionais, legitimados pelo diálogo entre local e global, pela cultura da convivência e pela economia solidária, é um dos caminhos mais atraentes e interessantes pensados pelo governo Lula, pois oferece possibilidades reais de conquista de cidadania, em territórios tomados por sobreposições de mandatos ilegítimos, conferidos a coronéis, oligarcas, mídias e corporações.

O governo vem encontrando brechas na relação entre a base da pirâmide e esses poderes estabelecidos, fazendo-se presente a ponto de alterar a configuração da sociedade. Uma oportunidade de refazer a própria noção de Estado. O problema é que governo forte demais enfraquece o Estado.

Corremos o risco de reforçar uma relação de dependência com o governo. E nós precisamos de relações institucionais, de serviços efetivos, de planejamento a longo prazo, de continuidade dos processos, de transparência, impessoalidade.
A universalização dos serviços culturais é algo urgente no Brasil. Com um sistema educacional anacrônico e falido, jamais conseguiremos dar conta de formar, informar e preparar o povo brasileiro para os desafios do novo milênio. Precisamos investir em infra-estrutura cultural. Dar acesso ao conhecimento e estimular a expressão cultural são condições para a conquista da cidadania.

Precisamos dar voz, luz e espaço de ocupação para esses atores sociais. E outros que lutam e sacrificam suas vidas para abrir brechas tanto no Estado quanto no mercado, em pleno processo de ebulição.

O crescimento do mercado cultural brasileiro está intimamente ligado às novas conquistas sociais, com as possibilidades de circulação de mensagens e imagens. Fruto da fúria e da garra de milhares de empreendedores, vimos florescer a reinvenção da arte em sua relação com o Estado e com o mercado. O custo disso para a produção cultural brasileiro não foi e não pequeno.

Na contramão disso tudo, o governo enxerga o mercado cultural como ameaça. Em plena crise financeira, estende a mão a banqueiros, à indústria automobilística e ao topo da pirâmide econômico-social. Ao setor cultural reserva a promessa de um pacote anticrise jamais cumprido, o aumento de impostos e uma campanha publicitária milionária em orçamento, porém pobre em presença de espírito e compromisso com a verdade.

A Lei Rouanet tem distorções, assim como o bolsa-família ou qualquer outra lei destinada a resolver problemas mais amplos e complexos. Não só sabemos disso, como denunciamos insistentemente o descaso do Estado em relação a ela, desde outros carnavais (e governos).
É um dispositivo complicado, pois coloca o artista e o produtor de cultura no colo daquele que, em tese, deveria contrapor. Na prática, no entanto, tem se mostrado muito eficiente no diálogo entre os diferentes mundos, sendo responsável pela retomada do senso de importância e necessidade de políticas públicas para a cultura.

Posso citar milhares de iniciativas que traduzem esse espírito, inspirando e qualificando o Estado em suas ações. Oficinas de arte que reinventaram a relação entre educação e arte, influenciando escolas e políticas públicas; cinemas itinerantes que ofereceram oportunidade e acesso à cinematográfica nacional e independente; espaços culturais alternativos; exposições paradigmáticas; circulação de espetáculos; mapeamentos de artistas e expressões culturais; pesquisas e um sem número de atividades que tomaram o espaço de um Estado ainda omisso em relação às suas obrigações constitucionais em relação à cultura.

É um espaço ocupado pela sociedade, por via do mercado – e com renúncia do Estado. Mas, antes de qualquer coisa, é um espaço da sociedade. Ele concorre com o Estado? Somente uma alma pequena poderia acreditar que sim. Ele dialoga, complementa, contribui, confronta, contrapõe, o que é fundamental num estado democrático de direito.
Concorre com o governo? Com certeza. Não queremos tirar o mérito e a importância dos governos, mas eles não nos servem de nada, se não contribuem para o fortalecimento da sociedade e suas iniciativas. O espaço público construído a duro sacrifício não pode ser ameaçado por uma aventura retórica e oportunista.

Estado forte se constitui a partir de uma sociedade fortalecida, livre, encorajada. Esse encorajamento, no campo da cultura, vem das forças empreendedoras desenvolvidas a partir de um terreno árido e difícil, com base no abandono e na renúncia do Estado.

Empreendedorismo é mais do algo natural ao artista. É necessidade. Ele precisa acreditar no que faz e desenvolver recursos internos para construir, levantar sua obra, fazer-se enxergar. E o fez de maneira heróica, resistindo a todas as forças contrárias do próprio mercado. E agora do governo, criando burocracias desnecessárias, regulamentos estapafúrdios e uma campanha de segregação que considero criminosa.

Se houver qualquer reformulação na Lei Rouanet ela deve fortalecer o empreendedor cultural. O mecanismo nasceu com essa vocação e assim deve ampliar sua capacidade, para atender a uma força emergente e avassaladora, vinda do centro, da periferia e dos Brasil profundo.
O Procultura faz o oposto disso. Coloca o produtor e o gestor cultural no limbo. Não acredita em cadeias econômicas ampliadas e num setor fortalecido, justamente naquela fatia da livre iniciativa, entre o fomento público e a indústria do entretenimento, essas sim fortalecidas com o projeto.

Sem esta fatia não haverá novos agentes no mercado. Os que já existem serão eliminados. Artistas estarão novamente nas mãos do governo e sua visão específica e às vezes ideologizada de cultura; e a grande indústria multinacional. E todo esforço será em vão.


Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

13Comentários

  • gil lopes, 5 de fevereiro de 2010 @ 16:05 Reply

    No caso da música para recuperar a cidadania precisamos afirmar nosso poder de venda. Do jeito que está, depois da Bomba Atômica, onde antes tínhamos 70% de repertório nacional e várias centenas de lançamentos anuais, agora, não temos mais nada, um ambiente anacrônico, pilotado pela pirataria, um mar de produtos estrangeiros…enfim, a música está indo para o mesmo buraco do cinema, este nem se fala, sempre foi desse jeito. Mas na música também? Nossa bossa vai virar tango? Temos conquistas, posição de honra…precisamos vender.

  • Paulo Moreira, 5 de fevereiro de 2010 @ 17:09 Reply

    Leonardo.

    Cruel sua análise, mas sensata. Estou sentindo no couro já calejado de anos de luta (tenho 52 de idade) e me vejo nessa altura da vida sem forças e quebrado financeiramente. Resisto de insistente mas já me sinto eliminado do mercado, sem capital de giro e pedindo favores a amigos para pagar algumas contas… O ProCultura é tudo isso que vc falou e mais ainda: uma grande decepção!

    Depois do Carnaval decido se procuro um outro emprego ou continuo músico, produtor cultural, etc.

  • gil lopes, 5 de fevereiro de 2010 @ 22:38 Reply

    Não vejo nada demais publicar:
    Um acontecimento singelo: diante da crise internacional Lula foi pra rua e disse que era marola e mandou consumir. Brigou com a presidência da Vale por conta de despedimentos e má política. Acelerou.
    Em São Paulo na altura, o secretário de cultura cancelou a concessão de novas isenções fiscais para projetos culturais afim de equilibrar o orçamento. Desacelerou, pisou no freio.
    O que queremos?

  • Tales Cerqueira, 6 de fevereiro de 2010 @ 16:53 Reply

    leonardo, li um artigo do jose luiz herencia herencia do minc na folha de sp da semana passada que me pareceu muito bom. o que você achou? me pareceu uma luz, uma vela no breu de tantas bobagens que tem sido ditas contra e a favor do procultura, vale cultura etcetera. tc

  • luciano, 8 de fevereiro de 2010 @ 10:49 Reply

    eu sou músico. acho o seguinte. 99% dos músicos muda de profissão. o q eu acho triste. são tudo “frustado”. e dos q continuam, 99% não são compositores. tocam musicas dos outros. seja beethoven, seja beatles. ou são instrumentistas excelentes q tocam pra ivete sangalo ou pro chitãozinho. nada contra. mas esta é a realidade do mercado. arte não vende. muito pouco. e não adianta pegar 100 mil reais pra fazer um cd q não vai tocar na rádio. fora q tem pouco espaço pra música autoral. moro em curitiba. aki não rola nada. não tem aonde tocar. não tem uma “indústria”. no rio pelo menos tem a globo. vai coisa ruim? popular? o povo gosta de latino e axé. fazer o q. mas eu lembro dos anos 80. blitz, paralamas, barão. os caras tocaram uma vez. no outro dia já estavam num estúdio. no outro dia a música já estava na rádio. no outro dia estava no chacrinha. no outro dia já estavam lançando o disco e no outro dia tournee brasileira. então tem como. e sem precisar pagar pra tocar. precisamos criar espaços e o costume do público escutar arte. não o beethoven, mas a música do vizinho do lado.

