As flagrantes oportunidades que a economia criativa oferece ao setor empresarial foram tema de abertura da Expogestão – o maior evento de gestão empresarial do sul do Brasil e um dos mais conceituados do país
As flagrantes oportunidades que a economia criativa oferece ao setor empresarial foram tema de abertura da Expogestão – o maior evento de gestão empresarial do sul do Brasil e um dos mais conceituados do país, realizado esta semana. Ao lado de economistas do calibre do Ex-Ministro Pedro Malan e do Professor Eduardo Giannetti da Fonseca e dos presidentes de uma plêiade de empresas, como Sadia e Promon, a Chefe do Programa de Indústrias Criativas da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento), Edna dos Santos-Duisenberg, causou enorme impacto ao abordar o assunto.
A semente caiu em solo fértil. Joinville já vinha despontando como ponta-de-lança para várias indústrias criativas, sem que a discussão sobre a dinâmica da economia criativa houvesse tomado corpo no Brasil. A cidade abriga a única Escola Bolshoi fora da Rússia, é sede de um importante festival de jazz e palco do maior festival de dança do mundo, segundo o Guinness, ocupando teatros e ruas no mês de julho. Terceira maior economia do sul, tem um pujante pólo de software e moda e é responsável por 1,5% das exportações de todo o país. Mas a região também parece ser particularmente vocacionada a dois outros setores importantes da economia criativa. O primeiro deles é o do turismo cultural de experiência.
Erigida pelas mãos de imigrantes alemães, suíços, italianos e noruegueses, a região circundante a Joinville ainda guarda as tradições culturais que nos chegaram há 160 anos. Transcorrer um fim de semana nas propriedades rurais, em casas de madeira de marcenaria cuidadosa, aprendendo os segredos das pérolas gastronômicas e degustando-as no embalo de contos e causos com “r” carregado são garantia de viagem ao Brasil de uma época que não conhecemos, mas nos deixa tanta nostalgia. Percorrendo não mais de 40 kms chega-se à histórica São Francisco do Sul, terceira cidade mais antiga do país, com seu romântico conjunto de 150 casas tombadas. Esses testemunhos vivos dos séculos XVII e XVIII acompanham hoje tradições como Boi-de-Mamão, Dança do Vilão, Pão-por-Deus e Pastorinhas.
O segundo setor de potencial destaque para a economia criativa de Joinville é o da produção ou co-produção de filmes. Resguardada pela Serra Dona Francisca e emoldurada pela Baía da Babitonga, Joinville oferece cenários de rara beleza natural, aquinhoados com uma rica variedade de manifestações culturais, resultado do sincretismo dos fluxos de imigração européia e de migração nacional. A cidade possui bons serviços de infra-estrutura, mão-de-obra com nível educacional acima da média e centros de ensino que poderiam favorecer a formação de profissionais e empreendedores criativos qualificados. Tanto o Governo Estadual quanto a Prefeitura Municipal vêm manifestando interesse na área, tendo resultado em projetos hoje em tramitação. O caminho é promissor, a julgar inclusive pelas experiências de outros países e regiões nesse setor, ao longo da última década. Em Hong Kong, onde a economia criativa responde por 3,1% do PIB e absorve 3,7% dos empregos, o governo criou em 1998 o Film Services Office, voltado ao desenvolvimento do país como centro de serviços à produção de filmes, dando ênfase e condições especiais às filmagens ali realizadas.
Paralelamente, a SODEC (Société pour le Développement des Entreprises Culturelles), ligada ao governo do Québec, oferece uma ampla gama de medidas fiscais e financiamentos para a realização de produções e o uso de serviços de produção e dublagem no território. Tamanho empenho é justificável não só pela vontade de afirmação das capacidades criativas do país, postas constantemente em cheque pelos Estados Unidos, mas também por seu impacto econômico e potencial de desenvolvimento. Segundo estudo realizado em 2004 pelo Forum Metropolitano da Indústria Cinematográfica, a cada US$10 milhões investidos no Québec para a realização de produções estrangeiras, 11,7% são arrecadados em impostos pelo Governo do Québec (já descontados os incentivos concedidos) e 4,9% pelo Governo do Canadá, além de gerarem 155 novos empregos na região.
Resta esperar que, neste cenário de bons ventos, a economia criativa encontre em Santa Catarina – e especialmente em Joinville – uma abertura política e empresarial que agarre essa oportunidade com afinco.
Ana Carla Fonseca Reis