Música, desde o surgimento da indústria fonográfica nos primórdios do século XX, é negócio. Não que previamente não tivesse valor econômico; porém o processo de transformação de música em produto, com o advento da revolução industrial e com os aparatos de gravação e reprodução, quantificou a música em diversos bens tangíveis. Até então, era uma experiência em que a audiência dependia de pessoas tocando em salas, teatros e câmaras de concerto. A fruição da música mudou, deixando de ser definida por tempo e espaço, tornando-se passível de não depender de pessoas, mas sim de tecnologias.
Hoje, o que vivemos é uma combinação da condição prévia à construção da indústria fonográfica – música como experiência, tocada ao vivo e com plateias – e os produtos e todas suas diferentes formas de consumo.
Falar de música e negócios tem, por natureza, um efeito contraditório. Entende-se música como arte, por seu principio lúdico e transcendental, seu efeito quase espiritual – ou nem tão quase assim. Mercado, por sua vez, é considerado por muitos daqueles que habitam o campo da arte um sistema opressor e oportunista, onde a materialidade impera sobre o que vem da alma. Sem entrar em profundos arroubos, sabemos da combinação ambígua na esfera aonde a música se encontra – sua dimensão econômica e social, operando numa sociedade onde a tangibilidade constrói relações. Por isso torna-se fundamental compreender seus processos artísticos e significantes, desmistificando práticas e saberes.
Diga-se isto porque há a mítica sobre os processos de mercado previamente vistos nos artistas que trilharam caminhos de fama e sucesso. Sabe-se dos milhões de libras, títulos da Coroa e resultados de uma carreira como a de Paul McCartney – mesmo sendo questionado who the ***k is Paul McCartney por gerações mais novas. Sabe-se que, atualmente, na primeira posição da economia oriunda da criatividade no Reino Unido, encontra-se a música. Sabe-se o quanto o mercado de música popular no Brasil – do sertanejo universitário a todos os estilos universitários vigentes – movimenta milhões de reais/ano. Sabe-se de grandes festivais, com suas ações de experiência do usuário e marketing muitas vezes mais consideradas que o artista e sua trajetória em cima do palco – mesmo que esse ainda seja o assunto mais falado em redes sociais, demonstrando que as jovens bandas milionárias dos anos ’80 não são mais as mesmas. Sabe-se, também, do cantor de barzinho, do player instalado em aplicativos nos celulares, de que tocadiscos e em tocafitas são palavras que os millenials só ouvem dos seus pais e avós, e daquele artista que milhões de youtubers conhecem mas ainda não fez um show em lugar algum.
A questão aqui é: como sabe-se sobre tudo isso? Há, nessa mítica, uma propensão a ler o mercado pela crítica, pelo jornalismo cultural, pelo que se discute em bares ou pelo efeito de público que a música provoca, preceitos esses que não são esclarecidos e didáticos. Nesse ínterim, para quem sonha ou almeja fazer parte deste universo, transcender o sonho é descobrir porque esses efeitos são tão avassaladores para quem vive de música. E, claro, transcender o sonho é aprender a produzir esses tais efeitos e ter controle sobre eles, para aproximar-se da realidade em que a música mexe com a vida das pessoas.
Então aqui fala-se de processo onde a música encontra o negócio. Entender este processo é o santo graal no mundo dos artistas e de todos os produtos, serviços e experiências onde a música está. Quem vira esta chave abre o mundo dos segredos, aparentemente tão bem guardados, por aqueles habituados a ter a música como fonte de trabalho e renda.
Esses segredos, contudo, são os mesmos conhecimentos e práticas que orientam qualquer negócio. Sem desmerecer qualquer tipo de talento artístico e criativo, o processo de formalização é bastante semelhante em todos os setores: comunicação e relacionamentos, redes e networking, desenvolvimento e gestão de projetos, organização financeira, conhecimento sobre propriedade intelectual, projetação para o futuro e construção de cenários, entre outros conhecimentos. Cabe ao sujeito que sonha que a arte e a criatividade transcenda as barreiras para o sucesso compreender as dinâmicas deste sistema econômico, construído sob os mesmos moldes das indústrias e suas revoluções tecnológicas. Ao entender como o sistema funciona, desconstruí-lo e tangenciá-lo pode ser visto como uma alternativa.
Logo, a capacitação para os negócios de música, compreendendo sua cultura – seu ecossistema, práticas, recursos, pessoas e relacionamentos é, provavelmente, a forma mais efetiva de criar condições para a música ser vista como atividade econômica, e não apenas hobbie, como muitos percebem.
Por fim, é necessário entendermos que vivemos em um sistema onde este fazer é aliado à transformação social, ao bem comum, a construção de significado e sentido para a vida, e ainda com a possibilidade de pagarmos nossas contas trabalhando com o que gostamos. Só precisamos compreender como fazer disto uma prática diária que nos sustente, e incentivar para que mais pessoas encontrem sentido nesse meio.
*Iuri Freiberger é coordenador do curso Música e Negócios, que acontece entre os dias 18 de outubro a 9 de dezembro, no Cultura e Mercado. Clique aqui para ver a programação.