O novo livro de Gilles Lipovetsky* em parceria com Jean Serroy traz uma discussão sobre a mercantilização da cultura contemporânea. O outro lado da moeda é a culturalização do mercado, que a cada dia se locupleta de sentidos e se constrói simbolicamente.

Como parte do experimento audiovisual que me propus a fazer há quatro semanas, avanço um pouco no formato e deixo a reflexão apenas em vídeo, que já conta com uma participação mais espontânea e diferente do que vinha apresentando até então.

 

Enfim, uma mercantização integral da cultura que é, ao mesmo tempo. uma culturalização das mercadorias. Na época da cultura-mundo, as antigas oposições da economia e da cotidianidade, do mercado e da criação, do dinheiro e da arte dissolveram-se, perderam o essencial de seu fundamento e de sua realidade social. Produziu-se uma revolução: enquanto a arte, daí em diante, se alinha com as regras do mundo mercantil e midiático, as tecnologias da informação, as indústrias culturais, as marcas e o próprio capitalismo controem, por sua vez, uma cultura, isto é, um sistema de valores, objetivos e mitos. O cultural se difrata enormemente no mundo material, que se empenha em criar bens impregnados de sentido, de identidade, de estilo, de mode, de criatividade, através das marcas, de sua comercialização e de sua comunicação. O imaginário cultural não é mais um céu acimo do mundo “real”, e o mercado integra cada vez mais em sua oferta as dimensões estéticas e criativas. Sem dúvida, o econômico jamais foi totalmente externo à dimensão do imaginário social, sendo o mundo da utilidade material ao mesmo tempo produtor de simbolos e valores culturais. Simplesmente agora essa combinação é explicitada, gerida, instituída em um sistema-mundo globalizado.

* A cultura-mundo, de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, editora Companhia das Letras.


Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

5Comentários

  • Dayse Cunha, 27 de março de 2011 @ 2:14 Reply

    Vc vê, o próprio livro a quatro mãos já se rende ao fato da criação coletiva. Sou do tempo dos grandes autores, onde Deus falava a seus escolhidos para apascentarem os demais. Vertiginosamente hoje é o coletivamente eterno. Não temos mais futuro – Só eternidade. Portanto é holográfico o nosso destino…

  • Dani Torres, 29 de março de 2011 @ 0:09 Reply

    Mais espontâneo = bem mais vc, bem mais legal! Gostei.

  • Fred Furtado, 29 de março de 2011 @ 1:05 Reply

    O sistema mundo globalizado distanciaria as instâncias individuais das coletivas, diluindo o local no macro, o único no planificado. A arte, a cultura, especializados em si, em seu local, dialogando com todo o macro, globalizado e mundializado revelaram toda nuance de possibilidades de reconhecimento do único, diferente, portanto igual e único mesmo. E, para fazer sentido, o setor cultural como rizoma, sem o tronco que separa a arte como elitista, precisa se preparar tanto para escoar quanto para circular. Tudo é troca e negociação. Nem tudo se troca por dinheiro apenas. Nesse mesmo momento as moedas complementares ou moedaas sociais vem dinamizar o mercado, vem funcionar como catalizadores da mercantilização plena e não somente a cultural. Daí dá pra trocar tudo por tudo e dá pra estipular valoração que se apresente justa para as partes. Isso é pensar fora do eixo, posicionar-se de acordo com a realidade cabida, institucionalizar o mercado cultural como trocas simbólicas e capitais, desmistificando o conceito de sustentabilidade como o necessário para sobrevivência, como qualquer empresa, qualquer projeto, qualquer família. Bela reflexão.

  • alvaro fernando, 30 de março de 2011 @ 8:54 Reply

    Acho que ficou muito melhor…(não que antes não fosse bom)… rs. menos leitura, mais olho no olho…

  • Rudson Marcello, 26 de abril de 2011 @ 13:34 Reply

    Gosto do branding texto, imagem, mas ainda pode ser melhor alinhavado, no sentido do texto ser complemento da imagem ou a imagem complemento do texto.
    Quanto ao artigo da Mercantilização, a fronteira é obscura.O quanto a arte para sobreviver tem de tornar-se um objeto, um ítem de consumo apoiado no mercado e o quanto o esqueçer deste mercado(agora mundial) pode legar a mesma arte a padecer subnutrida na mente de seu criador.
    Não penso haver respostas, mas sim casos a serem estudados,que podem nos trazer uma melhor reflexão do momento histórico vivído.
    Mas há de ser notado a imensa dificuldade pública de legar aos mercados a responsabilidade de prover cultura e o despreparo intenso, no caso do Brasil, dos gerentes de marketing das instituições para escalonar suas contribuições.
    É um fato histórico que penso só poderá ser resolvido quando a cultura retomar seu lugar de formadora estética da sociedade, assim a longo prazo formando novos pensadores e novos gestores de todas as escalas de poder(publico/privado)para um novo pensamento cultural.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *