Foi uma tarde melancólica ontem no Capanema, bem mais que cinza e chuvosa. Muita coisa do passado me veio à memória, fragmentos da nossa triste história republicana, como a de João Cândido, o Almirante Negro e a Revolta da Chibata nas águas da Guanabara e a poesia concreta que fundiu Salvador e São Paulo. Estava ali diante dos nossos olhos o concerto sob forma de monólogo monótono, ao invés de sinfonia, cacofonia e os eternos “trocadalhos”.
Viola do Juca, para quem não sabe, era um brinquedo, aliás, o primeiro brinquedo musical que tive, na época com dez anos de idade. A viola tinha o formato de bandolim, feita de plástico, um material que quebrava e deixava pontas, hoje seria reprovado por um cioso controle de qualidade. O som da viola que tinha apenas uma corda, era, naturalmente indeciso, fazendo lembrar a guitarra Hawaiana que, ao contrário da guitarra baiana, que, espetacularmente Dodô e Osmar transformaram numa arte tão expressiva que imortalizou o trio elétrico, mas não teve a devida atenção do ministro Gil para protegê-la dos chicletes, das bananas e dos furacões midiáticos, já que o ex-ministro é figura carimbada no carnaval da “bandfoliaché” da Paulista em Salvador.
No caso do “debate monólogo” do Capanema foi diferente. Entre o centro onde se encontrava o ministro e a extrema esquerda, havia um trio que não se fez de rogado e sonhou durante a soneca dos justos, enquanto a viola, com sua típica limitação de escala natural, proferia uma fala de auto-afirmação e de marcação de território. De concreto e amplo, somente o gigantismo do velho Capanema, palco de tantos e importantes encontros entre homens que pensavam verdadeiramente a cultura brasileira, Mário de Andrade, Lucio Rangel, Portinari, Manuel Bandeira, Murilo Miranda, Camargo Guarnieri e tantos outros. Todo aquele sonho reduzido a uma pequenez política que sequer era partidária, mas territorial.
Qualquer tentativa de se estabelecer um diálogo com o ministro, como tentei, das águas da Guanabara surgiam, em alto e bom som, os estalos da chibata vindos dos representantes da, hoje, capital mundial dos papagaios de pirata, diga-se de passagem, bastante úteis ao ministro, pois aplaudiam até a tosse de um ministro resfriado e combalido politicamente, que precisou se agarrar à fala displiscente do presidente Lula quando o empossou. Juca se lambuzou dos clichês de Gil para mostrar uma lealdade patética.
Como numa festa de natal, chegou a hora do “amigo oculto ou amigo X”. Os papeizinhos com as perguntinhas ao ministro foram abertos pela comissão que filtrava o que não era espelho. E o ministro ainda falava em democracia, em devolver a dignidade à Funarte, sem esplanar como isso se dará. Digamos que ele tenha prometido a cada uma das facções corporativas presentes, ressuscitar Garrincha e devolvê-lo à torcida do Botafogo, e ao Flamengo a reintegração de Zico, mas a torcida deixava claro que queria a volta de Eurico e Caixa D’Água para vencer no tapetão “vermelho” do Odeon, ao estilo “O cariocacentrismo é a minha nobreza”. Enfim, Juca disse que devolveria à Funarte (Fundação Nacional da Arte) o título de “Cidadã Carioca”, num claro afago no comichão da ex-comissão do projeto Pixinguinha, logicamente sob os acordes da lira do anjo e contraponteado por um violão sete cordas.
Juca jogou Frateschi aos leões e a arena do Baixo Leblon foi ao delírio, interrompendo muitas vezes o cochilo dos seus secretários, não necessariamente assesores. O nosso ministro da cultura mostrou ser um ávido cabeça-de-planílha, termo que é título do mais recente livro do jornalista econômico, Luis Nassif.
Juca apresentou números do IBGE que revelam a falta de acessibilidade do povo à chamada cultura brasileira e, no mesmo discurso rasteiro, jogou nas costas da sociedade todo o desastre de políticas institucionais elitistas, tentando nos fazer crer culpados por uma sociedade limitada em seus pensamentos. Nesse momento do discurso, eu o interpelei… “Ministro, não seria culpa das próprias instituições que, em sua natureza, não são representativas aos olhos da sociedade?” O ministro me respondeu ao estilo lacônico e evasivo…. “estamos falando da mesma coisa”, e imediatamente os papagaios de pirata gritaram em revoada… “pela ordem, pela ordem dos papeizinhos!” E Juca me disse, preferia lhe responder pessoalmente, mas a maioria não quer, se escamoteando debaixo das titicas dos papagaios de sempre.
Enfim, foi praticamente uma reedição do encontro das águas cariocas, hoje representadas pelos amigos da Lagoa com o seu ponta-de-lança, Gabeira e o representante da Acibarra, Eduardo Paes no debate em O Globo naquele mesmo dia pela manhã na sede do jornal. Um debate sem sobressaltos, lógico, pois os dois são filhos pródigos ou rebeldes de Cesar Maia que vão vender o Rio do “pum-americano” da nova cidade da música que será a locomotiva de mais uma expectativa frustrada de devolver o brilho da coroa imperial, à antiga, à charmosa ex-capital de tudo.
Este texto foi escrito em passagem por Piraí, terra do meu pai e avós. Fiquei pensando… toda aquela estrutura de concreto, pilhas e pilhas de papéis de um ministério desconectado com a sociedade, tentou se equilibrar numa cidade tão pequenina, mas valente, Piraí, que ficou entre as sete cidades mais inteligentes do mundo. E Gil, numa tacada de mestre, jogou todo o peso ministerial no projeto Banda-Larga de Piraí. O ex-ministro mostrou toda a fragilidade de um discurso sem o mínimo de funcionalidade, jogou pesado com a licença poética. Utilizou mais uma vez o artista para justificar a sua cibernética e aleatória passagem pelo MinC. Juca, pateticamente, de cinco em cinco minutos tentava se agarrar a essa miragem. Este foi, infelizmente, sob os meus olhos e ouvidos, o tal “Diálogo Cultural”.
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