Cultura e sustentabilidade. Duas palavras que estão na moda. Dois conceitos complexos: cultura sob a perspectiva artística, social ou econômica; sustentabilidade sob o ponto de vista social, ecológico, econômico, ambiental, territorial, político, cultural. Longe da pretensão de apresentar respostas fechadas sobre o que é cultura e sustentabilidade, o presente texto procura fundamentar um ponto de vista e incentivar a reflexão sobre esse assunto.

A UNESCO define cultura como “um conjunto de características distintas espirituais, materiais, intelectuais e afetivas que caracterizam uma sociedade ou um grupo social. Abarca, além das artes e das letras, os modos de vida, os sistemas de valores, as tradições e as crenças.” (UNESCO apud BRANT, 2009, p.13). Por lidar com a subjetividade, há infinitas outras definições de cultura. Porém, o ponto em comum está em defini-la como algo próprio do ser humano.

No dicionário, “sustentabilidade” é definida como a condição daquilo que é sustentável, passível de sustentação. A noção desse termo começa a ser discutida nos anos 70, junto com as discussões sobre meio ambiente. Nos anos 80, os problemas relativos à pobreza e à desigualdade social são incorporados à questão ambiental. Esses princípios originam a definição de “desenvolvimento sustentável” como a busca de atender às necessidades presentes, sem comprometer as necessidades das gerações futuras. O termo foi incorporado pelo relatório da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – Nosso Futuro Comum, publicado em 1987, também conhecido como Relatório de Brundtland (SILVA, 2011).

Apesar desse termo, “desenvolvimento sustentável”, ser amplamente difundido em inúmeros países, ainda há dúvidas acerca do seu conteúdo, por vários motivos. Um deles é a falta de clareza em torno do objeto a ser sustentado:

por vezes, a sustentabilidade se refere aos recursos naturais propriamente ditos; por outras, aos bens derivados desses recursos; alguns autores se referem à sustentabilidade dos níveis de produção, outros enfatizam a sustentabilidade dos níveis de consumo. (SILVA, 2011, p.3)

É notória a complexidade dos termos “cultura e sustentabilidade”. Portanto, o presente texto não irá se aprofundar mais na definição teórica desses conceitos. Como fundamentação de seus argumentos, apresentará exemplos de sustentabilidade e não sustentabilidade na cultura em nosso país.

Rômulo Avelar, no seu artigo Cultura: hora de pensar a cadeia produtiva como um todo, aborda os principais pontos vulneráveis na economia da cultura e como eles dificultam a sustentabilidade no setor:

A cultura tropeça no amadorismo e na falta de informação, seja nas capitais ou no interior. Além disso, ressente-se pela fragilidade de alguns elos de sua cadeia produtiva. Definitivamente, não há como pensar em sustentabilidade para um setor obrigado a conviver com pontos vulneráveis e sempre prestes a se romper quando submetidos ao menor esforço. (…) No âmbito da cultura, ainda persiste certa tendência a visualizar apenas a área finalística, ou seja, os produtos finais e os responsáveis diretos por sua concepção. Essa ênfase excessiva naquilo que é levado aos olhos e ouvidos do público é até compreensível, na medida em que o trabalho de criação representa a própria essência do setor. No entanto, é imprescindível identificar e conferir o devido valor a outros elos menos visíveis, mas essenciais para a viabilização de carreiras sustentáveis e, em última instância, para a construção de um cenário cultural mais vigoroso no país. (AVELAR, 2010)

Os “pontos vulneráveis” considerados pelo autor são: “debilidade da infraestrutura cultural dos municípios brasileiros, a baixa qualidade de parte expressiva dos serviços prestados por fornecedores de toda sorte, a dificuldade para a formação de plateias, a desarticulação entre cultura e educação e a falta de canais adequados para a distribuição, em um país de dimensões continentais.” (AVELAR, 2010)

Como consequência disso, há casos paradoxais no setor cultural brasileiro. Um deles é em relação ao balé clássico. Temos a única escola do Bolshoi fora da Rússia, bailarinos com expressiva carreira no exterior, grandes escolas profissionalizantes e apenas uma única companhia de balé clássico no país como “porto seguro”: a do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Resultado: exportamos tantos bailarinos quanto jogadores de futebol (DALE, 2011).

Recentemente, o Itaú Cultural elaborou um programa de pesquisa em dança: Programa Rumos Itaú Cultural Dança: formação profissional e trabalho nas narrativas de artistas selecionados. Edição 2009-2010. Videodança e Mostra de processos dança. Esse trabalho procurou responder indagações (É possível viver de arte, ser autônomo financeiramente, no mundo da dança no Brasil? Quais são as condições de trabalho? Como se formam os bailarinos? etc) por meio de entrevistas realizadas com 36 artistas, que participaram dos 21 projetos selecionados na categoria Mapeamento e 5 em Videodança. Algumas conclusões dessa pesquisa: há uma concentração de profissionais da dança na região Sudeste; a maioria são mulheres brancas; predominância de trabalho intermitente; 73% trabalham sem carteira assinada; o rendimento médio não ultrapassa dois salários mínimos, exigindo a realização de múltiplas atividades para complementar a renda e viver de dança.

Há muitos outros exemplos de problemas enfrentados por profissionais da cultura no Brasil. No entanto, há também exemplos de novas iniciativas em busca de novos modelos de gestão cultural, visando a sustentabilidade. A Cia de Teatro BR116 é um bom exemplo: uma OSCIP voltada para o teatro, planejada para ser uma empresa auto-sustentável.

Outro exemplo é a Unimus, cooperativa de músicos do Espírito Santo. Esse empreendimento surgiu como resposta ao problema da falta de nota fiscal na contratação dos músicos que tocam em bares e acabou por valorizar a música capixaba, aquecer a economia local e profissionalizar o setor.

Tendo como base os conceitos e exemplos apresentados, pode-se chegar à um ponto de vista sobre “cultura e sustentabilidade”. Pensar em sustentabilidade da cultura significa pensar cultura a longo prazo, em políticas culturais de Estado, em novos modelos de gestão cultural. O “objeto a ser sustentado” seriam os profissionais da cultura, uma vez que o desenvolvimento cultural depende principalmente do trabalho desses profissionais, da mesma forma que o desenvolvimento científico depende de pesquisadores.

Certamente, há outras formas de se definir “cultura e sustentabilidade”.  Convido os leitores a pesquisar sobre esse vasto assunto. Há muitos problemas na área da cultura. Sinal de que há muito a ser feito. Que tal arregaçarmos as mangas e começarmos a trabalhar juntos? Sugiro começar pela Consulta Pública das Metas do Plano Nacional de Cultura, que estará disponível a contribuições até o dia 20 de outubro, no site s://pnc.culturadigital.br/. A sustentabilidade da cultura interessa a todos, pois além da Cultura ser um direito constitucional do cidadão brasileiro, ela faz parte das características exclusivas do ser humano.

 

REFERÊNCIAS

AVELAR, Rômulo. Cultura: hora de pensar a cadeia produtiva como um todo. Jornal Letras. Edição 41. Minas Gerais, set. 2010.  Disponível em: s://www.cafecomletras.com.br. Acesso em: 17 de julho de 2011.

BRANT, Leonardo. O poder da cultura. São Paulo: Peirópolis, 2009.

BR 116, Cia de Teatro. Vídeo de lançamento. Disponível em: s://www.youtube.com/watch?v=rpg-TRpzym0&feature=youtu.be.  Acesso em: 01/10/2011.

DALE, Joana. Tipo exportação: formação mais apurada e mercado de trabalho restrito levam jovens bailarinos clássicos a tentar a sorte em companhias do exterior. O Globo, Rio de Janeiro, Ano B nº 374, 25 de setembro de 2011.

SEGNINI, Liliana Rolfsen Petrilli (elaboração). Programa Rumos Itaú Cultural Dança: formação profissional e trabalho nas narrativas de artistas selecionados. Edição 2009-2010. Videodança e Mostra de processos dança. Observatório Itaú Cultural Disponível em: s://www.itaucultural.org.br/bcodemidias/001812.pdf. Acesso em: 13/09/2011.

SILVA, Liliana Souza e. Sustentabilidade na cultura: da diversidade cultural à sustentação financeira. In: II SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS CULTURAIS. Resumo dos trabalhos. Rio de Janeiro: Casa Rui Barbosa, set. 2011. 1 CD-ROM

PEGN,TV. Com cooperativa, músicos do ES aliam sucesso com dinheiro no bolso: 50 artistas fundaram a Unimus, uma cooperativa de música do estado- ideia deu tão certo que músicos espalham o som pelo mundo. G1 Economia. Disponível em: s://g1.globo.com/economia/pme/noticia/2011/05/com-cooperativa-musicos-do-es-aliam-sucesso-com-dinheiro-no-bolso.html. Acesso em: 01/10/2011.


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Estudante de Gestão Cultural, cantora lírica e bailarina.

3Comentários

  • Samanta, 4 de outubro de 2011 @ 15:45 Reply

    É um prazer colaborar com o Cultura e Mercado!

    Convido os leitores a visitarem o meu blog, Cultura e Sustentabilidade, sss://culturasustentabilidade.blogspot.com/, cuja proposta é ser um ponto de encontro de ideias e pessoas que procuram pensar cultura a longo prazo.

    saudações culturais,
    Samanta Sobral

  • elida, 14 de dezembro de 2011 @ 5:29 Reply

    Oi, Sam.
    Recebo a news do Cultura e Mercado, adoro os artigos, recebi e li o seu mas se você não fala eu nem ia me tocar que era a ‘nossa’ Sam…rs
    Parabéns!
    Bjs carinhosos

  • Samanta, 14 de dezembro de 2011 @ 16:32 Reply

    Oi Elida,
    Obrigada pelo carinho!
    Bjs

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