Foto: J.Gil
Aqui você encontra todas as fragilidades da proposta que o Ministério da Cultura apresentou como sendo a tão desejada Reforma da Lei Rouanet. Muitos desses apontamentos fiz a partir das palavras de diversas pessoas que participaram do primeiro debate promovido pelo Cultura e Mercado na última quarta-feira juntando à eles dados que foram extraídos do trabalho de organização de dados feito pelo Observatório do Itáu Cultural.

Este primeiro debate que era para discutir a questão da relevância cultural, foi muito além e expôs todas as mazelas da atual proposta, além de colocar em pratos limpos a realidade sobre os argumentos daqueles que criticam a Lei Rouanet baseados em preconceitos e não em uma análise mais acurada da realidade da produção cultural e do seu financiamento.

O MINISTÉRIO DA CULTURA DIZ QUE QUER REFORMAR A LEI ROUANET MAS A PROPOSTA APRESENTADA É EXTREMAMENTE PRECÁRIA.

O ministério da Cultura faz propaganda para dizer que quer reformar a Lei Rouanet, melhorando-a.
A realidade é que a proposta de lei que o MinC enviou  para consulta pública é ruim tecnicamente e não resolve nenhuma das questões apontadas pelo Ministério, a exemplo da tão criticada concentração regional e em projetos.
Tudo nesta proposta é deixado para ser detalhado “conforme o regulamento” e não se sabe qual regulamento é esse. Então todos percebemos que é como se estivéssemos assinando um cheque em branco para o MinC  escrever o que quiser.

Além do mais , esta proposta revoga a lei anterior e todos os seus instrumentos, sendo portanto não uma reforma e sim a completa destruição de um dos mais importantes mecanismos de financiamento da cultura do país.

O DISCURSO DO MINISTÉRIO PODE SER  BONITO E BEM ARTICULADO (MAS MUITAS VEZES EQUIVOCADO COMO PROCURAREMOS DEMONSTRAR ABAIXO). A PROPOSTA ENVIADA NÃO REFLETE EM NADA AQUILO QUE ELE PROMETEU COMO REFORMA.

O MINISTÉRIO DA CULTURA DIZ QUE QUER COMBATER A CONCENTRAÇÃO DOS RECURSOS DA LEI ROUANET,  MAS A SUA PROPOSTA É INCAPAZ DE FAZER ISSO.

• O Ministério da Cultura faz propaganda para dizer que a concentração regional dos recursos no Sudeste  e em poucos proponente é um problema da Lei Rouanet e que quer combatê-las.

A realidade é que na proposta enviada não existe nenhum instrumento que seja capaz de promover a desconcentração. O que existe é o estabelecimento de faixas de isenção escalonadas cujos critérios não são definidos. Dizem que serão critérios claros e objetivos, mas novamente tudo é deixado para o “regulamento” que não sabemos qual será. Assim, o Minc deixa para a nossa imaginação inferir que além de querer julgar o mérito da relevância cultural dos projetos (o que na minha opinião é o mais completo absurdo e  abre a porta para todo tipo de arbitrariedade ideológica), poderão estabelecer que um projeto cultural no nordeste deve receber um percentual de renúncia maior que um projeto no Sudeste.

ISSO NÃO TERÁ NENHUM EFEITO PARA DIMINUIR A CONCENTRAÇÃO REGIONAL, pois nada fará com que uma empresa que não tenha interesse em investir no nordeste o faça. Isso só vai prejudicar a produção cultural do Sudeste sem transferir os recursos para as regiões mais carentes.

Criar uma escala de isenção pelo suposto mérito do projeto não resolve. O que pode ajudar a resolver é, além de promover a capacitação nas regiões que necessitam, criar uma nova escala no teto da renúncia fiscal para que empresas médias e pequenas possam investir volumes viáveis para contribuir para o financiamento da cultura.
Um exemplo seria começar com 4% para empresas com lucro acima de R$ 7 milhões (como é na atual Lei Rouanet) chegando à 35% para empresas com lucro de R$ 1 milhão. Tanto uma empresa quanto outra poderiam investir igualmente os mesmos R$ 50 mil com isenção fiscal. No atual sistema a empresa que lucra R$ 1 MM só pode investir R$ 6 mil e se beneficiar fiscalmente. E quantas empresas você conhece hoje que lucram mais do que R$ 1 milhão ?

Talvez para desconcentrar, esse teto tivesse que ser ainda maior para as empresas menores. Temos que aumentar o universo dos potenciais patrocinadores para que as médias e pequenas empresas  possam investir mais e beneficiar os pequenos produtores culturais em outras regiões, sem depender das grandes empresas.

Alérm disso, se analisarmos a distribuição regional dos  recursos do Fundo Nacional da Cultura diretamente administrados pelo ministério, veremos que o próprio MinC  contribui para  manter a concentração regional.
De 2002 à 2007 o Rio de Janeiro recebeu 25% dos recursos do Mecenato (patrocinado pelas empresas) e recebeu 26% do que foi distribuído pelo Fundo Nacional da Cultura, administrado pelo MinC. Já São Paulo e Minas que receberam 54% dos recursos do Mecenato (artigo 18 + 26 , empresas) também continuaram a receber uma grande parte do FNC. receberam juntos 25% do total do bolo do FNC (MinC). (fonte: MinC 2002-2007)

O mais grave é observar que cada um dos  estados  Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Espírito Santo, Maranhã e Mato Grosso do Sul que receberam cada um valor  próximo de 0% do Mecenato, também receberam um valor próximo de 0% do total aplicado pelo Fundo Nacional da Cultura administrado pelo MinC. (fonte: MinC 2002-2007)
Portanto é evidente, que o Fundo Nacional da Cultura diretamente administrado pelo MinC não está trabalhando como deveria para contrabalançar a concentração regional como querem nos fazer acreditar. Portanto estão mascarando o problema  e utilizando os dados da concentração regional de maneira demogógica.

Adiciona-se a isso o fato de que se analizarmos os números do Mecenato, de 2002 à 2007, as 6 principais estatais que investem no Mecenato, nas quais o MinC participa das decisões de investimento,  investiram R$ 1,2 bi  na Lei Rouanet que é o dobro do que foi investido pelos 6 maiores patrocinadores privados, que foi de  R$ 600 milhões.
Se o Mecenato se concentra na região Sudeste (MG, RJ e SP)  e o governo através das estatais  concentra os grandes volumes de patrocinio pelo Mecenato, então ele próprio contribui para a concentração regional que tanto critica.
Isso tudo acontece por que o governo também é malvado como o mercado ? Não.

Ocorre por que a  concentração regional tem causas estruturais. Essas causas estruturais não são em nada  combatidas pela atual proposta e também não foram  geradas pelo texto da Lei Rouanet atual como querem que se acredite.

Essa é uma visão simplista incapaz de fazer uma análise mais profunda das causas da concentração regional e portanto incapaz de combatê-la.  A realidade é que a concentração regional do financiamento da cultura pela Rouanet é resultado de vários fatores. Para citar alguns:

a-) A população brasileira está concentrada no sudeste. (SP, RJ e MG tem 40% da população)

b-) O PIB está concentrado no sudeste. (SP, RJ e MG concentram 55% do PIB)

c-) Há um maior número de proponentes capacitados a lidar com a produção cultural de forma profissionalizada no sudeste, e que aprenderam a interagir com a mundo empresarial e canalizar os recursos da renuncia fiscal através da decisão das empresas que apóiam os seus projetos.

Pelos dados que se pode extrair dos números que o MinC disponibiliza, SP, RJ e MG concentram juntos 79% dos recursos do Mecenato, mas este número além de ter que ser  relativizado pelos fatores PIB e população na realidade provavelmente é bem menor. Vejamos.

Os números da concentração que o Ministério da Cultura apresenta não são confiáveis, pois se um proponente tem sede no sudeste e executa o seu projeto cultural no nordeste, na contabilidade do Minc  ele aparece como sendo do sudeste quando na verdade estava beneficiando outra região. Existem inúmeros exemplos como esse, mas o MinC finge que isso não existe pois enfraquece a tese que quer vender para a sociedade.

Ou seja, o número da concentração regional apresentado pelo Minc deve ser revisto com a abertura  e a transparência que não existem hoje. Os dados devem ser cruzados com outras estatísticas para entender o problema. Se isso for feito, a concentração regional tão propalada será relativizada.

Fonte dos dados: (MinC-2002-2007 e PIB e população IBGE 2005)

É preciso interpretar os dados com bom senso a fim de  aperfeiçoar a Lei Rouanet sem destruir o que está funcionando.

