Pretendia escrever um texto de avaliação sobre as Marchas da Liberdade em todo Brasil quando vi este artigo na rede [“A esquerda fora do eixo“, publicado dia 17 de Junho de 2011 no site Passa a Palavra com assinatura coletiva] sintomático da perplexidade de certos setores da esquerda tradicional com as mudanças e crise do capitalismo fordista e as novas dinâmicas de resistência e criação dentro do chamado capitalismo cognitivo (pós-fordista, da informação ou cultural).

Crise e desestruturação que tem como horizonte a universalização dos meios de produção e infra-estrutura pública instalada, a constituição de novos circuitos e mercados e a emergência de uma intelectualidade de massa (não mais o “proletariado”, mas o cognitariado) com a possibilidade da apropriação tecnológica por diferentes grupo (software livre, códigos abertos, cultura digital).

Crise e paradoxo onde o próprio crescimento gera e multiplica precariedade, mas também novas dinâmicas e modelos.

O capitalismo da “abundância” produz crise ao entrar no horizonte da gratuidade/compartilhamento/colaboração com uma mutação da própria idéia de “propriedade” (ver a crise do Direito Autoral).

O texto percebe as mudanças, estruturais, mas não consegue ir além nas conseqüências e funciona como uma caricatura que busca demonizar as novas dinâmicas sociais e culturais pós-fordistas e despotencializar a cultura digital, o midiativismo e as estratégias de apropriação tecnológicas das redes, inclusive a apropriação de ferramentas como o Facebook, twitter e outras para causas e objetivos próprios, como fizeram os árabes e os espanhóis, hackeando as novas corporações pós-fordistas.

Falta ao texto (além de diagnósticos equivocados sobre a “nova classe dominante”) um arsenal teórico minimamente a altura das mutações, crises e impasses do próprio capitalismo.

Há uma frase sintomática neste artigo que me chamou atenção e que esclarece em muito sobre “quem” fala e de “onde” fala sob a assinatura anônima/coletiva:

Diz: “é praticamente impossível para um observador desatento ou viciado nas velhas estruturas identificar e combater o novo sujeito formado por este coletivo (ou rede).”, referindo-se ao Circuito Fora do Eixo a quem os autores atribuem _ numa teoria “conspiratória” que não esconde uma envergonhada admiração_ praticamente tudo o que está acontecendo de mais interessante na cena do ativismo brasileiro!

A frase explicita o medo diante das novas dinâmicas que estão sendo inventadas e experimentadas “fora do eixo” da esquerda clássica, criando experiências e conceitos que explodem o arsenal de teorias maniqueístas fordistas de uma esquerda pautada pelo capitalismo do século XX, incapaz de enxergar as “revoluções do capitalismo”, dentro “do” capitalismo e que vem sendo discutidas pelo menos desde maio de 68 ou logo depois quando, por exemplo, os teóricos-ativistas Gilles Deleuze e Félix Guattari lançaram o extraordinário manifesto “O Anti-Édipo ou Capitalismo e Esquizofrenia”, de 1972. Ou que ignora as análises sobre as mutações do capitalismo tematizadas por um teórico comunista como Antonio Negri, nos livros “Império” e “Multidão”, dois clássicos contemporâneos.

A frase dá bem a dimensão desse medo e incompreensão do novo e aponta a própria incapacidade de ver dos autores do artigo.

O observador “viciado nas velhas estruturas” é exatamente “quem fala” neste texto, que também se entrega, medroso e preocupado, com a perda do seu próprio protagonismo. Perda de toda uma esquerda fordista que funciona hoje como a “vanguarda da retaguarda” mais conservadora até que muitas dinâmicas do próprio mercado!

Entre os problemas mais gritantes destaco:

1.O texto não consegue configurar que os movimentos e articulações, ainda que incipientes, das marchas das liberdades em todo Brasil não são “a nova classe dominante”, mas a emergência de um movimento transversal, “movimento de movimentos”, com dinâmica própria e singular em cada território, com uma pauta heterogênea, aberta e em construção, sem “central única” ou “comando” dos “iluminados”, que se auto-organiza e cujos “fins” não foram dados a priori!

2. Não se trata de uma “nova classe média liberal”, nem “nova classe dominante”, “despolitizada”, mas de um arranjo transversal que junta e agrega o chamado precariado urbano, a nova força de transformação no capitalismo contemporâneo.

3. Ou seja, movimentos como os das marchas (e tantos outros) ou o Circuito Fora do Eixo são a base de um novo ativismo contemporâneo, a da emergência do precariado cognitivo, ou cultural, ou seja, da explosão e da percepção que o sistema trabalhista fordista e previdenciário clássicos não dão mais contas da dinâmica de ocupações ‘livres’ (mesmo que frágeis e sem segurança) no capitalismo da informação. E que essa precariedade e autonomia não significa apenas “vitimizar” e “assujeitar” é uma potência para novos arranjos, alianças e lutas.

4. O Circuito Fora do Eixo é, no meu entender, um dos mais potentes laboratórios de experimentações das novas dinâmicas do trabalho e das subjetividades. Que tem como base: autonomia, liberdade e um novo “comunismo” (construção de Comum, comunidade, caixas coletivos, moedas coletivas, redes integradas, economia viva e mercados solidários).

Estão FORA do eixo/fetiche da esquerda por trabalhadores assujeitados na relação patrão/empregado! Mas tem enorme potência para articularem não apenas a classe média urbana, mas se articularem com os pobres e precários das periferias e favelas, ao se conectarem com outras redes como a da CUFA e outras, que junta os jovens negros e pobres para outras marchas como a do Direito a Moradia, em preparação. Além de outras articulações sem medo de “aparelhamentos” seja das corporações, dos partidos, ou do Estado. Sem demonizar as relações com os mercados, mas inventando e pautando, “criando” outros mercados, fora da lógica fordista do assujeitamento.

5. Ou seja, o Fora do Eixo entendeu que o modelo na produção cultural é o modelo de funcionamento do próprio capitalismo.

Não mais o capitalismo fordista da “carteira assinada” mas o dos zilhões de free-lancers, autônomos, diplomados sem empregos, sub-empregados, camelôs, favelados, contratados temporários, designes, artistas, atores, técnicos, que ou “vendem” sua força livre de trabalho com atividades flutuantes temporárias, ou se ORGANIZAM e INVENTAM o próprio emprego/ocupação e novos circuitos, como tem feito de forma incrivelmente bem sucedida o Circuito Fora do Eixo, resignificando e potencializando o imaginário de jovens no Brasil inteiro.

Uma esquerda pós-fordista que está dando certo, que inventa estratégias de Mídia, que inventa “mercados” solidários, contrariando os anunciadores do apocalipse.

6. A ideia de que, para se ter “direitos”, é preciso se “assujeitar” em uma relação de patrão/empregado, de “assalariamento”, é uma ideia francamente conservadora. O precariado cognitivo, os jovens precários das economias da cultura estão reinventando as relações de trabalho; os desafios são enormes, a economia pós-Google não é fordista, não é melhor nem pior que as velhas corporações, mas abre para outras dinâmicas e estratégias de luta, EM DISPUTA!

Não vamos combater as novas assimetrias e desigualdades com discursos e instrumentos da revolução industrial!!! Como faz o texto na sua argumentação redutora e tendenciosa.

Não é só o capitalismo financeiro que funciona em fluxo e em rede, veloz e dinâmico. As novas lutas e resistências passam por essas mesmas estratégias.

O Fora do Eixo está apontando para as novas formas de lutas, novas estratégias e ferramentas, que inclui inclusive PAUTAR AS POLITICA PUBLICAS, PAUTAR o Parlamento, PAUTAR A MIDIA, Pautar a Globo, como as marchas conseguiram fazer! Ser bem sucedido ai, onde muitos fracassaram, é o que parece imperdoável!

Há um enorme ressentimento no texto, mal disfarçado, diante de tanta potência, lida pela chave mesquinha da “luta por poder”, “captalização de prestígio”, da “nova classe dominante”. O objetivo infelizmente parece ser o de desqualificar, rotular e “neutralizar” os que são os novos aliados de uma radicalização do processo democrático no Brasil, que estão inovando na linguagem e nas estratégias. “Perigo” que ameaça a jovem/velha esquerda, que perde protagonismo em todas as esferas, incapaz de dialogar com esse novo e complexo cenário, com todos os seus riscos. Experimentar = se expor aos riscos.

7. Como dizem os ativistas italianos: “Odeia a Mídia? Torne-se Mídia”. A velha esquerda foi incapaz de fazer frente as velhas corporações, perdeu para a mídia de massas, conseguiu pautar algumas politicas públicas, mas está francamente perdida no capitalismo dos fluxos e das redes. Não sabe como resistir, nem inovar, nem experimentar, nem ousar. Está tristemente na retaguarda do próprio mercado!!!

8. O artigo parece ter como horizonte a luta por cartórios do século XIX!!! Com estratégias e palavras de ordem abstratas, um “anticapitalismo” vago que perdeu o sentido. Pois as novas lutas são em FLUXO, são modulações, não são MOLDES PRE-FABRICADOS, não são sequer anti-capitalistas, no sentido estrito, pois estão hackeando o capitalismo, se apropriando de suas estratégias para resignificar o COMUNISMO das redes, no sentido mais radical de um comunismo DENTRO do próprio capitalismo, esquizofrenia do sistema que produz hoje um horizonte do COMUM, que temos que construir e pelo que temos que lutar.

9. É preciso dizer ainda que “não existe UM outro mundo”, não existe “fora do capitalismo” (como diz Guattari e Negri) só existe esse mundo aqui, em processo, mutante, imanência radical, e é deste mundo aqui (um rio que vem de longe…) que iremos inventar outros tantos mundos, no plural.

10. O Fora do Eixo, nas suas práticas de criação de comum e comunidades (que o texto detecta mas distorce) e politização do cotidiano, não é o “inimigo” a combater, estão forjando as novas armas para os movimentos em fluxo, então criando redes, fazendo midiativismo, estão relendo e re-inventando, de forma empírica e genial, dinâmicas e processos decisivos dos embates políticos: situacionismo, Maio de 68, experiências de Seatle, hackerativismo, cultura livre, estão na deriva e na luta. A “geração em rede” não mascara nenhum tipo de “conteúdo político oculto e perigoso” que precisa ser desmascarado, ela é o novo conteúdo e linguagem política, ela encarna as novas lutas e está inventando futuros alternativos. (IB)

* Publicado originalmente no site Trezentos.


contributor

Pesquisadora e professora da Escola de Comunicação da UFRJ e coordenadora do Pontão de Cultura Digital da ECO-UFRJ.

4Comentários

  • Jorge Iuri SP, 26 de junho de 2011 @ 11:15 Reply

    Excelente texto que esta despertando uma grande polemica em diferentes redes. Acho importante o Cultura e Mercado postar aqui, ja que a discussao eh justamente sobre um ponto de vista totalmente novo do que este proprio site vem discutindo. Pela primeira vez me identifiquei com uma questao que ja intuia faz tempo: que nem a esquerda tradicional nem os arautos do mercado estao conseguindo fazer essa discussao, pois pensam dentro dos velhos esquemas e conceitos. Texto iluminado o da Ivana Bentes, cheio de intuições e proposições que podem ser desenvolvidas e aprofundadas. Gostei da forma como ela usa teoria de uma forma engajada e sem medo de aplicar a questoes contemporaneas. Eh isso que as universidades deveriam fazer sempre! Parabes Ivana Bentes, virei seu admiraador e vou buscar as referencias indicadas.

    Gostei também deste comentário abaixo num primeiro debate ao Vivo do Fora do Eixo na internet sobre o tema. O pessoal do Passa Palavra “se recusa a participar de debate com projetos “anticapitalistas” (risos) o que dá bem o tom do dogmatismo e da vontade de ficar falando dentro de um grupelho fechado, entre eles, os puros, dessa curiosa Igreja Dogmatica do Apocalipse!!!

    O ideologo do Passa Palavra , joão Bernardo, (portugues) é um sujeito (tive que ir ao Google pois nunca ouvi falar) que lançou a teoria dos gestores e aplicam isso de forma automatica (tipo manualzino e cartilha) aos mais variados fenomenos e movimentos. Saem colando a etiqueta!!! So existem ELES os puros revolucionarios e o “resto”, com quem nao dialogam para nao se contaminarem.

    Os Passa Palavras mesmo sao uma especie de novos gestores das ruinas do dogmatismo. Vao gerir uma massa falida, he he he! Enquanto todos os demais movimentos discutem entre si, fazem aliancas, debatem e vão das redes as ruas e vice-versa eles continuarao no conforto da sua seita, tomando o chazinho das Cinco entre eles e julgando o mundo. Uma juventude que ja nasceu VELHA!

    Viva o não-dogmatismo e a inteligencia!

    André Azevedo da Fonseca 25/06/11 17:21 escreveu

    A coisa está pegando fogo, hein!?
    Fiquei muito tentado a entrar da discussão, mas preferi me conter para analisar mais e continuar estudando.

    Aqui entre nós, vejo que há excesso de má vontade no artigo do PassaPalavra. Não sou desses paranóicos que adoram teorias conspiratórias, mas o texto quase parece uma retaliação. Talvez, para desqualificar o Fora do Eixo e, portanto, desqualificar os modelos que vocês estão propondo ou, quem sabe, as críticas que fazem ao novo MinC.

    O texto se apropria da estética de um artigo acadêmico para sugerir respeitabilidade (tem referências bibliográficas, divisão em sub-capítulos), mas a primeira acusação (de que o FDE está enraizado nos aparelhos do Estado) vem de “um entrevistado” não identificado. Ou seja, uma opinião decisiva vinda de uma fonte totalmente anônima. Quem disse isso? De onde a pessoa diz? Quais os seus propósitos? Não sabemos. Portanto, podemos questionar: Qual a validade de uma opinião anônima? Isso demonstra o caráter panfletário, e não analítico, do texto.

    Há um equívoco quando associam a criação do Partido da Cultura ao combate á Ana de Hollanda, pois o PCult é anterior. Seria mais correto associá-lo ao clima de mobilização estimulado pelas conferências de cultura. (O que acha Capilé?) É interessante notar que o texto interpreta esse diálogo entre governo Luls e sociedade civil de forma pejorativa, entendendo a dinâmica como uma mera “pacificação dos movimentos sociais”.
    É perceptível também que o texto se prende às noções tradicionais da política e da disputa por poder em instâncias partidárias, além de estar ainda refém das dicotomias ideológicas do século XX (“esquerda?” “liberal?”).

    É visível que os autores ignoram a discussão sobre culturas híbridas de Canclini (as culturas “populares” são ressignificadas e se relacionam com o mercado com mais naturalidade do que o purismo dos folcloristas gostaria de ver em suas idealizações ) e Martin- Barbero (que mostra as tramas de cumplicidade entre discursos hegemônicos e subalternos e critica o esquematismo dos frankfurtianos, inadequados para as realidades da América Latina). E mesmo Maffesoli, que ao contrário de Bourdieu (que também é ótimo. Eu usei muito em minha tese), evidencia a importância do componente lúdico e mítico nas novas configurações políticas expressas pelas tribos urbanas. (O FDE tem algumas características da tribo maffesoliana, mas tampouco se enquadra por completo no conceito.)

    Ao afirmar que o FDE passou a “buscar meios para chegar na política” o texto mostra não perceber que o FDE já está fazendo política no campo da cultura, do comportamento, do cotidiano, estabelecendo vínculos transversais entre cultura, política e mercado. Mostra que os autores do texto estão presos à visão tradicional, ainda em voga (e mais: perfeitamente legítima, por que não?! ) encontrada nos projetos políticos pessoais de parte significativa de ativistas desta mesma geração, porém partidários de outras organizações, tais como a UNE, a UJS, o Rotaract, o LEO, etc. E o curioso é que isso (a perspectiva cultural da política do cotidiano) nem é propriamente uma novidade do século 21. (Lembro-me de ter ouvido isso muito nos encontros do SOMA com Roberto Freire nos anos 1990.)

    É injusto também sugerir que o combate à Ana de Hollanda estaria ligado a uma suposta dificuldade de obter recursos do Ministério da Cultura. Um dos pontos interessantes da sustentabilidade dos FDE é precisamente a competência que eles desenvolvem para elaborar projetos e captar recursos nas mais diversas fontes de financiamento público, privado , do terceiro setor e, recentemente, por financiamento coletivo. Ora, falar que o FDE garante a “exclusividade na apropriação dos recursos” com uma Lei Rouanet que autoriza a Disney Ice captar 5 milhões é muita má vontade.

    Se os autores tivessem mesmo a vontade de compreender, ora, teriam entrevistado alguns membros. Acusar o Fora do Eixo de agir “sem a menor preocupação ideológica” é desconhecimento. André
    Azevedo da Fonseca 25/06/11 17:21

  • fabricio kc, 28 de junho de 2011 @ 11:57 Reply

    Ivana Bentes acerta, confirmando seu profundo e amplo conhecimento sobre os temas em pauta, em todos os argumentos aos quais recorre para oferecer um panorama conceitual dos atuais processos sócio-políticos e culturais, que se baseiam e se alimentam de movimentos transversais e heterogêneos. Mas erra ao aplicar todos esses argumentos também às ações e escopos do Coletivo Fora do Eixo, como se o Coletivo fosse um exemplo suficiente desses novos processos.

    Eu creio que o Fora do Eixo ocupa um lugar importante no cenário cultural e sobretudo no mercado criativo do Brasil de agora, mas essa defesa entusiasmada de Ivana Bentes falha ao corroborar o artigo do Passa Palavra ao mesmo tempo em que quer negá-lo: afinal, acaba por centralizar e personificar todos os potenciais dos movimentos livres no modelo de atuação do Fora do Eixo, tornando-o protagonista de um processo em que ele é apenas coadjuvante! O afã de defender as estimulantes e múltiplas possibilidades de um novo capitalismo acabou por resultar numa defesa desnecessária e sobretudo superestimada do Coletivo Fora do Eixo!

    Vejo com clareza que o Coletivo Fora do Eixo não é de esquerda nem de direita, mas uma rede de entidades (inclusive empresariais) que realiza e participa de ações que mantêm escopos relacionados ao mercado da cultura e acabam por percorrer esferas diversas da participação política, seja colaborando com o Governo na elaboração dos editais em que eles mesmos concorrem, seja centralizando a articulação de movimentos livres, de classes médias, com bandeiras ativistas amplas (ainda que resumidas na ideia central de Liberdade).

    Romantizar o Coletivo Fora do Eixo também não é caminho pertinente. Se Pablo Capilé queria o patrocínio da Coca-Cola para realizar a marcha da Liberdade, eu não vejo motivo para discussão (embora eu considere isso lastimável: o patrocínio não aconteceu, mas cogitá-lo revela algo…). Mas para quem acompanha minimamente as ações do coletivo no que se refere às articulações ativistas nas redes, fica patente a posição hierárquica de liderança assumida por Pablo Capilé, demonstrando, pelo menos na dimensão prática, uma estrutura hierárquica bem definida (e legítima, sem dúvida). Logo, o Coletivo constitui um exemplo de inovação e de exploração de novas potencialidades de mercado cultural dentro do sistema, mas não vai muito além disso – muito menos alcança um patamar de vetor político dos jovens que usam Twitter e Facebook.

    Por fim, acho que o artigo do Passa Palavra não merece a desqualificação conjuntural que Ivana Bentes tentou justificar apontando, inclusive, a falta de um arsenal teórico e afirmando que o artigo reflete medo e ressentimento de uma esquerda ultrapassada diante das mudanças estruturais. Ressentimento, sinceramente, percebi em ambos os artigos (cada um a sua maneira e por razões diversas), mas o artigo do Passa Palavra traz sim reflexões pertinentes que exigiriam não uma refutação apressada, mas sim um debate mais cauteloso.

    Por exemplo:

    As Marchas da Liberdade trazem em si – para além do seus significantes simbólicos – um efetivo poder de transformação política e social das atuais estruturas de poder? Claro que a marcha e as suas dinâmicas de articulação (que envolvem diretamente ferramentas da web) contribui para, quem sabe, o fortalecimento de novos processos de participação – mas não acho justo argumentar que as classes médias conectadas, interessadas em consolidar estilos de vida consumistas/sustentáveis – sem objetivar uma mudança estrutural nos modelos de produção hegemônicos – são o novo vetor da ação política verdadeiramente transformadora. (Ivana Bentes até argumenta que esse modelo de organização da Marcha da Liberdade pode vir a envolver “os pobres e precários das periferias e favelas” – esse argumento merecia mais do que uma linha! :( ).

    O Coletivo Fora do Eixo é mesmo o melhor emblema desses novos movimentos e possibilidades que estão surgindo dentro do capitalismo chamado cognitivo? O Coletivo tem como base a autonomia, liberdade e um novo “comunismo”, como afirmou Ivana Bentes? (e o fez, aliás, num trecho de sua resposta que é obscuro e cheio de talvezes, que é o item 4 dos problemas que a autora enumera).

    Há, na abordagem de Ivana Bentes, contradições importantes dos movimentos em questão que foram ignoradas. O objetivo deste pequeno texto, portanto, é unicamente ampliar o debate para que os movimentos livres nascentes cresçam em potência e em alcance e, sobretudo, consigam o êxito de se inserirem, com algum grau de efetividade, nos reais processos de transformação social que são, pensando nas novas tendências, autenticamente autônomos, independentes e inevitáveis!

    por fabricio kc

  • mellyra, 28 de junho de 2011 @ 16:16 Reply

    Uma leitura mais cautelosa sobre os temas tratados mostra que as coisas não são tão simples assim. O afã de querer elaborar uma teoria para legitimar as “novas”articulações, por si só, já diz algo: todos querem o crédito.

    sugiro a crítica construtiva do Fabriciokc.

    NEM ESQUERDA, NEM DIREITA, NEM FORA DO EIXO! IVANA BENTES E O ARTIGO DO PASSA PALAVRA.

    Contexto:

    O projeto/coletivo Passa Palavra publicou um artigo intitulado “A esquerda fora do eixo”, abordando as últimas mobilizações em São Paulo e apontando a “fragilidade prática e teórica da esquerda num cenário de ascensão e transformação econômica”.

    Inicialmente o texto faz uma resenha política, por assim dizer, dos movimentos livres que aconteceram em São Paulo, incluindo a Marcha da Liberdade, que ampliou-se para uma mobilização nacional, realizada no dia 18 de junho, envolvendo pelo menos 40 cidades em todo o Brasil. Em seguida apresenta a sua visão do Coletivo Fora do Eixo (um dos núcleos articuladores da Marcha), analisa as relações do Coletivo com a esfera pública cultural e política e também com o mercado da cultura. Por fim, acusa fragilidade política e social nos movimentos por eles não apresentarem um conteúdo político efetivamente e estruturalmente transformador, e acusa o Coletivo Fora do Eixo de vislumbrar, através de certa apropriação simbólica dos movimentos, a ampliação de sua representatividade perante possíveis públicos de suas ações culturais e de negócios alternativos.

    Como resposta a este artigo, a pesquisadora Ivana Bentes publicou no blogue trezentos o texto “A Esquerda nos Eixos e o novo ativismo”, no qual defende os movimentos em questão como uma forma de participação social, cultural e política que reflete as novas conjunturas do capitalismo cognitivo e das novas ferramentas tecnológicas que propiciam articulações em rede, descentralizadas, que embora não proponham um novo sistema como alternativa ao capitalismo, criam novas dinâmicas e reinventam processos dentro do próprio sistema, renovando-o, hackeando-o, através de novas estratégias e modelos de ação coletiva autônomos e inovadores. Para reforçar a sua posição, Ivana Bentes faz uma defesa conceitual da importância do Coletivo Fora do Eixo e tacha o artigo do Passa Palavra de velha esquerda incapaz de lidar com as novas formas de mobilização e de compreender os novos cenários, novos agentes e incertas possibilidades do capitalismo cognitivo.

    Comentário

    A minha análise, bem simples é verdade, conclui que Ivana Bentes acerta, confirmando seu profundo e amplo conhecimento sobre os temas em pauta, em todos os argumentos aos quais recorre para oferecer um panorama conceitual dos atuais processos sócio-políticos e culturais, que se baseiam e se alimentam de movimentos transversais e heterogêneos. Mas erra ao aplicar todos esses argumentos também às ações e escopos do Coletivo Fora do Eixo, como se o Coletivo fosse um exemplo suficiente desses novos processos.

    Eu creio que o Fora do Eixo ocupa um lugar importante no cenário cultural e sobretudo no mercado criativo do Brasil de agora, mas essa defesa entusiasmada de Ivana Bentes falha ao corroborar o artigo do Passa Palavra ao mesmo tempo em que quer negá-lo: afinal, acaba por centralizar e personificar todos os potenciais dos movimentos livres no modelo de atuação do Fora do Eixo, tornando-o protagonista de um processo em que ele é apenas coadjuvante! O afã de defender as estimulantes e múltiplas possibilidades de um novo capitalismo acabou por resultar numa defesa desnecessária e sobretudo superestimada do Coletivo Fora do Eixo!

    Vejo com clareza que o Coletivo Fora do Eixo não é de esquerda nem de direita, mas uma rede de entidades (inclusive empresariais) que realiza e participa de ações que mantêm escopos relacionados ao mercado da cultura e acabam por percorrer esferas diversas da participação política, seja colaborando com o Governo na elaboração dos editais em que eles mesmos concorrem, seja centralizando a articulação de movimentos livres, de classes médias, com bandeiras ativistas amplas (ainda que resumidas na ideia central de Liberdade).

    Romantizar o Coletivo Fora do Eixo também não é caminho pertinente. Se Pablo Capilé queria o patrocínio da Coca-Cola para realizar a marcha da Liberdade, eu não vejo motivo para discussão (embora eu considere isso lastimável: o patrocínio não aconteceu, mas cogitá-lo revela algo…). Mas para quem acompanha minimamente as ações do coletivo no que se refere às articulações ativistas nas redes, fica patente a posição hierárquica de liderança assumida por Pablo Capilé, demonstrando, pelo menos na dimensão prática, uma estrutura hierárquica bem definida (e legítima, sem dúvida). Logo, o Coletivo constitui um exemplo de inovação e de exploração de novas potencialidades de mercado cultural dentro do sistema, mas não vai muito além disso – muito menos alcança um patamar de vetor político dos jovens que usam Twitter e Facebook.

    Por fim, acho que o artigo do Passa Palavra não merece a desqualificação conjuntural que Ivana Bentes tentou justificar apontando, inclusive, a falta de um arsenal teórico e afirmando que o artigo reflete medo e ressentimento de uma esquerda ultrapassada diante das mudanças estruturais. Ressentimento, sinceramente, percebi em ambos os artigos (cada um a sua maneira e por razões diversas), mas o artigo do Passa Palavra traz sim reflexões pertinentes que exigiriam não uma refutação apressada, mas sim um debate mais cauteloso.

    Por exemplo:

    As Marchas da Liberdade trazem em si – para além do seus significantes simbólicos – um efetivo poder de transformação política e social das atuais estruturas de poder? Claro que a marcha e as suas dinâmicas de articulação (que envolvem diretamente ferramentas da web) contribui para, quem sabe, o fortalecimento de novos processos de participação – mas não acho justo argumentar que as classes médias conectadas, interessadas em consolidar estilos de vida consumistas/sustentáveis – sem objetivar uma mudança estrutural nos modelos de produção hegemônicos – são o novo vetor da ação política verdadeiramente transformadora. (Ivana Bentes até argumenta que esse modelo de organização da Marcha da Liberdade pode vir a envolver “os pobres e precários das periferias e favelas” – esse argumento merecia mais do que uma linha! :( ).

    O Coletivo Fora do Eixo é mesmo o melhor emblema desses novos movimentos e possibilidades que estão surgindo dentro do capitalismo chamado cognitivo? O Coletivo tem como base a autonomia, liberdade e um novo “comunismo”, como afirmou Ivana Bentes? (e o fez, aliás, num trecho de sua resposta que é obscuro e cheio de talvezes, que é o item 4 dos problemas que a autora enumera).

    Há, na abordagem de Ivana Bentes, contradições importantes dos movimentos em questão que foram ignoradas. O objetivo deste pequeno texto, portanto, é unicamente ampliar o debate para que os movimentos livres nascentes cresçam em potência e em alcance e, sobretudo, consigam o êxito de se inserirem, com algum grau de efetividade, nos reais processos de transformação social que são, pensando nas novas tendências, autenticamente autônomos, independentes e inevitáveis!

  • JC Lobo, 29 de junho de 2011 @ 10:48 Reply

    Esse está sendo um dos debates mais interessantes dos últimos tempos, ao menos para aqueles que acham que “um novo mundo é possível”.
    O pessoal do passapalavra ainda está muito preso a alguns velhos conceitos da esquerda tradicional. Assim, criticam todo o movimento contestatório que não se enquadra nesses conceitos. E o fazem com muitos equívocos, mas também com alguns méritos. Enfim, estamos vivendo um processo bem curioso, que ainda vai levar alguns anos. Me preocupam duas coisas: 1) a débil incorporação das chamadas “classes populares”, pois ainda vejo o movimento muito restrito as camadas médias intelectualizadas (pode ser miopia minha, mas ainda vejo assim); 2) uma certa rejeição da política partidária, deixando a caminho livre para a escória política. Vejo o caso espanhol: rejeitou-se o PSOE, mas deu a vitória ao conservadorismo da pior espécie. Me vem a cebeça um livro do Zizek, cujo título induz ser uma defesa do legado Lênin, mas que toca em pontos essenciais desse debate.

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