  • Hilton Assunção, 8 de fevereiro de 2010 @ 10:58 Reply

    Ao artista, verdadeiro criador de cultura, entre depender de produtores e/ou atravessadores dos produtos culturais ou depender do estado, creio que a segunda opção é a melhor para o artista no momento, se isso for possível. Alguns produtores musicais ou por gosto próprio ou por despreparo transformaram o mercado fonográfico em pandemia de qualidade duvidosa deixando fora do mercado o que culturalmente eles não alcançam. Ou não tiveram uma boa formação cultural para ocuparem os cargos que ocupam, ou são muito malvados e rancorosos contra quem sabe fazer música com qualidade diferenciada em composições, arranjos e acabamento sonoro, fora da máxima pop das mixagens com bumbo e contrabaixo na frente, sem harmonia. Com a desculpa de que o povo gosta de porcaria, vão enfiando goela abaixo, com custo em mídia altíssimo os seus produtos. Bom… estão falindo, e não é pela pirataria e sim pelo mau gerenciamento. Eu prefiro mil vezes depender do estado que de alguma maneira não interfere na minha criação e no meu processo de produção. Claro que se criou uma imensa lacuna entre o rebolativo e o contemplativo. As pessoas perderam a capacidade do livre pensar e de buscar novos horizontes acomodando-se ao que os canais de TV lhes mostram como únicas alternativas no momento. O que não está na telinha parece que não existe mas alguém tem que avisar as pessoas que existem outras alternativas! E quem voces acham que deve fazer esse papel? Claro que é o estado, este “vilão” que muitos querem tirar do caminho mas que continua tendo um papel importante na sociedade como regulador das desigualdades e dos abusos do poder econômico contra a nossa verdadeira cultura. E enquanto os burocratas da cultura discutem o sexo dos anjos, nós continuamos fazendo mágica para ter uma vida digna tentando sobreviver dos produtos resultantes de nossos trabalhos artísticos.

  • luciano, 8 de fevereiro de 2010 @ 11:00 Reply

    dinheiro público. qto foi gasto em cinema pela lei rouanet. pra q? dai queremos ganhar o oscar. o filme já esta pago. dai o cara faz qquer coisa q ninguem vê. não faz sentido. isso não é nem comunismo. tem gente comprando casa, carro e fazendo umas porcarias. se eu for abrir um restaurante, vou ter q vender minha comida. mas dai eu pego 5 milhões do governo. embolso metade e abro um negócio q nem precisa de cliente. deixo ele lá por 1 ano c 2 funcionários e vazio. é o q acontece. eu acho q precisamos criar uma indústria. como estes canais de tv fazem. mande seu roteiro. faça um piloto no celular. dai vamos gastar 1 milhão pra render 50 milhões. q vão gerar mais 50 filmes q vai render mais 50 milhões cada. dai gera emprego, cria mercado. um filme “artístico” não precisa gastar 1 milhão. temos achar um meio termo. como queremos o Brasil daki 10 anos?

  • luciano, 8 de fevereiro de 2010 @ 14:33 Reply

    herança católica. temos um problema c o dinheiro. arte não pode dar dinheiro. nem o salvador dali se livrou deste estigma. saiu do grupo dos surrealistas. porque ganhou grana. os europeus tem isso. mas a inglaterra não. nem os americanos. protestantes. Deus ajuda quem trabalha. Se vc ganha dinheiro é porque Deus ajudou. Aqui, é o vil metal. Aki é dinheiro é coisa do demônio.

  • Cristian Korny, 9 de fevereiro de 2010 @ 19:42 Reply

    concordo com a coluna, não podem existir barreiras à cultura, nem de mercado, nem de estado, parece uma quebra de braço para ver quem vai ter mais artistas na mão para produzirem nada mais que propaganda.

  • Lauro Monteiro, 10 de fevereiro de 2010 @ 10:09 Reply

    Caro Leonardo!
    Execelente artigo: sensato e cruel como é a realidade cultural no Brasil.
    Avançamos muito…em vários sentidos nestes últimos anos, sem duvida. Mas é insuficiente.
    Este é o processo, sem dúvida, mas ainda insuficiente

  • Vicente Melo, 11 de fevereiro de 2010 @ 9:24 Reply

    Boa reflexão. O bolsa-família é a nossa confissão de improbidade ao insistir em um sistema que permite relações insustentáveis. Mas estamos no caminho, e melhor, de uma evolução civilizada, quando criamos os fóruns próprios e sistemáticos para a participação dos diversos setores da sociedade. Prejudicamos a caminhada quando reagimos abrindo mão do argumento objetivo e buscamos desclassificar as fontes do diálogo.
    O artista não se contrapõe ao Estado, mas a governantes, e os recursos para tudo, inclusive para a cultura, são públicos, portanto, o artista não dependerá dos governantes.
    Om espaço público que está sendo construído a duro sacrifício, nunca será ameaçado por uma aventura retórica e oportunista por ser, de fato, um espaço público. Entendo que a nova legislação é benéfica por se inscrever ao atual feixe de políticas públicas de abertura e participação. Ideal não poderia ser, se só agora a sociedade brasileira começa a ensaiar-se em um processo de participação.
    Mas agora temos a garantia dos fóruns e conferências e não precisamremos mais esperar 15 anos para propor novos aperfeiçoamentos. Estamos apenas começando a nos exercitar nesse mister. Gostamos de conversar e trabalhar. Iremos longe. Temos vocação.
    É pauta prioritária equacionar melhor o acesso aos direitos essenciais, como cultura, alimento, água, educação, entre outros. Vamos em frente.
    Não se preocupe, ser livre é o principal atributo do artista. Confiemos, ninguém, nunca, conseguirá submete-lo. “As tiranias são os mais frágeis governos.”

  • Alexandre Espinheira, 11 de fevereiro de 2010 @ 10:09 Reply

    Excelente artigo. Sensato e claro. Conheço pouco de “cultura” em geral, primeiro por ser difícil definir o que é cultura, a diferença entre arte e artesanato, que existe em todos os segmentos. Estamos falando do que aqui? Do Funk, do Axé ou de música mais bem cuidada, por exemplo? Mas conheço um pouco de música. Concordo quanto ao bolsa-família e à lei Rouanet, melhor que não existissem mas infelizmente são necessárias, assim como a política de cotas, que a meu ver, e de muitos por aí, teria que ser social e não racial. Gosto da política dos editais de financiamento direto, pode ser que exclua os que não conseguem escrever um bom projeto mas “acaba” com o apadrinhamento e o financiamento por amizade que muito existia pelo menos aqui na velha e boa Bahia. Concordo que o artista não pode estar dependente exclusivamente do estado mas em alguns segmentos, se não for assim não vai. Trabalho em um deles, sou compositor de música erudita contemporânea na Bahia. Imagine o que é isso? Pessoas de imensa qualidade mas sem a menor visibilidade tentando montar uma cena que fortaleça um pouco nosso “mercado”. Esse ano temos um projeto de um festival com pelo menos 12 concertos, com música acústica e eletroacustica, mais seminários com professores de outros estados e apresentações nas ruas e escolas tentando incluir o máximo de gente de todos os segmentos da escola de musica da universidade federal da bahia. Quem financiaria esse projeto de 9 meses se não for o estado. Os concertos vão acontecer com dinheiro ou não, na raça, mas as outras ações que fariam parte da capacitação de pessoal, divulgação e formação de platéia não dá…

  • Victor Souza, 17 de fevereiro de 2010 @ 12:56 Reply

    De fato, há muita politicagem em meio a isso tudo. Claro está que as verbas designadas à cultura devem deixar de ser mera obrigação oçarmentária, não sendo medidas por cifras quantitativas, mas sim pela eficácia de suas ações, bem como por seus retornos à sociedade civil como um todo. Além disso, todos os setores devem trabalhas em conjunto, sobretudo a educação e a cultura, caso contrário o quadro de acesso não mudará em nada, uma vez que há uma certa concentração do produto cultural não mão de poucos, pois são sempre os mesmos que vão às cinematecas, aos teatros, aos espetáculos musicais…Quando isto chega aos périplos, não podemos depender só das cooperifas ou das casas de culturas!!!!

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