É preciso promover a capacitação da produção cultural nas regiões que dela necessitam e aumentar o percentual de isenção para pequenas e médias empresas para fazer com que o aumento do universo de patrocinadores beneficie essas regiões e sua produção artística. Só assim estaremos promovendo o efetivo desenvolvimento da cultura nessas regiões. Do contrário, ao invés de incentivarmos a cultura, estaremos apenas incentivando a perpetuação da ETERNA DEPENDENCIA EM RELAÇÃO AO ESTADO. O problema é que infelizmente muitos artistas querem exatamente isso. É um direito deles.  Na minha opinião, o direito de querer perpetuar o atraso.

• O Ministério da Cultura faz propaganda e promove a idéia de que a concentração regional e o financiamento de projetos hoje não contemplados pelo mercado cultural devem ser resolvidos com direcionamento direto dos fundos públicos e que esta é a melhor solução.

Essa é uma boa idéia e devemos apoiá-la (embora o MinC não faça isso na proporção necessária atualmente como demonstrado acima), mas sozinha não é a melhor solução para resolver a questão.

O orçamento direto do MinC está sujeito à cortes determinados pelo Ministério da Fazenda. Hoje a Lei Rouanet está livre desse corte de verbas. Mesmo que haja determinação por parte do governo de corte no orçamento do Ministério da Cultura, os recursos da lei Rouanet permanecem livres para financiar a cultura. Quem determina o seu direcionamento não é o governo e sim as empresas com o respaldo da Lei de Incentivo, que foi aprovada democraticamente no congresso e que garantiu a independência dos recursos da renúncia fiscal. Essa é uma grande conquista e uma grande vantagem. Por isso, devem conviver juntos os mecanismos de financiamento direto pelo setor público e o mecanismo de direcionamento de recursos pelo mercado. Também devemos lutar para que o orçamento direto do MinC seja aumentado e não contingenciado, mas para fazer isso não é preciso diminuir os recursos da renúncia fiscal e mutilar a máquina ágil de distribuição de recursos á cultura que a capilaridade das empresas e seus decisores representam.

• O Ministério da Cultura faz propaganda e promove a idéia de que é indesejável que 50% dos recursos estejam concentrados em 3% dos proponentes.

A verdade é que um único proponente  faz com que os recursos da Lei Rouanet fluam para  muitos artistas ao mesmo tempo. Então o que importa não é o número de proponentes que recebem o bolo, mas o número de artistas beneficiados. Dentro desse número estão centros culturais inteiros com programações anuais que beneficiam milhares de artistas  e um público enorme. Além disso estão incluídos também os proponentes ligados às entidades vinculadas ao próprio Ministério da Cultura com por exemplo a Associação dos Amigos da Funarte que concorre com os produtores privados pelos recursos do Mecenato, das estatais e de outras empresas. O MinC não faz essa contabilidade e portanto mais uma vez distorce a realidade.

Os grandes proponentes também movimentam uma grande quantidade de profissionais que não se restringem aos artistas. Existe uma cadeia econômica que gera muitos empregos a partir do financiamento da Lei Roaunet. Essa cadeia engloba o técnico de som e iluminação, o transportador, o camarineiro , o produtor cultural e a faxineira. Essa cadeia de empregos está prestes a ser prejudicada pela proposta inepta apresentada pelo Ministério da Cultura.

É preciso reconhecer o valor do produtor cultural/proponente que tem hoje o papel de agente viabilizador do financiamento à cultura, contribuindo para que os artistas possam se dedicar de forma mais integral à arte, com menos foco nas questões administrativas, de divulgação e de financiamento.  Infelizmente os proponentes e a produção cultural profissionalizada foram demonizados ultimamente. Isso é um grande erro, promove o atraso e em nada contribui para a prosperidade da arte e da cultura no Brasil.

• Na proposta apresentada, o ministério da Cultura quer limitar a 30% do valor do projeto o conjunto dos itens, elaboração do projeto, divulgação, captação e administração.

Isso só prejudica o pequeno produtor cultural. Nos projetos menores quanto mais restrição nessas rubricas pior será, pois nestes o próprio artista vai ser obrigado a fazer tudo e a divulgação restrita será incapaz de promover o encontro do artista com o seu público.

Essa limitação demonstra um grande desconhecimento da real necessidade e da realidade de muitos projetos. De que adianta financiar a produção de uma peça de teatro se não for permitido divulgá-la decentemente para promover o encontro da arte com o seu público ?

De que adianta pagar o ator e o diretor se não vai haver quem gerencie as contas do projeto e cuide para que ele seja bem divulgado ? Nas pequenas produções, com o limite de 30% não vai sobrar um tostão para pagar essas funções e o artista ainda vai ter que se virar para fazer tudo sozinho.

Uma proposta interessante seria  criar uma escala inversamente proporcional ao tamanho das produções. Quanto menor o projeto, maior deve ser o valor permitido  para esses itens (divulgação, elaboração+agenciamento e administração).

E o captador ? Vai ter que trabalhar de graça ? Acho que não vai aparecer ninguém disposto a fazer esse trabalho. E aí tome o artista de novo sendo obrigado a bater ele mesmo na portinha da empresa, ou pior ainda, na do governo. Os pequenos artistas  ficarão agora numa situação muito mais difícil, pois pela proposta do MinC, os percentuais de renúncia estão sendo alterados para valores muito menos estimulantes para as empresas do que atualmente. Todos os deserdados do atual mecanismo que será destruído (pois sabemos que a maioria dos recursos procura a isenção de 100%) vão se juntar no balcão do governo concorrendo pelos recursos que ficarão concentrados nas mãos  do Minc. Ou seja, aquele que acha que tem pouco hoje, vai ter muito menos amanhã, pois a concorrência pelos recursos de repasse direto vai se acirrar.

• Alguns acham e o MinC divulga que a criação das faixas diferenciadas 30%, 60%, 70%, 80%  e 90% da maneira como ele propôs é benéfica e vai equilibra a participação do financiamento de projetos com o dinheiro privado.

Na realidade o único efeito prático a ser produzido será a queda drástica do financiamento pelo Mecenato. Todos sabem que a maioria das empresas só se interessam por projetos no artigo 18 (100%)  e portanto sem uma mudança gradual, longa e programada nesses percentuais concomitante á uma campanha de capacitação e divulgação dos benefícios do marketing cultural para as empresas  o que teremos será  o sumiço desse dinheiro para a produção artística.

Ademais, a proposta atual não mais permite que essa aplicação de recursos no Mecenato seja uma despesa dedutível no imposto de renda. A grosso modo isso faz com que  para uma empresa que paga 35% de IR + CSSL a faixa de 30% signifique uma redução no imposto de apenas 5% (30%-35%) e que a  faixa de 60% represente uma redução de apenas  25% ( 35%-60%) para a mesma empresa.

É uma situação muito drástica que vai ter o único efeito prático de fazer minguar os recursos do Mecenato
Defendo inclusive neste momento o 100% de renúncia também para a música popular, pois ela é hoje o único patinho feio das artes, resultado da  imagem de uma realidade que não existe mais. A imagem de um rico mercado suportado pelas gravadoras na época pre-Napster  e pré Ipods e Iphones  que um dia serviu ainda que erroneamente para justificar o baixo incentivo à música popular.

• Muitos dizem que as grandes empresas que usam a Lei Rouanet só financiam as produções de artistas famosos que não necessitam do financiamento com dinheiro público.

A verdade é que isso não corresponde à realidade. Como resultado das pressões legítimas por mudanças de comportamento, as empresas amadureceram no uso da lei e as grandes empresas montaram institutos e departamentos especializados em analisar projetos do ponto de vista artístico e também do ponto de vista de seu impacto social. A grande onda da responsablidade social contribui para isso e nem só de marketing, vive o financiamento da cultura pelas empresas, como continuam a insistir alguns. Um entre muitos dos bons exemplos é o programa de Democratização Cultural da Votorantim que financia pequenos produtores culturais e comunidades de artistas e trabalham para que estes se desenvolvam e se tornem cada vez mais independentes, além de suportar projetos que tenham como caracteristica a democratização do acesso. Isso é feito com o dinheiro da Lei Rouanet por uma mega empresa capitalista.  As grandes empresas fazem editais públicos, com critérios sim “claros e objetivos” que publicam nos  seus sites de inscrição a fim de promover a cultura que julgam relevante e merecem recursos. Não  é que não exista relevãncia cultural. O problema é que julgar o mérito dos projetos não deve ser prerrogativa de meia dúzia de “doutores da lei” no Ministério da Cultura e não são só eles que sabem eleger projetos de relevância cultural.

• Os maus exemplos são utilizados para demonizar toda a legislação, esquecendo-se dos bons exemplos e resultados que ela também produz.

O bode expiatório clássico, Cirque Du Soleil, foi aprovado pelo MinC sem que este exigisse do proponente, nenhuma contrapartida democratizante. O Minc poderia ter exigido para aprovar o projeto por exemplo, a transferência de conhecimento para escolas de circo brasileiras e um determinado número de espetáculos gratuitos para quem não pode pagar. A CNIC (Comissão Nacional que avalia os projetos) já tem poderes suficientes para exigir tais contrapartidas. Então, na verdade, esse caso foi um caso de omissão da administração do Ministério da Cultura. Ao invés de reconhecer a responsabilidade do Ministério da Cultura neste episódio, preferiram culpar somente  o mercado.

Para finalizar esse texto, longo e argumentativo gostaria de colocar uma observação feita por um produtor cultural de sucesso de São Paulo que para mim representa  o arquétipo da contradição e  das fraquezas do setor cultural no Brasil como um todo.

O que ele disse foi mais ou menos assim: “Enquanto todos os setores da sociedade  se unem nos momentos de crise para defender seus interessems com mais incentivos fiscais, o setor cultural parece que sente culpa por usar o dinheiro público para o seu financiamento. Veja como nós somos bonzinhos: Nós somos os únicos que aceitam colocar o selo do governo federal nos nossos produtos só porque usamos dinheiro de incentivo fiscal. Nunca vi uma televisão fabricada na zona franca de Manaus, com  o logo do Brasil um país de todos e do Ministério da Indústria. Nunca vi um carro fabricado recentemente com baixa alíquota de IPI colocar o selo do Brasil um País de Todos e do Ministério da Fazenda ou da Receita Federal.

Diferenças à parte, isso é muito simbólico e talvez explique muito a situação em que a cultura se encontre.
Espero que os pontos apresentados acima possam servir para:

a-) contribuir para derrubar alguns mitos sobre as críticas que se faz da Lei Rouanet atual (sem negar que existem questões a serem aperfeiçoadas e problemas a serem corrigidos)

b-) esclarecer que alguns bichos-papões consagrados não são tão feios como querem alguns e não são mais feios do que outros bichos ocultos no discurso do ministério da cultura (que grande parte da comunidade artística não pôde ver até o momento).

c-) mostrar que a proposta apresentada pelo MinC é sofrível do ponto de vista técnico e não vai resolver as questões debatidas nos últimos 6 anos.

d-) enfim, contribuir para mostrar que a Reforma da Lei Rouanet necessária com certeza não é essa que foi apresentada pelo MinC.


contributor

Economista, é gestor do Programa Fábricas de Cultura pela Poiesis – Organização Social de Cultura, especialista em Gestão Cultural pela Cátedra Unesco de Políticas Culturais (Universitat Di Girona/ Itaú Cultural) e professor de Marketing no curso de graduação em Produção Cultural na FAAP.

8Comentários

  • Nany Semicek, 2 de abril de 2009 @ 10:06 Reply

    Kluk, acho muito interessante a maior parte do seu discurso, mas só atenção para alguns detalhes que você vem repetido frequentemente no Forum e agora encontro estes mesmos conceitos no seu texto.
    Assim como clamamos que produtores dos “outros estados” não levantem a bandeira para lutar pela verba já disponível para a região sudeste e sim brigar para o aumento do montante final, te peço para se atentar ao discurso de caráter diminutivo que está tratando estes profissionais de fora do eixo.
    “Há um maior número de proponentes capacitados a lidar com a produção cultural de forma profissionalizada no sudeste, e que aprenderam a interagir com a mundo empresarial e canalizar os recursos da renuncia fiscal através da decisão das empresas que apóiam os seus projetos.”. Não é pelo fato destes produtores não utilizarem o Mecenato tanto quanto a região sudeste que eles sejam “menos profissionais”. Pelo contrário, exatamente por não ter esta facilidade, desenvolvem diversas formas inteligentes de financiamento para suas produções sem o apadrinhamento que temos aqui. E se não utilizam a Lei não é por não serem capazes! Vamos cuidar com este pensamento xenófobo.
    O seu argumento de que proponentes do sudeste levam suas produções (normalmente com alto custo de acesso) para fora do eixo não ameniza o fato real da necessidade de desenvolvimento econômico destes profissionais, pois como você mesmo diz esta cadeia produtiva é o que gera empregos na região. Estes profissionais fora do eixo também precisam ter a possibilidade de se dedicar de forma mais integral à arte com ferramentas sólidas de trabalho.

  • Carlos Henrique Machado Freitas, 2 de abril de 2009 @ 11:21 Reply

    Kuklo Neto
    Você está demonizando esta mudança da lei, com o argumento de que não há transparência. Apenas uma pergunta. Você poderia me trazer, de forma transparente e bem articulada em texto, aonde se consiste o seu julgamento de que a Lei Rouanet é um livramento? um instrumento que exige transparência nos critérios de escolha das ditas patrocinadoras? Ora Kuklo, afirmo-lhe com toda certeza que nas comissões, os critérios estabelecidos nas reuniões dos bispos privados dessas sentenciadoras inquisições, são inspiradas em algo parecido com calabouço. Ninguém tem a menor idéia de como, por quê e para quê os projetos são selecionados. Não é exatamente uma caixinha de surpresa, é uma caixa preta carregadada de traças, cupins e ferrugem. Dentro há um texto em codigos só decifrados pelos afins com normas a serem seguidas onde também há de se conter alguma coisa que abranja muitos interesses que contemplem vários grupos de amigos, de indicações políticas e todos os horrores que uma relação promíscua entre o setor privado e o baixo clero da política brasileira. Não venha você aqui falar em transparência de seleção sem antes tirar desse lodo qualquer coisa que possa parecer com, pelo menos, caricatura republicana e democrática. Sejamos tudo, ténicos, jogadores e torcedores, mas não sejamos hipócritas! Do contrário, daqui a pouco tentaremos convencer ao ouvinte da nossa narrativa de que o gol ouvido no rádio e comemorado contra um determinado time, na verdade é um gol a favor. Numa hora dessas é melhor o famoso, pão pão, queijo queijo e não as intermináveis conjecturas fisiológicas em adornos do bufet do pânico. Já passamos da fase do terrorismo da namoradinha do Brasil.

  • Carlos Henrique Machado Freitas, 2 de abril de 2009 @ 19:14 Reply

    Kuklo
    Ainda estou tentando digerir os seus argumentos, compreender suas razões inflamadas em prol de discursos como tantas pessoas neste país que explicam, mas não justificam questões de gritantes disparidades. Seu discurso parece uma peça de defesa que, a meu ver, produz um grande alarido que desemboca na mesma panacéia dos homens do poder econômico deste país. Por este caminho a coisa não vai. Você fala da demonização dos gestores, mas não fala da santificação deles, e acabam virando referência de um processo viciado. É lógico que esses agentes são peças fundamentais de toda essa engrenagem, mas alguns se excederam em acharem que a família dos “Orleans e Bragança”, exigindo em alguns momentos um certo estrelato. Ao mesmo tempo que eles criaram essa caricatura, outros tantos gestores sérios acabm sugados por esse ralo. Isso posso compreender, mas assim como temos chiliques nas crises de celebritites agudas de artistas, um ato pleno de arrogância, também temos cada produtor, cada gestor.

    Quanto as críticas às estatais, sou-lhe razão, e não só nas estatais, essa idéia de novo modelo de gestão é uma praga, uma forca que estrangula a sociedade cada dia mais e tem sim migrado do setor privado para o setor público. A forma com que operam bancos estatais e privados, mostra bem isso. Os bancos privados conseguiram contaminar os estatais a ponto do Banco do Brasil ficar parecido com Bradesco ou Itaú na relação com seus clientes, em suas poucas virtudes e as suas muitas deficiências, para o bem dos correntistas.

    As estatais de fato adotarem este modelo que você cita, o que é mais assombroso. Eu mesmo tive essa amarga experiência, de ouvir em alto e bom som que uma das patrocinadoras estatais que não tinha qualquer compromisso com a cultura, que fará com os desdobramentos a que me propus a falar. A pessoa, dentro do seus oráculo, departamento de marketing, foi curta e grossa: “não temos nenhum tipo de responsabilidade com isto. Sem engolir esta declaração irresponsável, posso entender claramente aquela atitude, depois de tanto insistirem comigo e com Leonardo Brant e depois uma belíssima explicação de Maria Alice Gouveia. Aí sim pude compreender o que os dois vinham dizendo há muito, e linkei com este episódio dentro da estatal. Fiz muitas e pesadas críticas ao Minc por não interferir nisso.

    O que me incomoda em suas observações acima, é a falta de detalhe, de minúcias, de sutileza. E não é social, pois detesto esta visão porque toda a base social da nossa cultura, onde somos mais criativos, são as classes menos favorecidas. A nossa burguesia é historicamente manipulável política e culturalmente, e lógico acaba colocando em xeque a formação acadêmica dos burgueses que adoram um badulaque qualquer que esteja na moda em alguns desses rits fabricados pela indústria de entretenimento. Não me canso de dizer que esses rompantes de arrogância das classes dominantes ssempre foram motivos de chacota até para as mentes minimamente pensantes.

    Eu sou um convicto admirador das mentiras medianas. Adqui muito desse vício, mas também percebo que, quanto maior a colina, maior é a mentira. Então, os seus números que estão colocados aqui na base da trombada, retratam uma certa pirotecnia matemática, aquelas coisas que temos que falar rápido, bem típico dos ilusionistas. Todos esses truques percentuais não aguentam uma garoa, porque se dissolvem com realidades bem mais profundidade nas políticas efetivamente públicas de cultura. temos que sair desse campo numérico e compreender mais o campo simbólico. Uma sociedade não é organizada como um código de barras. Essa numerologia insistentemente aplicada, trata mais do exoterismo de certa imaginação política do que algo concreto que nos traga alguma coisa mais próxima do real.

    Esses faróis jamais trouxeram luz a qualquer forma de desenvolvimento. Não vou citar aqui, ponto a ponto, a sua forma equivocada de colocar questões superficializadas através de estatística. Como já disse aqui mesmo, números são bem mais maleáveis nas manipulações do que podemos imaginar. E neste ponto você aplica o mesmo critério do Minc que você reclama de apresentar dados errados. Então seria melhor buscarmos uma reflexão mais profunda sobre a cultura e sobre os impactos de uma ação sobre a sociedade.

  • Kluk Neto, 3 de abril de 2009 @ 0:56 Reply

    Caro Nany,

    Muito obrigado pelo seu comentário. Ele chamou a atenção para um ponto que eu gostaria de esclarecer para que não me entendam mal. Eu jamais disse que nas outras regiões do Brasil não há produtores culturais que atuem de forma profissionalizada. O que eu disse é que no sudeste “há um maior número” destes. Isso pode ser comprovado tanto pelas estatísticas do número de projetos propostos por região, quanto pelo número de projetos aprovados pelo MInC por região. O sudeste propõe mais e consegue também aprovar um percentual maior do total de projetos qeu propõe. Isso com certeza nos diz alguma coisa. Quiz dizer também que no sudeste, estes aprenderam a interagir com o mundo empresarial com que lidam com mais sucesso que em outras regiões. Esse índice de sucesso também está relacionado, evidentemente com a concentração das empresas nessa região e não podemos justificar esse sucesso dizendo que os produtores do sudeste “são melhores” que os de outras regiões. Jamais disse isso, pois seria um grande desrespeito e sei perfeitamente que as condições adversas enfrentadas, seja pelos produtores de outras regiões, seja pelos produtores do próprio sudeste que não conseguem captar pela Lei Rouanet, ensejam o desenvolvimento de talentos e competências profissionais visando a superação de osbstáculos.Entretanto, se quisermos atacar o problema verdadeiramente, deveremos olhar a questão de forma técnica e analisar as condições de desigualdade de forma franca, reconhecendo as deficiências onde elas houverem, para que sejam combatidas quando necessárias.

  • vanessa gabriel, 5 de abril de 2009 @ 22:11 Reply

    Kluk,

    os argumentos contra a reforma na lei devem servir para unir os produtores brasileiros de todas as regiões e não desunir. a questão não é de onde vem os recursos ou se as empresas estão mais concentradas aqui ou não ou se os produtores do sudeste tem mais condições de dialogar com os empresários daqui. concordo em alguns pontos, mas você deixa um grande hiato de argumentação justamente no ponto em que o MINC mais critica e que mais está ganhando adeptos: a descentralização dos recursos.
    Muito dessa concentração é culpa do MINC, sim, mas não podemos fechar os olhos e negar que a concentração existe em uma determinada região. Não engulo o argumento de concentração de contabilidade, que as empresas estão, na sua maior parte, na região sudeste e por isso seria “natural” elas incentivarem ações culturais por aqui. Acredito que responsabilidade cultural é uma questão de relacionamento. se a empresa atua nacionalmente em seus negócios, o natural é que patrocine projetos de forma nacional, beneficiando a todos. Não acredito que produtores do sudeste saibam a necessidade cultural da comunidade do nordeste ou do norte. é o produtor local, daquela região, que deve ser beneficiado. ele também faz parte da cadeia produtiva da cultura. ele também quer sobreviver de produção cultural como qualquer outra pessoa que entra nesse mercado.
    Se uma empresa que tem atuação apenas no Nordeste patrocinar algo no Sudeste ou no Norte acharei extremamente estranho. Mas se uma empresa de atuação nacional, que conta com clientes em todo o Brasil, apenas patrocinar projetos em um ou dois estados, pior, em uma ou duas cidades, pelo simples argumento que é onde se concentram muito mais clientes, estarei dando razão ao MINC de que são os departamentos de MKT que decidem para onde vai cada centavo de incentivo cultural.
    Essa argumentação de que produtores do sudeste levam também projetos pro Nordeste parece a antiga catequisação dos jesuítas, que vieram para o Brasil trazer a sua “cultura” aos nativos.

  • Kluk Neto, 6 de abril de 2009 @ 19:08 Reply

    Vanessa,

    O que procurei mostrar é que a proposta do MinC não é capaz de combater a concentração regional.
    O Ministério quer difundir a idéia de que o Fundo sob a gestão do governo será o mecanismo desconcentrador. Eu acho que ele tem que ser mesmo, mas se olharmos os números da distribuição do FNC o governo colocou 51% do total em três estados, Rio, São Paulo e Minas. Então o governos também contribui para a concentração. Isso ocorre pois os projetos propostos concentram-se nesta região.
    Outra coisa importante é dizer que as faixas escalonadas criadas pelo MInC não serão capazes de fazer a desconcentração, pois se uma empresa não tem interesse em investir em determinada região ela nõa o fará, mesmo que for de graça e preferirá gastar dinheiro na sua área de interesse.
    Concordo que as empresas com atuação nacional deveriam investir em todas as regiões, e muitas o fazem, mas ainda assim não na proporção que querem fazê-las investir.
    O problema é que da maneira que o Ministério propõe, não será possível “forçar” as empresas a investirem onde elas não desejam.
    É claro que os departamentos de mkt das empresas estão decidindo para onde vai a verba, assim como os departamentos de resp social corporativa. A questão é que as empresas também são parte da sociedade e querem participar do processo decisório sim. Veja o exemplo do Funcad no Rio. Depois que revogaram a deliberação que permitia que as empresas escolhessem qual seria o projeto a ser incentivado pela renuncia fiscal o volume de investimento no Rio caiu de R$ 1,7 MM em 2004 para R$ 332,8 mil em 2007. Em são Paulo onde é permitido que 90% do valor investido seja direcionado à projetos que a empresa escolhe o fundo passou de R$ 4 milhões em 2004 para R$ 40 milhões em 2007. O motivo da queda ocorrida no Rio é admitido pelo Conselho Municipal da Criança e do Adolescente.O empresariado quer participar.
    Então é uma ilusão acreditar que a proposta do MInC vai resolver o problema da concentração. Não vai, esse é o ponto. Eu também sou a favor da desconcentração só que a atual Lei Rouanet já tem os dispositivos que permitem fazê-los. Jà existe o FNC. è preciso fortalecê-lo e aumentar a sua arrecadação e cobrar do governo que combata de forma efetiva a concentração É isso que precisa ficar claro.O único efeito que a atual proposta do MinC pode produzir é concentrar todo o poder decisório nas mãos do Ministério e os produtores culturais sabem muito bem o que isso significa. Um porta escancarada para o dirigismo estatal.

  • Cris, 7 de abril de 2009 @ 11:12 Reply

    Não, a proposta do minC não é capaz, sozinha, de combater a centralização de recursos. Mas tenho minhas duvidas se um empresário, que já ja faz uso da lei de mecenato e conhece a vantagem de fazer markting cultural com dinnheiro de impostos (dinheiro publico), mesmo achando menos interessante, deixaria de investir em outros estados e regiões se assim fosse obrigado pelas circusntancias. Concordo quando vc diz que mais empresas deveriam conhecer os caminhos do marketing cultural e para isso uma campanha de sensibilização não seria mal e mais ainda, incentivos reais para as pequenas empresas seriam uma evolução significativa. Porém acredito que algumas mndanças são feitas para provocar outras, e essa vem para provoca muitas, inclusive as que vc revindica. Chamando a responsabilidde para si, o fundo do MinC terá que ser mais eficaz e varias outras açoes terão que ser postas em pratics para que se cumpram os objetivos. É bom lembrar que Lei Rouanet é uma parte da politica publica do minC, e se era, não deve continuar a ser o unico mecanismo de fomento cultural.

    Um abraço,

    Cris.

  • Cris, 8 de abril de 2009 @ 8:30 Reply

    Oxente…não colocou meu comentario porquê?

    Um abraço e bom dia!

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